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Na reedição de 2022, Jerônimo aposta em Lula e interior; ACM Neto mira desgaste do PT na Bahia

Disputa na Bahia põe em xeque hegemonia política de 20 anos do PT contra o “herdeiro” do carlismo no estado

 (Facebook/Montagem Exame/Reprodução)

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Leo Almeida
Leo Almeida

Colaborador

Publicado em 1 de outubro de 2026 às 06h00.

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Salvador, Bahia — A eleição para o governo da Bahia em 2026 repete o duelo de 2022 entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), agora com contornos de plebiscito sobre quase duas décadas de hegemonia petista no estado.

De um lado, o petista aposta na entrega de obras, na força de Lula e na capilaridade no interior para consolidar uma imagem própria. Do outro, o ex-prefeito trabalha a tese do esgotamento de 20 anos de governo do PT, critica áreas sensíveis como segurança pública e saúde e tenta unificar a direita no estado.

A eleição baiana de 2026 é, em essência, uma reedição do confronto de 2022, quando Jerônimo Rodrigues, então um candidato praticamente desconhecido fora dos círculos do governo, derrotou ACM Neto por margem estreita. O resultado daquele ano mudou a forma como as campanhas e os analistas passaram a ler a disputa estadual, e as duas principais forças políticas da Bahia chegam a 2026 com estratégias redesenhadas a partir daquela experiência.

Jerônimo Rodrigues construiu sua campanha em torno da ideia de “renovação dentro da continuidade”. Ao buscar a reeleição, o governador tenta consolidar uma identidade própria e demonstrar que o projeto petista na Bahia não depende exclusivamente das figuras históricas dos ex-governadores Jaques Wagner e Rui Costa — atualmente candidatos ao Senado pela Bahia.

Sua estratégia se apoia na entrega de obras de infraestrutura em todo o estado, na associação direta à imagem do presidente Lula — principal motor eleitoral do partido na Bahia — e no combate ao carlismo e ao bolsonarismo, tentando vincular ACM Neto ao passado político de seu avô, o ex-governador e ex-presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), e ao campo bolsonarista.

O slogan da campanha, “A Bahia mudou e vai mudar mais”, é construído em paralelo ao de Lula, “O Brasil pronto para mais”. A chapa ao Senado foi fortificada com Jaques Wagner e Rui Costa, e o governador tem destacado a necessidade de manter a aproximação não apenas com prefeitos, mas também com ex-gestores, vereadores e movimentos sociais.

ACM Neto, por sua vez, estrutura sua candidatura na tese do “fim de ciclo”. Seu slogan, “Mudança com Segurança”, sintetiza a aposta no desgaste acumulado de duas décadas de uma mesma força política no comando da máquina estadual.

O ex-prefeito concentra suas críticas nos pontos mais vulneráveis do governo: a segurança pública, com o avanço das facções criminosas, e a saúde, com gargalos crônicos como as falhas no sistema de regulação de leitos. Ele contrapõe esses problemas à sua experiência administrativa como prefeito de Salvador.

A chapa de Neto foi oficializada em convenção do União Brasil realizada em Salvador, no mês de julho, com Zé Cocá (PP) como candidato a vice-governador e os senadores Ângelo Coronel (Republicanos), disputando a reeleição, e o ex-ministro João Roma (PL). A composição representa uma tentativa de unificar o campo da direita e da centro-direita na Bahia, incluindo a pacificação da relação com João Roma, que em 2022 foi candidato ao governo pelo PL e teve atritos com Neto durante a campanha daquele ano.

A aproximação com Roma tem um objetivo eleitoral claro: trazer os votos bolsonaristas sem vincular diretamente o ex-prefeito à imagem do bolsonarismo. Em 2022, a ausência dessa transferência direta de votos fez falta a Neto no segundo turno, quando a diferença entre os dois candidatos girou em torno de 463 mil votos.

Neto também declarou apoio a Ronaldo Caiado para a Presidência, uma escolha que o distancia do campo bolsonarista mais radical e busca atrair o eleitor de centro.

Território lulista

Pesquisas de intenção de voto para presidente na Bahia mostram Lula com vantagem expressiva, o que torna a associação com o petista um ativo estratégico central para Jerônimo. Levantamento da AtlasIntel no início de setembro apontou Lula com 58,1% das intenções de voto na Bahia, contra 29% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de quase 30 pontos. Em agosto, pesquisa Real Time Big Data mostrou Lula com 56% contra 23% do senador do PL.

Diante da musculatura de Lula no estado, a candidatura do presidente à reeleição é considerada um trunfo eleitoral na Bahia e tem sido explorada pelas campanhas. O petista, inclusive, realizou seu primeiro ato de campanha de rua em Salvador durante agenda no final do mês de julho.

Disputa equilibrada finalizada em 1º turno

A corrida para o governo, no entanto, apresenta um cenário muito mais equilibrado. O agregador de pesquisas Monitor Eleitoral, da Inteligov em parceria com a EXAME, mostrava ACM Neto com 46,32% e Jerônimo Rodrigues com 40,66% no fim de setembro, uma diferença de 5,66 pontos que vinha diminuindo a cada rodada. Na edição anterior do agregador, a distância era de 6,25 pontos.

Aliado a isso, a análise do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) classifica a Bahia entre os 13 estados que tendem a decidir a eleição para governador já no primeiro turno, mas ressalva que a proximidade entre os líderes em estados como Bahia e Pernambuco “aponta para maior incerteza do que em cenários nos quais um candidato aparece mais distante dos adversários”.

No entanto, apesar do equilíbrio na disputa, o cientista político e pesquisador da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Cláudio André de Souza, avalia que Jerônimo ainda é considerado favorito. Dentre os fatores para o favoritismo estão a força de Lula na Bahia e o forte arco de alianças com prefeituras do interior.

“O lulismo funciona como um atalho de representação política para dois terços do eleitorado baiano. É a combinação entre a força local dos mais de 320 prefeitos e o fator nacional de Lula que dá a Jerônimo o favoritismo nessa reta final", diz o pesquisador.

Para ele, o cenário é bem diferente daquele que antecedeu 2022, quando as pesquisas davam larga vantagem a ACM Neto. "Hoje, os mesmos levantamentos mostram empate técnico”, afirma.

Recálculo nas estratégias

A eleição para o governo da Bahia em 2026 deve estar entre as mais acirradas dos últimos tempos no estado. A avaliação é de Eduardo Dias, editor de Política do jornal A TARDE, um dos principais do estado.

Para ele, a diferença em relação a 2022 é evidente: naquele ano, a imprensa e os analistas trabalhavam com um favoritismo grande de ACM Neto, e o resultado das urnas surpreendeu com a vitória de Jerônimo Rodrigues, que por pouco não foi definida ainda no primeiro turno.

"A gente enfrenta, neste ano, uma das eleições mais acirradas dos últimos tempos na Bahia", afirma Dias. "Diferentemente de 2022, quando a gente analisava um favoritismo muito grande de ACM Neto e fomos surpreendidos nas urnas com a vitória de Jerônimo e, por pouco, não foi em primeiro turno."

Segundo ele, o cálculo tanto de quem noticia quanto de quem faz as campanhas mudou muito.

Essa mudança de cálculo, aponta, reflete-se diretamente nas estratégias adotadas pelos dois principais candidatos. O editor lembra que, em 2022, ACM Neto venceu em apenas 53 das 417 cidades baianas, mas, mesmo assim, conseguiu forçar um segundo turno.

Ofensiva sobre a 'banda B'

Para além das grandes cidades, Dias identificou uma segunda frente de atuação de ACM Neto: a ofensiva sobre a chamada "banda B", o contingente de ex-prefeitos, vereadores e lideranças que perderam disputas municipais, mas mantêm influência em suas cidades.

"Ele também tem atacado as bandas-B, que são ex-prefeitos de oposição, lideranças, vereadores, todos grupos de oposição nas cidades. Ele conseguiu unificar a oposição em determinadas cidades em busca dessa diminuição de vantagem de Jerônimo. Por mais que o município seja comandado por um prefeito aliado ao governador, ACM Neto tem conquistado essas bandas-B e isso pode fortalecer a estratégia dele em busca desse voto nas grandes e médias cidades", disse.

O conceito de "banda B" ganhou peso na eleição de 2006, quando Jaques Wagner rompeu 16 anos de domínio do PFL, liderado por Antônio Carlos Magalhães, ao ampliar sua presença para além dos grandes centros e conquistar apoio de lideranças municipais ligadas ao grupo adversário.

Na ocasião, Wagner venceu a disputa contra o então candidato à reeleição, Paulo Souto, apesar de ter apenas o apoio formal de 55 prefeitos.

Se Jerônimo vencer, o PT completará 24 anos consecutivos no comando do governo da Bahia, uma das hegemonias mais longas da história política brasileira recente.

Se ACM Neto vencer, o resultado representará não apenas o retorno de um grupo político ao poder, mas possivelmente a abertura de uma fissura em um dos principais redutos eleitorais do campo governista no Nordeste.

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