Colheita de algodão em Mato Grosso: foi a segunda safra consecutiva em que o estado ultrapassou os Estados Unidos na produção da pluma, segundo a consultoria. (Scheffer/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 06h01.
BELO HORIZONTE* — O mapa mundial do algodão mudou. Dois estados brasileiros passaram a desafiar países tradicionais na produção da fibra: Mato Grosso e Bahia. A expansão da cultura nessas regiões ajudou o Brasil a alcançar uma posição inédita no mercado internacional e transformou esses polos em protagonistas da produção global.
Na safra 2025/26, o Mato Grosso produziu 2,97 milhões de toneladas de algodão, volume 7% superior ao dos Estados Unidos, que colheram 2,79 milhões de toneladas. A Bahia, com produção de 980 mil toneladas, também superou a Austrália, que registrou o mesmo volume no ciclo, segundo levantamento da Agroconsult, consultoria agrícola.
Somados, Mato Grosso e Bahia produziram cerca de 3,95 milhões de toneladas de algodão na safra, volume superior ao produzido pelos EUA e pela Austrália juntos, que alcançaram aproximadamente 3,77 milhões de toneladas no mesmo período.
No caso do Mato Grosso, esta foi a segunda safra consecutiva em que o estado ultrapassou os Estados Unidos na produção da pluma, segundo a consultoria.
Segundo André Pessôa, CEO da Agroconsult, o avanço brasileiro ocorre em um momento em que importantes produtores globais enfrentam dificuldades, enquanto o país amplia sua oferta.
“O Brasil está meio que na contramão do mercado internacional, com aumento da área e aumento da produção brasileira”, afirmou durante o Congresso Brasileiro do Algodão.
A transformação ganha relevância porque, até poucos anos atrás, o Brasil tinha uma participação menor no mercado global da fibra. Hoje, o país passou a disputar espaço entre os maiores produtores mundiais, ao lado de China e Índia, líderes do setor.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de algodão em pluma foi de 4,1 milhões de toneladas na temporada passada.
Para a safra 2026/27, as estimativas oficiais serão divulgadas em 15 de outubro, mas o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta uma produção brasileira de 4,2 milhões de toneladas.
O crescimento do algodão brasileiro está ligado ao avanço tecnológico, aos ganhos de produtividade e ao modelo de produção adotado principalmente no Centro-Oeste. No Mato Grosso, a cultura ganhou escala ao ocupar áreas de segunda safra, aproveitando a estrutura criada pela soja e aumentando a eficiência do uso da terra.
Na Bahia, a expansão também elevou o estado ao grupo dos grandes produtores globais. Segundo Pessôa, a região já superou a Austrália e se aproxima de outros importantes participantes do mercado.
“A Bahia já produz mais do que a Austrália, e já vai passar o Paquistão também, vai ganhar essa posição”, afirmou o executivo.
O avanço do algodão brasileiro não ocorreu apenas pelo aumento da área cultivada. A combinação entre irrigação, tecnologia, gestão e rastreabilidade ajudou a transformar regiões produtoras em polos competitivos no mercado internacional.
No oeste da Bahia, a expansão da irrigação aumentou a estabilidade produtiva e reduziu a dependência das lavouras de sequeiro, mais expostas às variações climáticas. O uso de sementes melhoradas também contribuiu para aumentar a resistência a pragas e doenças e elevar o rendimento de fibra.
A produção passou ainda por uma modernização no campo, com máquinas mais automatizadas, ferramentas de monitoramento e gestão baseada em dados. Essas tecnologias ajudaram a reduzir perdas, melhorar o planejamento das operações e elevar a produtividade por hectare.
Além da eficiência produtiva, o Brasil ampliou sua presença internacional com investimentos em rastreabilidade, certificação e sustentabilidade, fatores que ajudaram a fortalecer a confiança dos compradores globais.
Segundo a Agroconsult, a China lidera a produção mundial, com 7,3 milhões de toneladas, seguida pela Índia, com 5,2 milhões de toneladas. Para Pessôa, apesar da concentração da produção em poucos países, o avanço brasileiro alterou o ranking global e colocou dois estados brasileiros entre os principais polos da fibra.
A ascensão brasileira, porém, não se explica apenas por escala e tecnologia. Para Pessôa, uma vantagem estrutural do país está na disponibilidade de água e nas condições climáticas, fatores que ajudam o Brasil a produzir em grande volume e manter competitividade frente aos concorrentes internacionais.
“Água sempre líquida. No hemisfério norte, a água fica mole e fica dura. Aqui ela sempre líquida. Esse é o grande ativo, água e sol. Clima”, afirmou.
Segundo o executivo, essa combinação entre recursos naturais, tecnologia e escala produtiva ajudou o Brasil a conquistar espaço em um mercado antes dominado por países tradicionais.
O avanço da Bahia e do Mato Grosso ocorre em um momento de consolidação do Brasil como um dos principais fornecedores mundiais de algodão.
Desde a safra 2024/25, o país passou a superar os Estados Unidos nas exportações da fibra, ampliando sua participação no comércio internacional.
Para Pessôa, uma das vantagens competitivas do Brasil é a capacidade de manter uma oferta constante ao longo do ano, sem a concentração de embarques em períodos específicos.
“O Brasil conseguiu uma característica muito importante de mercado: todos os meses do ano a gente tem volume significativo de algodão saindo dos portos brasileiros. Isso para o consumidor lá fora é uma característica muito relevante, que é a constância de produto”, afirma.
Essa regularidade ajudou o país a ampliar sua presença nos principais mercados consumidores. Na safra 2025/26, a China permaneceu como principal destino do algodão brasileiro, com cerca de 770 mil toneladas importadas da pluma nacional, segundo dados da Agroconsult.
Apesar da liderança chinesa, as exportações brasileiras estão mais distribuídas entre diferentes compradores. Bangladesh aparece na sequência, com 583 mil toneladas, seguido por Turquia (442 mil toneladas), Paquistão (414 mil toneladas), Vietnã (393 mil toneladas), Índia (345 mil toneladas) e Indonésia (202 mil toneladas).
Com esse avanço, o Brasil ampliou a distância em relação aos Estados Unidos no comércio global da fibra.
“A gente passou os Estados Unidos já por duas safras consecutivas e estamos indo para a terceira. Nessa safra que encerrou agora em julho, nós já estamos com 27% a mais de exportação do que os americanos”, afirma Pessôa.
*O repórter viajou a convite da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão