Ciro Gomes: tucano reuniu antigos adversários em uma aliança de oposição ao PT no Ceará. (Ciro Saboya/Campanha Ciro)
Repórter de Invest
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 06h01.
FORTALEZA, CEARÁ — Quatro anos depois de terminar em quarto lugar a eleição presidencial de 2022, o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes voltou a disputar o governo do Ceará em uma campanha que tem dado menos espaço aos temas nacionais.
O candidato retornou ao PSDB, reuniu antigos adversários e chegou à reta final de uma disputa marcada pela segurança pública, pela divisão entre os Ferreira Gomes e pela reorganização da oposição no estado.
Ciro iniciou a candidatura com vantagem sobre o governador Elmano de Freitas, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), mas essa distância vem diminuindo ao longo da disputa.
O levantamento do Datafolha, encomendado pelo jornal O Povo e divulgado na sexta-feira, 25, mostra Ciro com 44% das intenções de voto e Elmano com 43%. É a primeira vez na série do instituto em que os dois aparecem tecnicamente empatados. Já o Instituto Paraná Pesquisas mostrou Ciro na liderança, no sábado, 26, com 46% das intenções de voto; Elmano, 42,2%.
Em agosto, após a definição das candidaturas nas convenções partidárias, Ciro aparecia com 52% das intenções de voto no Datafolha, contra 33% de Elmano. A diferença caiu para nove pontos no início de setembro e, atualmente, a distância entre os dois é de um ponto, mostrando uma disputa mais acirrada. Entretanto, o cenário difere a depender da pesquisa.
Em entrevista à EXAME, Roberto Cláudio (União), candidato a vice-governador na chapa, vê que uma pesquisa representa "um retrato muito específico de um momento específico de uma campanha". E a estratégia nesta reta final continua baseada em presença nas ruas e ampliação da agenda pelo estado.
A candidatura de 2026 acontece depois de Ciro ter indicado que não pretendia voltar a disputar cargos públicos. Roberto Cláudio explica que a decisão foi revista após movimentos de aproximação entre diferentes grupos de oposição no Ceará.
O candidato a vice, que já foi prefeito de Fortaleza, também atribui a entrada na disputa à avaliação de que Ciro poderia representar uma candidatura competitiva contra o grupo governista, comandado pelo PT.
Um dos aliados de Ciro, o deputado estadual Felipe Mota (PSDB) relata que a discussão sobre a candidatura unificada ganhou força depois das eleições municipais de 2024, com a derrota de candidatos de diferentes grupos da oposição. A partir dali, começou um movimento de aproximação entre essas forças.
Mota diz que, meses depois, Ciro passou a sinalizar que poderia voltar a disputar uma eleição no Ceará. O deputado relembra uma conversa ocorrida no segundo semestre de 2025, durante um aniversário, em que Ciro recorreu a uma metáfora para justificar um eventual retorno à disputa regional.
"O general não pode deixar os seus soldados abandonados na guerra", disse Ciro aos aliados na ocasião, segundo o relato de Mota.
Para o deputado, a decisão estava ligada à tentativa de retomar um projeto político associado às gestões anteriores de Ciro, que também foi prefeito de Fortaleza. Mota afirma que esses projetos mudaram "a cara do Ceará" e cita como exemplos a situação fiscal e a política de industrialização. "Ele está vendo tudo isso se perder", diz.
Na Prefeitura, entre 1989 e 1990, Ciro ficou associado à reorganização administrativa, ao ajuste das contas e a ações de modernização urbana. Já no governo do Ceará, de 1991 a 1994, sua gestão teve entre os destaques o Canal do Trabalhador, criado em meio à seca de 1993; a implantação da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) e a criação da Escola de Saúde Pública (ESP/CE), bem como de secretária voltada à ciência e tecnologia.
Emanuel Freitas, cientista político e professor-adjunto de teoria política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), também atribui a formação da candidatura a um movimento recente. Na sua visão, não houve uma estratégia construída continuamente desde a eleição presidencial de 2022.
"Os grupos antipetistas se reuniram e viram que, na eleição de 2024, em que o André (Fernandes, do PL; que concorria à prefeitura contra Evandro Leitão, do PT) saiu quase vencedor em Fortaleza, havia um certo quinhão a ser explorado", diz Freitas.
O deputado federal e presidente estadual do Partido Democrático Trabalhista (PDT), André Figueiredo, acompanhou Ciro por anos dentro do mesmo partido e hoje está no campo oposto da eleição cearense, ao lado de Elmano. Para ele, a aproximação de Ciro com a oposição é contrastante.
"O Ciro sempre foi uma pessoa que teve uma vinculação muito forte com as causas da centro-esquerda e, de repente, a aliança com a direita, inclusive com alguns setores da extrema-direita, não deixa de ser uma surpresa para a gente", avalia.
Todavia, Figueiredo também acredita se tratar de uma questão conjuntural. "Eu não acredito que o Ciro tenha aberto mão dos princípios que ele sempre defendeu. Agora, a repulsa dele ao PT fez com que tivesse que se aliar com adversários históricos que nós sempre tivemos", acrescenta.
Já a segurança pública aparece como um dos assuntos mais presentes na disputa pelo governo do estado. Roberto Cláudio afirma que a campanha pretende estabelecer diferenças com o governo não só na segurança, mas na saúde, no emprego e na renda. Esses temas compõem o discurso de mudança apresentado pela chapa.
Freitas vê que a percepção da população sobre a violência representa uma dificuldade para o governo petista, mesmo quando a administração apresenta investimentos e ações na área. "A população sente a insegurança", avalia. O governo estadual destaca, por sua vez, queda de 40,8% nas mortes violentas no primeiro semestre.
O plano de governo do tucano ressalta que, se eleito, ele "terá como prioridade absoluta restabelecer a autoridade do estado em todo o território cearense", com o fortalecimento das forças estaduais por meio de uma rede integrada de segurança, com o uso de câmeras públicas e privadas, entre outras medidas.
Ciro Gomes: segurança pública aparece como um dos principais focos de sua campanha. (Mateus Dantas/Campanha Ciro)
A saúde, por outro lado, aparece como o segundo grande tema da campanha. O vice de Ciro defende ampliar a regionalização do atendimento e reduzir a concentração de determinados serviços de maior complexidade em Fortaleza, incluindo a expansão do atendimento oncológico para diferentes regiões.
Na campanha, Ciro tem priorizado, ainda, temas do Ceará e evitado vincular sua candidatura à disputa presidencial. Até agora, não declarou apoio a nenhum dos candidatos ao Planalto. Elmano, por outro lado, tem explorado a composição da aliança adversária e buscado associar Ciro ao bolsonarismo.
Isso porque o Partido Liberal (PL) integra formalmente a aliança que apoia Ciro no Ceará e nomes identificados com o campo bolsonarista participam da chapa e de sua articulação política. Entre eles estão André Fernandes, presidente estadual do PL; Capitão Wagner, hoje no União; e Alcides Fernandes (PL).
A tentativa ocorre em um estado onde Lula mantém uma presença eleitoral relevante. Na pesquisa Quaest da semana passada, o presidente aparecia com 54% das intenções de voto no Ceará, diante de 23% de Flávio Bolsonaro (PL). Em 2022, Lula ganhou a eleição contra Jair Bolsonaro em todos os 184 municípios cearenses.
Ciro, por sua vez, faz questão de afirmar que não se considera alinhado nem a Bolsonaro nem a Lula. "Eu não sou bolsonarista e nem sou lulista. Não sou puxa-saco de nenhum dos dois", disse. Ele ressalta que, caso seja eleito governador, pretende buscar diálogo com o presidente da República, "seja ele quem for".
Emanuel Freitas avalia que essa decisão distingue as duas campanhas. De acordo com o cientista político, Elmano procura se apresentar como integrante de um grupo que inclui Lula, Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro que passou a integrar a chapa governista após a ruptura de 2022, e Luizianne Lins (Rede).
O professor explica, na sua visão, que o tucano "optou por não nacionalizar a campanha" porque precisa administrar uma base eleitoral que reúne desde eleitores de Lula até apoiadores do bolsonarismo no estado.
Roberto Cláudio destaca que a orientação da chapa é concentrar a discussão em questões estaduais e não vincular Ciro a um único candidato à Presidência. "A estratégia nossa, na verdade, é debater o Ceará e liberar o voto para presidente para quem quiser", diz o vice.