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Com chance de 17 governadores eleitos em 1º turno, estados-chave influenciarão Lula e Flávio

São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Ceará têm especial relevância para as campanhas presidenciais num eventual 2º turno

Luiz Inácio Lula da Silva: presidente durante ato de campanha na Zona Leste de São Paulo, no sábado, 26 de setembro; Sudeste é prioritário para a campanha petista (Ricardo Stuckert)

Luiz Inácio Lula da Silva: presidente durante ato de campanha na Zona Leste de São Paulo, no sábado, 26 de setembro; Sudeste é prioritário para a campanha petista (Ricardo Stuckert)

As eleições deste domingo, 4, chegam ao primeiro turno com possibilidade de definição das disputas para governador em 17 unidades da Federação, segundo pesquisas recentes de intenção de voto.

O grupo reúne desde candidatos com desempenho acima da metade dos votos válidos nas pesquisas, líderes próximos desse patamar, até eleições em que, na prática, há um duopólio na disputa já no primeiro turno.

Embora o voto para governador não se transfira automaticamente ao candidato à Presidência apoiado por ele, os resultados estaduais vão influenciar os cálculos das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Vitórias em estados com peso eleitoral, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Ceará, podem liberar aliados para organizar atos e mobilizar prefeitos em prol da disputa presidencial na campanha de segundo turno.

Por outro lado, o encerramento da disputa estadual pode diminuir o incentivo de parte do eleitorado para voltar às urnas em um eventual segundo turno presidencial, o que aumentaria a abstenção.

Sudeste tem peso estratégico

O Sudeste concentra a principal frente da apertada disputa presidencial, embora seus maiores estados tenham claros favoritos para governos estaduais. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a região reúne 41,78% do eleitorado brasileiro.

São Paulo deve encerrar a disputa para governador ainda em primeiro turno e há chances reais, embora menores, de que Rio de Janeiro e Minas Gerais também liquidem as faturas estaduais em 4 de outubro.

Com Lula e Flávio próximos nas pesquisas nacionais, pequenas diferenças no comparecimento ou na mobilização dos aliados podem produzir efeitos relevantes no resultado nacional nesses estados.

Luis Gustavo Fakhouri, cofundador da Palver, avalia que no primeiro turno a mobilização do eleitor para ir votar também depende dos candidatos a deputado e senador, que deixam de disputar votos depois de domingo.

Como Lula e Flávio já são conhecidos e têm rejeições consolidadas, ele considera que a principal consequência do rearranjo dos palanques pode estar no comparecimento às urnas.

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Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparece com mais de 60% dos votos válidos na última pesquisa da Quaest, divulgada na véspera do primeiro turno, e deve vencer a eleição neste domingo.

Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos) está também acima dessa linha. Já no Rio, a vantagem de Eduardo Paes diminuiu gradativamente, indicando possível segundo turno -- embora a decisão da Justiça envolvendo a campanha de Paes possa auxiliar em um desfecho no 1º turno.

A prioridade dada a esses estados aparece nas agendas de campanha da reta final.

Lula passou por Pará, Bahia e Ceará antes de concentrar os últimos compromissos em Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, onde encerrou a campanha de primeiro turno.

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Ao longo da campanha, foram 13 atos no Sudeste: cinco atos em São Paulo, quatro em Minas e quatro no Rio. São os três estados com mais atos de campanha com a presença de Lula. Seriam 14, se na quarta-feira, 30, sua participação em um comício em Juiz de Fora não fosse cancelada devido ao mau tempo.

Flávio também intensificou sua presença em Minas Gerais, São Paulo e Rio nos dias finais antes do primeiro turno.

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O cálculo de Lula em São Paulo

A escolha de Fernando Haddad para disputar novamente o governo estadual paulista pelo PT atendeu à estratégia de reunir a esquerda, organizar a militância e oferecer palanques a Lula no maior eleitorado do país.

Mesmo tendo demonstrado resistência a uma nova candidatura estadual, o ex-ministro da Fazenda assumiu a missão. As pesquisas, porém, indicam dificuldade para prolongar a disputa até o segundo turno.

De acordo com a Quaest, Tarcísio tem 60% dos votos válidos e Haddad, 36%.

Amigo próximo de Lula, o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e candidato a deputado federal Moisés Selerges avalia que uma derrota de Haddad já no primeiro turno pode dificultar a mobilização petista, mas ressalta a existência de eleitores que combinam escolhas de campos políticos diferentes.

"Se Haddad não for para o segundo turno, pode atrapalhar a campanha do Lula no estado no segundo turno. Mas o fato é que muita gente vota no Tarcísio para governador e Lula para presidente. Se for vitorioso, Tarcísio pode jogar parado", afirma.

Bruno Soller, cientista político e sócio da Real Time Big Data, considera que a candidatura de Haddad também cumpriu uma função partidária: organizar o voto nas disputas para deputado federal e estadual.

"Mesmo com poucas chances de vencer o governo, um nome conhecido e capaz de reunir uma parcela expressiva do eleitorado ajuda a sustentar as candidaturas proporcionais do PT", diz ele.

Para Soller, uma vitória no primeiro turno daria a Tarcísio mais tempo para participar da campanha presidencial, mas a intensidade desse envolvimento continua incerta.

O cientista político pondera que os interesses nacionais do governador também entram nessa decisão e avalia que a transferência adicional de votos pode ser limitada, porque boa parte do eleitorado paulista já fez sua escolha para presidente.

"Sem um segundo turno em São Paulo, ao mesmo tempo em que Tarcísio ganha tempo para fazer campanha para Flávio, uma vitória do bolsonarismo agora significaria um impedimento da candidatura dele à Presidência em 2030. Ele deve organizar comícios para Flávio no segundo turno, mas pode não mobilizar a estrutura de apoio da máquina de São Paulo", afirma.

Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, identifica a mesma incógnita. “Em São Paulo, tudo indica uma vitória do Tarcísio, mas não se sabe quanto ele vai entrar na campanha presidencial no segundo turno. É uma pergunta ainda sem resposta”, diz ele.

Fakhouri, por sua vez, destaca o risco de desmobilização. Ele observa que o interior paulista tem forte adesão a Flávio e considera que um eventual aumento na rejeição ao candidato do PL ao longo de um segundo turno poderia afetar o comparecimento de seus eleitores.

A disputa presidencial em São Paulo, avalia, pode depender mais de manter os apoiadores mobilizados do que de gerar grandes transferências de votos.

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Haddad ao fundo durante evento que sacramentou a campanha de Lula em 2026 (Reprodução)

Lula lidera em Minas Gerais, mas 'fator Cleitinho' pode influenciar

Desde 1989, o vencedor da eleição presidencial também venceu em Minas, o que reforça a atenção das campanhas de Lula e Flávio ao estado.

Em Minas Gerais, a possibilidade de segundo turno permanece aberta. O senador Cleitinho (Republicanos) tem 54% dos votos válidos de acordo com a pesquisa Quaest divulgada em 3 de outubro. Patrus Ananias (PT), ex-prefeito de Belo Horizonte, se manteve em segundo lugar com 23% e à frente Alexandre Kalil (PDT), que aparece com 10%. Com margem de erro de três pontos, o levantamento não permite afirmar se a eleição terminará neste domingo.

Na disputa presidencial em Minas Gerais, Lula aparece à frente no estado, com 42% das intenções de voto, ante 36% de Flávio, segundo o Datafolha divulgado em 2 de outubro. A diferença de seis pontos configura empate técnico no limite da margem de erro de três pontos para cada candidato.

Soller considera Minas um dos principais pontos de atenção para o PT. Assim como em São Paulo, a candidatura de Patrus ajudou a organizar o eleitorado petista. O desafio agora é garantir uma segunda rodada estadual e avaliar como essa disputa afetaria os eleitores que hoje combinam votos em Lula e Cleitinho.

Na avaliação do cientista político, um confronto entre Cleitinho e Patrus tenderia a aproximar a eleição estadual da polarização presidencial. Isso manteria um palanque competitivo para Lula, mas também poderia estimular Cleitinho a trabalhar mais diretamente por Flávio.

A capacidade do senador de converter em apoio ao presidenciável do PL parte dos eleitores que hoje votam em Lula é uma das principais incertezas da campanha mineira.

No Rio de Janeiro, a possibilidade de vitória em primeiro turno de Eduardo Paes (PSD) é incerta. No cenário do levantamento da Qauest deste sábado, 3, que inclui Anthony Garotinho (Republicanos), cuja campanha está sub judice, Paes tem 49%, enquanto Douglas Ruas (PL) aparece com 40%. No cenário sem Garotinho, o ex-prefeito carioca apoiado por Lula tem 51% dos votos válidos.

Murilo Hidalgo, do Paraná Pesquisas, avalia que uma vitória imediata de Paes poderia ajudar Lula a ampliar a mobilização no estado. O presidente tem uma desvantagem a reduzir: no Datafolha divulgado em 2 de outubro, Flávio registra 45% das intenções de voto dos fluminenses, contra 38% do petista.

Lula quer ampliar vantagem no Nordeste

Para o PT, Bahia e Ceará reúnem outra combinação de riscos e oportunidades. Os dois estados têm governadores petistas que disputam a reeleição contra adversários competitivos, em campanhas concentradas em dois nomes. Tanto o baiano Jerônimo Rodrigues quanto o cearense Elmano de Freitas estão em disputas polarizadas com seus rivais que não podem ser classificados bolsonaristas.

Em relação à Bahia, a polarização entre Jerônimo e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) preparou as duas principais campanhas para a finalização da eleição já no próximo domingo, 4. Em toda a história, a eleição baiana registrou segundo turno apenas em duas ocasiões: 1994 e 2022.

Lula e Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia: PT dobra a aposta na Bahia (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)

Relatos feitos à EXAME por interlocutores das duas candidaturas afirmam que há um “clima de favoritismo” para que Jerônimo Rodrigues vença a disputa na Bahia.

Em pesquisas divulgadas nesta semana, o atual governador ultrapassou ACM Neto nas intenções de voto e reforçou a tendência de o PT completar 24 anos à frente do governo da Bahia.

Com a possibilidade de vencer no primeiro turno, a campanha petista baiana se organiza para “não perder a mobilização” após o fim da disputa estadual, visando “manter o gás” em prol da reeleição.

Um integrante da campanha de Jerônimo apontou à EXAME que prefeitos do interior foram contatados para manter os palanques nas cidades em caso de vitória no estado, e reforçar a vantagem de Lula na disputa presidencial.

O PT tem buscado que o presidente tenha uma vantagem acima dos 5 milhões de votos na Bahia, melhorando o desempenho em relação à eleição de 2022, quando o atual presidente registrou uma vantagem de 3,7 milhões sobre Jair Bolsonaro.

Por outro lado, a campanha de ACM Neto se divide sobre um possível apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, que enfrenta cenário difícil na Bahia.

No Ceará, a trajetória de Elmano de Freitas ante o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) também é de ascendência: o petista aparece com 50% das intenções de voto ante 47% de Ciro na pesquisa Datafolha divulgada na véspera do primeiro turno.

Bruno Soller avalia que Jerônimo e Elmano se beneficiam da avaliação de suas gestões, do apoio de lideranças que os antecederam e das redes locais de aliados. Também considera que ACM Neto e Ciro construíram candidaturas capazes de disputar eleitores de Lula, sem reproduzir integralmente a divisão nacional entre petismo e bolsonarismo.

Já Murilo Hidalgo ressalta que o efeito presidencial depende de quem vencer. “Elmano, se ganhar no primeiro turno, por exemplo, vai se mobilizar para ampliar a vantagem de Lula no Ceará. O Ciro, não”, afirma. O diretor do Paraná Pesquisas vê uma dinâmica semelhante na Bahia.

Alagoas e Pernambuco também apresentam disputas concentradas em que aliados de Lula, respectivamente o ex-ministro Renan Filho (MDB) e o ex-prefeito de Fortaleza João Campos (PSB) podem vencer no primeiro turno.

Vantagem de Flávio no Sul

No Sul, o cenário oferece a Flávio uma base de aliados bem posicionados, o que pode consolidar sua larga vantagem contra Lula.

No Paraná, maior colégio eleitoral da região, Sergio Moro (PL) lidera as pesquisas no Paraná, embora a vitória em primeiro turno seja improvável. O bolsonarista Luciano Zucco (PL) também aparece à frente no Rio Grande do Sul, embora ainda enfrente disputas competitivas. Já em Santa Catarina, Jorginho Mello (PL) tem 54% dos votos totais na Quaest de 24 de setembro e deve se eleger neste domingo.

A reorganização desses palanques terá consequências diferentes conforme o estado e o vencedor. Para os entrevistados pela EXAME, ganhar uma eleição local pode oferecer tempo, lideranças e capacidade de mobilização à campanha presidencial, mas o efeito depende do empenho do aliado e da disposição do eleitor para voltar às urnas.

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