Centro de Belo Horizonte, em Minas Gerais: estado tem disputa fragmentada com liderança do senador Cleitinho (Republicanos)
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Publicado em 2 de outubro de 2026 às 06h01.
Última atualização em 2 de outubro de 2026 às 09h21.
A dois dias da eleição, a corrida pelo governo de Minas Gerais ocorre sem Romeu Zema (Novo) na urna estadual, mas com o legado de seus dois mandatos no centro da disputa. O ex-governador deixou o Palácio Tiradentes em março para concorrer à Presidência da República e entregou o cargo ao então vice, Mateus Simões (PSD).
Agora, a sucessão coloca à prova a continuidade do ciclo iniciado em 2019, em uma eleição marcada pela divisão da direita, pela tentativa da esquerda de recuperar espaço e pelo desafio de administrar um estado com dívida pública superior a R$ 200 bilhões, segundo dados da Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais (SEF).
Para Lucas de Oliveira Gelape, professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a eleição ocorre em um ambiente político diferente daquele que levou Zema ao governo em 2018 e à reeleição quatro anos depois. Na avaliação dele, o ex-governador não deixou um grupo político consolidado em torno de seu sucessor, enquanto diferentes candidaturas disputam o eleitorado de direita.
“Zema vence a eleição em 2018 nas costas do Jair Bolsonaro, mas não consegue, ao longo de oito anos, construir um grupo político consolidado no estado. O governo Zema não consegue criar e articular um grupo independente do bolsonarismo”, afirma Gelape.
Para o professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen (UniArnaldo), Luciano Gomes dos Santos, Simões representa de forma mais direta a continuidade administrativa do governo Zema, enquanto Cleitinho Azevedo (Republicanos) e Flávio Roscoe (PL) ocupam espaços diferentes dentro da direita, inclusive na relação com o bolsonarismo.
“Para a direita mineira, a eleição envolve pelo menos três dimensões diferentes: a continuidade administrativa do ciclo Zema, a identidade ideológica da direita e a definição de sua relação com a disputa presidencial”, pontua.
Candidatos que participaram do debate da TV Globo de Minas: Gabriel Azevedo (MDB), Alexandre Kalil (PDT), Patrus Ananias (PT), Liliane Junger (Apresentadora), Cleitinho (Republicanos), Flávio Roscoe (PL) e Mateus Simões (PSD) (TV Globo Minas/Douglas Magno/Divulgação)
A pesquisa Quaest divulgada na terça-feira, 29, mostra como essa divisão se traduz nas intenções de voto. Cleitinho aparece com 37%, seguido por Patrus Ananias (PT), com 18%, e Alexandre Kalil (PDT), com 9%. Simões tem 6% e Roscoe, 5%.
Gelape relaciona a configuração atual também à mudança do sistema partidário mineiro. Durante anos, PT e PSDB organizaram os principais polos da disputa pelo governo estadual. Zema rompeu essa dinâmica ao derrotar os dois partidos em 2018, em um período de perda de força do PSDB no estado e de desgaste do PT após o governo Fernando Pimentel.
Na direita, as diferenças aparecem também nas alianças nacionais. Roscoe é o candidato do partido de Flávio Bolsonaro em Minas, Cleitinho declarou apoio ao presidenciável do PL e Simões mantém Zema como seu candidato no primeiro turno da disputa presidencial.
Romeu Zema: ambiente da disputa em Minas é diferente do que ocorreu em 2018 e 2022, apontam analistas (Dirceu Aurélio/Imprensa MG/Divulgação)
O atual governador, porém, já afirmou que estará no palanque de Flávio Bolsonaro caso o senador avance ao segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Maria Ferreira, especialista em Ciências Sociais da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), chama atenção para a perda de apoios de Roscoe dentro do próprio PL nos últimos dias de campanha.
“Na direita, o fato que mais chama atenção é a evasão de pessoas apoiadoras de Flávio Roscoe e até mesmo dentro do PL para outros partidos. Ele chega ao final da campanha com o palanque esvaziado. A base de deputados do PL declarou apoio a Cleitinho e tem pedido votos ao senador”, afirma.
Roscoe mantém entre seus principais cabos eleitorais o deputado federal Nikolas Ferreira e o deputado estadual Bruno Engler. Outros quadros da legenda, porém, aproximaram-se de Cleitinho, entre eles o deputado federal Domingos Sávio, candidato ao Senado e ex-presidente do PL em Minas.
No campo da centro-esquerda, Maria Ferreira avalia que Patrus conseguiu ocupar um espaço maior no eleitorado de esquerda ao longo da campanha, enquanto Kalil preservou uma parcela do campo de centro-esquerda que já havia apoiado sua candidatura em 2022.
A dívida pública de Minas já supera R$ 200 bilhões, segundo o Boletim da Dívida Pública Estadual, publicado mensalmente pela Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais (SEF). O estoque da dívida, ainda segundo a SEF, chegou à ordem de R$ 208,60 bilhões em julho e avançou para R$ 208,87 bilhões em agosto, uma alta de 0,13% no período.
Parte desse passivo está ligado à União e foi reorganizado com a adesão de Minas ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag. Para a celebração do acordo, o saldo considerado na negociação era de cerca de R$ 179,3 bilhões. O termo de adesão foi assinado em 31 de dezembro de 2025, quando também foi encerrado o Regime de Recuperação Fiscal.
Gelape avalia que a dimensão da dívida obriga os candidatos a explicar não apenas o que pretendem fazer com o passivo, mas como financiarão as demais promessas de governo.
“A dívida do Estado, sem dúvida nenhuma, é um dos principais temas. Ainda que essa dívida tenha sido negociada por meio do Propag, ela é muito grande. Então, todos os candidatos têm que responder o que vão fazer pensando na dívida. Não necessariamente o que vão fazer com a dívida, mas o que vão fazer de tudo, porque estarão constrangidos por ela”, pontua.
Saúde e infraestrutura também aparecem entre os temas citados pelo professor como demandas locais com potencial de pesar na decisão do eleitor. No caso das rodovias, Gelape aponta as críticas às concessões realizadas durante o governo Zema, principalmente em relação à cobrança de pedágio e à qualidade das estradas.
Para o professor Luciano dos Santos, a questão fiscal também integra a avaliação do ciclo Zema. Segundo ele, o Propag terá impacto sobre a margem de atuação da próxima administração e sobre as prioridades para os serviços estaduais, desenvolvimento econômico, infraestrutura e políticas sociais.
A corrida estadual ocorre em um estado que recebe atenção especial das campanhas nacionais. Desde 1989, o candidato mais votado em Minas Gerais nas eleições presidenciais também terminou eleito presidente da República. A sequência ajuda a explicar por que o estado costuma ser tratado como um termômetro nacional, embora não permita antecipar o resultado de 2026.
Em 2022, Zema foi reeleito governador no primeiro turno, enquanto Lula terminou como o candidato presidencial mais votado pelos mineiros.
Gelape avalia que a associação com um presidenciável funciona como uma referência para parte do eleitorado, inclusive para situar politicamente os candidatos estaduais, mas não é suficiente para definir a escolha para governador.
“Ele pode ajudar a conquistar votos que determinado candidato não tem e também é um atalho para o eleitor entender: esse cara é do Lula, então está mais à esquerda; esse é do Bolsonaro, está mais à direita. Mas está longe de ser definidor”, explica.
Na avaliação de Maria Ferreira, uma das mudanças percebidas ao longo da campanha ocorreu na forma como Simões passou a lidar com Zema e com a disputa presidencial.
“O Mateus Simões começou a campanha e a pré-campanha principalmente se associando muito ao Zema, tentando se colocar como esse candidato do Romeu Zema aqui em Minas. Mas essa estratégia mudou ao longo da campanha. A gente vê hoje uma associação bem pequena entre eles”, observa.
A analista cita como exemplo uma passagem de Zema por Belo Horizonte sem a participação de Simões na agenda. O movimento, segundo ela, pode estar relacionado a uma tentativa do governador de ocupar um espaço maior entre os eleitores de direita diante de seu desempenho nas pesquisas.
“Na situação do Alexandre Kalil, apesar dele ter sido apoiado pelo Lula em 2022, é um nome que sequer cita o Lula. Ele não quer se associar a isso, mas também não dispara críticas ao Flávio Bolsonaro e muito menos se associa a ele”, analisa.
Gabriel Azevedo (MDB), segundo a análise de Ferreira, também procura manter distância dos dois polos da eleição presidencial. Patrus, por sua vez, tem em Lula seu principal aliado nacional, enquanto Roscoe se apresenta como o candidato ligado ao projeto de Flávio Bolsonaro em Minas.
A combinação mostra que a reta final da eleição mineira sofre influência da corrida presidencial, segundo Luciano dos Santos, mas mantém uma dinâmica própria. Questões estaduais e características dos candidatos permitem que o eleitor organize de maneira diferente os votos para governador e presidente.