Road Show Negócios em Expansão em Fortaleza: o empreendedorismo do Ceará em destaque (Eduardo Frazão/Exame)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 15 de abril de 2026 às 13h07.
Última atualização em 15 de abril de 2026 às 13h42.
O mundo entrou em uma nova disputa. Não é mais só sobre produzir — é sobre onde produzir. Energia barata, limpa e estável virou ativo estratégico. Dados viraram infraestrutura crítica. E, nesse novo mapa, o Ceará saiu da periferia para o centro.
Fortaleza, com 17 cabos submarinos concentrados em poucos quilômetros, virou um dos principais pontos de conexão da internet no planeta. Ao mesmo tempo, o estado combina isso com uma matriz energética majoritariamente renovável.
“Energia é o ouro, é o diamante que o mundo pode ter hoje”, disse Ricardo Cavalcante, presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), no palco da primeira edição do Road Show Negócios em Expansão, o NEEX, na capital cearense.
Realizado na terça-feira, 14 de abril, um dia após o aniversário de 300 anos da cidade, o evento promovido pela EXAME e com o apoio do BTG Pactual Empresas reuniu mais de 200 empresários e executivos para discutir crescimento, infraestrutura e novas frentes de negócio no Nordeste.
O evento faz parte do Negócios em Expansão, o maior prêmio para empreendedores do Brasil, que está com inscrições abertas.
Um dos pontos centrais foi a mudança no mapa econômico. Energia e dados passaram a definir onde as empresas vão investir. E o estado do Ceará reúne dois ativos: conexão e energia.
Esse movimento já aparece nos números. Nos últimos 35 anos, a indústria cresceu 210%, enquanto a população avançou 38%. Hoje, o Ceará tem 18.900 indústrias e 391.000 empregos formais no setor.
“Em 1990, a gente exportava 147 produtos. Hoje exporta mais de 1.700”, disse Cavalcante.
O avanço ganhou escala com projetos recentes. O principal exemplo é o data center da ByteDance, dona do TikTok, em Caucaia. O investimento inicial é de R$ 50 bilhões e pode chegar a R$ 200 bilhões.
“Eles escolheram o Ceará pela fibra óptica e pela capacidade de gerar energia”, afirmou Cavalcante.
Leo Branco, editor da Exame, e Ricardo Cavalcante, presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec): painel "A Força da Economia Cearense" foi um dos destaques do Road Show Negócios em Expansão. (Eduardo Frazão/Exame)
O avanço de empresas da região apareceu no painel “Negócios Cearenses em Expansão”. No palco, executivos de setores diferentes relataram crescimento recente e mudanças de estratégia.
O painel reuniu as empresas com operação no Ceará e que foram destaque no prêmio Negócios em Expansão 2025, que reuniu as empresas emergentes que mais cresceram ao longo do ano anterior.
É o caso da Naturagua, de água mineral, e da Santelisa, de embalagens recicladas. Ambas fazem parte do Grupo Telles, cujos acionistas principais – a família Telles, do Ceará – estão à frente dos negócios há 180 anos.
Representante da quinta geração da família, Aline Telles Chaves, atual CEO do grupo, comentou a mudança do perfil dos negócios com a venda do aguardente Ypióca, então carro-chefe dos negócios da família, em 2012. “O faturamento do grupo quase caiu a zero”, disse.
A empresa reorganizou o portfólio com negócios como água e embalagens. Entre 2015 e 2025, cresceu 500% em receita e 1.000% em EBITDA. Hoje tem cerca de 2.200 funcionários e mais de R$ 1 bilhão.
No varejo, a Take a Break, de Pedro Albano, cresceu com minimercados autônomos em condomínios. O negócio começou como atividade paralela. “Eu trabalhava em outra empresa e comecei no tempo livre”, disse.
A empresa estruturou um grupo de sócios e ampliou a operação. Cresceu cerca de 700% em um ano e ficou entre as cinco primeiras do ranking na sua categoria. A estratégia inclui foco em classes A e B e uma rotina comercial intensa. “Eu não garanto o resultado, mas garanto a rotina”, disse.
A Central Geradores, fundada por Gabriel Carneiro, mudou de área ao longo do tempo. Começou com transporte e passou a operar com locação de geradores. “No início eu fazia tudo”, disse.
A empresa expandiu presença para outros estados e precisa manter operação próxima dos clientes. O negócio exige equipamentos pesados e investimento constante. Cresceu mais de 50% no último ano.
No setor imobiliário, o Hub Plural, de Alfredo Júnior, cresceu durante a pandemia. A empresa manteve contratos e reduziu custos para clientes. “A gente deu até 50% de desconto para manter o contrato”, afirmou.
Também emprestou móveis para clientes trabalharem em casa. “A gente levou mobiliário para a casa dos clientes”, disse. Hoje são 10 unidades, mais de 15.000 metros quadrados e cerca de 3.000 clientes.
Certificações e prêmios apareceram como apoio comercial. “Mostra que a empresa foi auditada”, disse Pedro Albano sobre o uso do selo do ranking.
Daniel Giussani, repórter da Exame, Aline Telles Chaves, CEO do Grupo Telles, Pedro Albano, CEO da Take a Break, Gabriel Carneiro, fundador da Central Geradores, e Alfredo Júnior, CEO da Hub Plural: jornalista e executivos participaram do painel "Cearenses em Expansão". (Eduardo Frazão/Exame)
O avanço de grandes empresas entrou no painel “As Gigantes Cearenses”.
A M. Dias Branco, representada pela executiva Luciane Sallas, apresentou operação com cerca de R$ 12 bilhões em receita e presença em 93% dos lares brasileiros. A empresa atua com marcas regionais e exporta para 40 países.
“Ser simples, prático e criativo” segue como base, disse a executiva.
Na Pague Menos, o CEO Jonas Marques apresentou faturamento de R$ 16 bilhões e 27.000 funcionários. A empresa ampliou programas de formação interna. “A escuta é terapêutica”, afirmou.
A Solar Coca-Cola, com André Salles, atua em cerca de 70% do território nacional, com 21.000 funcionários e 400.000 pontos de venda. A operação inclui apoio direto a pequenos comércios.
“Observamos crescimento de bebidas de baixa caloria”, disse, ao comentar mudanças no consumo.
Lucas Amorim, diretor de redação da Exame, André Salles, CEO da Solar Coca-Cola, Jonas Marques, CEO da Pague Menos, e Luciane Sallas, executiva da M. Dias Branco: jornalista e executivos participaram do painel "As Gigantes Cearenses". (Eduardo Frazão/Exame)
O acesso a capital entrou no debate em painel com Rodrigo Bachi, do BTG Pactual Empresas, e Martin Redies, da integradora de tecnologias para energia solar Sou Energy.
A empresa de energia solar cresceu rápido desde 2018. “Na pandemia a gente cresceu 300%. Em 2021, 500%”, disse Redies.
Esse ritmo exige financiamento constante. “A tomada de recursos é fundamental”, afirmou.
Segundo Bachi, o modelo de análise mudou. “O crédito era baseado no passado”, disse. Agora, bancos usam dados e projeções.
O tempo de liberação também caiu. “Uma antecipação pode cair em 5 minutos”, disse Redies.
Para empresas, o banco passa a ter outro papel. “Eu não vejo mais banco só como crédito, mas como parceiro de tecnologia”, afirmou.
Rodrigo Bachi, do BTG Pactual Empresas, e Martin Redies, da integradora de tecnologias para energia solar Sou Energy: executivos debateram sobre acesso a capital para empresas. (Eduardo Frazão/Exame)
O uso de conteúdo digital apareceu no painel “Marca Pessoal”, mediado por Leonardo Cirino, CMO da EXAME.
Dados apresentados mostram cerca de 20 milhões de produtores de conteúdo no Brasil. O tempo médio de uso de redes chega a 9 horas por dia.
A estratégia discutida foi usar a internet para ampliar o que já funciona fora dela. “Nada além do que eu já fazia no offline”, disse o nutricionista Daniel Coimbra, um dos principais nomes da creator economy no Nordeste.
Cearense e morador de Fortaleza, Coimbra tem mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais. Hoje, ele costuma abrir turmas para até 860 alunos simultaneamente em cursos para replicar a estratégia dele para a construção de autoridade online.
Outro ponto foi a presença do dono ou especialista. “As pessoas compram o CPF na frente do CNPJ”, afirmou.
Nutricionista Daniel Coimbra e o CMO da EXAME, Leonardo Cirino: painel "Marca Pessoal" teve debate sobre uso de conteúdo digital nas empresas. (Eduardo Frazão/Exame)
Casos mostram a aplicação prática. Uma dona de loja de calçados, com cerca de 200 seguidores, começou a gravar vídeos simples para vender estoque. Anos depois, vendeu o estoque de oito lojas em 40 minutos com o mesmo formato.
Os participantes também falaram sobre a rotina de produção. Conteúdos curtos, vídeos longos e comentários sobre notícias aparecem como formatos possíveis.
A frequência foi citada como fator de distribuição. E ferramentas de inteligência artificial passaram a ser usadas para produção e edição.
O processo de venda segue uma sequência. “Se eu tento vender direto, não funciona”, disse Coimbra ao explicar a lógica de atrair, explicar e depois vender.
No fim do dia, os temas se cruzaram. Energia, dados, crédito, operação e conteúdo apareceram como partes do mesmo processo.
Empresas que crescem hoje combinam infraestrutura com execução, capital com velocidade e presença digital com operação física. No Ceará, esses elementos já estão disponíveis.