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Lula chega forte ao 1º turno, mas pressionado por pesquisas e com reeleição incerta

Pesquisas sugerem disputa voto a voto com Flávio e dão mostras de que presidente terá dificuldade para crescer sobre espólio de candidatos de direita

Ato de encerramento da campanha de Lula no primeiro turno, na Rua Augusta, em São Paulo (Ricardo Stuckert)

Ato de encerramento da campanha de Lula no primeiro turno, na Rua Augusta, em São Paulo (Ricardo Stuckert)

Ivan Martínez-Vargas
Ivan Martínez-Vargas

Repórter especial em Brasília

Publicado em 4 de outubro de 2026 às 07h01.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à véspera do primeiro turno cercado por superlativos: aos 80 anos, disputa sua sétima eleição presidencial, é o líder que governou o Brasil democraticamente por mais tempo na história, tenta conquistar um quarto mandato e continua sendo a principal liderança da esquerda brasileira. Mas nenhum desses atributos torna sua posição confortável. Se as pesquisas estiverem corretas e a eleição for para o segundo turno, Lula entrará na etapa decisiva diante de um cenário em que o caminho até sua reeleição será altamente imprevisível.

O Datafolha divulgado neste sábado, 3, dá 45% dos votos válidos a Lula e 42% a Flávio Bolsonaro (PL). A Quaest publicada no mesmo dia registra 46% a 45%. No cenário de segundo turno do Datafolha, Lula aparece com 48%, ante 45% de Flávio: empate técnico. O presidente pode terminar o domingo à frente e ainda assim começar a campanha seguinte praticamente do zero.

Mais do que isso: boa parte dos votos hoje dispersos entre candidaturas menores está no campo da direita. Para vencer, portanto, Lula precisará conquistar eleitores que, no primeiro turno, deliberadamente escolheram outra alternativa e que tenderiam, em boa medida, a migrar para Flávio.

Lula demonstrou força na reta final

Esse é o paradoxo da campanha petista. Lula demonstra força. Na semana final da campanha, percorreu Pará, Bahia, Ceará, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, reuniu grandes públicos e demonstrou uma vitalidade invejável. Em Belém, seu ato reuniu cerca de 100 mil pessoas. A campanha também contou com mais tempo de televisão, consolidou Lula como candidato praticamente único da esquerda e deve consolidar uma ampla vantagem em relação ao adversário no Nordeste.

Medidas de apelo popular recentes — do Desenrola ao reajuste do Bolsa Família, além do banimento das bets — também ajudaram o governo a tentar retomar a iniciativa.

Comício de Lula em Belo Horizonte, em 2 de outubro; vantagem no estado virou empate nas pesquisas divulgadas na véspera do segundo turno (Ricardo Stuckert)

Nada disso, porém, foi suficiente para dar a Lula uma clara liderança nas pesquisas, nem para que seu governo atual seja aprovado pela maioria da população. O Datafolha mostra que 41% classificam o governo como ruim ou péssimo, contra 35% que o consideram ótimo ou bom. Num segundo turno, esses números importam porque a eleição tende a se transformar menos numa disputa entre programas e mais numa escolha entre dois nomes amplamente conhecidos e com rejeições elevadas.

A bem da verdade, a campanha petista desperdiçou tempo neste primeiro turno. Insistiu por semanas, por exemplo, na defesa da soberania nacional diante dos Estados Unidos, um discurso que, embora consistente do ponto de vista institucional e geopolítico, tem eficácia eleitoral limitada diante das preocupações mais imediatas do eleitor. Há também um fator de desorganização logística: o material de campanha de Lula demorou semanas para ficar disponível em todo o país.

Além disso, a campanha de Lula passou boa parte da disputa na defensiva, tentando se explicar sobre o aumento do custo de vida, a crise no STF e investigações sobre um dos filhos do presidente. Além disso, demorou a explorar as fragilidades de Flávio Bolsonaro. Entre os aliados de Lula, incomoda que um candidato cuja trajetória foi, durante anos, secundária em relação à do pai e marcada por controvérsias tenha conseguido se apresentar à opinião pública como moderado. Mas fato é que essa imagem também prosperou porque não foi suficientemente contestada.

Há, ainda, um problema econômico que pesa fora da base popular de Lula. O mercado de trabalho chega forte à eleição, com desemprego baixo e renda em alta, mas a percepção econômica é contraditória: famílias seguem pressionadas por dívidas e juros, enquanto empresários, investidores e parcelas da elite econômica ainda olham Lula com desconfiança. A razão não é apenas ideológica. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto e segue em trajetória de alta. Quando Lula assumiu, em janeiro de 2023, a dívida representava 71,38% do PIB.

Para setores de maior renda e do empresariado, a leitura é que o governo ampliou gastos e benefícios sem oferecer uma resposta suficientemente convincente sobre como estabilizar o endividamento público. Isso dificulta a expansão de Lula justamente em grupos em que ele já enfrenta maior resistência.

Sudeste será crucial no segundo turno

O mapa dos estados pode tornar a segunda etapa ainda mais difícil. Lula mantém enorme vantagem no Nordeste, mas Flávio domina amplamente o Sul e é muito competitivo no Sudeste, região que concentra mais de 40% do eleitorado. Lula vinha crescendo em São Paulo e mantinha liderança em Minas Gerais, mas a pesquisa Datafolha divulgada no sábado mostra liderança de Flávio em São Paulo (45% a 39%) e empate em Minas (44% cada).

Além disso, aliados da direita podem encerrar, já neste domingo, disputas estaduais importantes. Tarcísio de Freitas (Republicanos)é favorito para vencer em primeiro turno em São Paulo, e o mineiro Cleitinho (Republicanos) chegou à véspera da votação com mais de 50% dos votos válidos em seu estado. Governadores e prefeitos liberados de suas próprias campanhas podem fornecer estrutura, palanque e mobilização para Flávio se esse cenário se consolidar.

Lula também terá ativos nessa reorganização. Vitórias de aliados já no primeiro turno no Piauí, na Bahia, no Ceará e em outros estados do Nordeste podem liberar redes de prefeitos e máquinas partidárias para tentar ampliar sua vantagem regional. O efeito, porém, não é automático, nem para um lado, nem para outro. O segundo turno tende a ter menos eleitores mobilizados pelos candidatos a deputado, senador e governador, e a abstenção ganha peso.

Comício de Lula em Salvador no dia 29 de setembro; PT governa Bahia há duas décadas

Para Lula, cuja força é maior entre segmentos de menor renda, manter sua base nas urnas será tão importante quanto conquistar novos votos.

Por isso, uma pequena liderança neste domingo não deve ser confundida com claro favoritismo do petista. Lula entra na reta decisiva com força partidária, memória de governo, capilaridade no Nordeste e uma identidade política que nenhum outro nome da esquerda possui. Mas chega também com um governo mais rejeitado do que aprovado, resistência entre setores médios e da elite, dificuldades no Sudeste e um adversário que pode herdar naturalmente boa parte do voto das candidaturas de direita.

Se houver segundo turno, como se desenha, Lula terá 21 dias para reconstruir uma vantagem. Precisará elevar a rejeição a Flávio, defender sua gestão sem parecer preso ao passado e convencer quem não votou nele de que ainda há razões para lhe dar um quarto mandato. A força exibida nas ruas na última semana mostra que Lula está longe de ser um candidato enfraquecido. As pesquisas mostram, porém, algo igualmente importante: Lula também está longe de ter uma vitória segura.

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