Ciro e Elmano: candidatos trocaram acusações e confrontaram números sobre o Ceará. (Aurélio Alves/O POVO)
Repórter de Invest
Publicado em 24 de setembro de 2026 às 07h48.
As trocas de acusações e disputa por narrativa deram o tom do debate organizado pelo jornal cearense O Povo entre Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) na noite de quarta-feira, 23, em Fortaleza. Mais do que confrontar propostas, os dois candidatos ao governo do Ceará passaram boa parte do encontro disputando qual retrato do estado corresponde à realidade e na tentativa de desconstruir a imagem do adversário.
O encontro ocorreu após a pesquisa Quaest mostrar um cenário de empate técnico entre os dois, com crescimento de 7 pontos do atual governador petista.
De um lado, Elmano citou resultados de sua gestão em emprego, educação, saúde e infraestrutura para defender a continuidade do atual projeto político. Do outro, Ciro apresentou indicadores de pobreza, renda e obras ainda em execução para questionar a avaliação positiva feita pelo governador.
A dinâmica se repetiu ao longo do debate, com Ciro acusando o petista diversas vezes de apresentar informações falsas ou distorcidas, enquanto Elmano afirmou que o adversário desconhecia ações realizadas pelo governo e também contestou os números usados pelo tucano.
Além da disputa sobre os resultados da gestão estadual, o bolsonarismo também entrou no confronto. Em diferentes momentos, Elmano associou Ciro ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e, ao longo da discussão, classificou o adversário como "candidato do bolsonarismo".
Ciro rejeitou a associação e afirmou que não se considera alinhado nem a Bolsonaro nem a Lula. "Eu não sou bolsonarista e nem sou lulista. Não sou puxa-saco de nenhum dos dois", antes de afirmar que, caso seja eleito governador, pretende buscar diálogo com o presidente da República, "seja ele quem for".
A saúde abriu uma das primeiras divergências, com Elmano destacando hospitais e serviços ampliados pelo Estado e Ciro questionando o modelo de concentração de recursos em grandes unidades, além de defender o fortalecimento da rede regional.
Ciro afirmou que moradores do interior ainda precisam viajar a Fortaleza para determinados atendimentos de maior complexidade, enquanto Elmano contestou essa avaliação ao citar unidades de terapia intensiva (UTIs) neonatais e outros serviços disponíveis no interior e afirmou que os deslocamentos ocorrem em casos de altíssima complexidade.
Na educação, a disputa passou pelo ritmo das obras de escolas de tempo integral e chegou ao histórico de remuneração dos professores. Ciro questionou unidades contratadas pela atual gestão que, segundo ele, ainda não haviam sido concluídas, enquanto Elmano respondeu que escolas já foram entregues e defendeu ampliar o ensino integral e profissionalizante.
Os dois também revisitaram a passagem de Ciro pelo governo, com Elmano questionando os salários pagos aos professores naquele período e o tucano afirmando que remunerou a categoria dentro das melhores condições possíveis à época. Ciro também acusou a atual administração de politizar estruturas da educação, afirmação rejeitada pelo governador.
Foi na economia, porém, que apareceram com mais clareza os dois diagnósticos sobre o Ceará atual. Elmano apontou a geração de empregos formais e investimentos, como a Transnordestina, o Porto do Pecém e a expansão do setor calçadista, como sinais de avanço.
Ciro contrapôs essa avaliação ao mencionar renda e pobreza e destacou que os cearenses continuam convivendo com salários baixos; além de defender uma nova estratégia de desenvolvimento industrial e criticar políticas compensatórias quando não vêm acompanhadas de um projeto mais amplo de crescimento.
Elmano respondeu que a extrema pobreza caiu durante seu governo e citou o Ceará Sem Fome, programa estadual de combate à fome. "Eu criei o Ceará Sem Fome com 130 mil refeições todo dia", afirmou o governador, ao defender as ações da gestão voltadas à população em situação de vulnerabilidade.
A diferença de versões se estendeu às obras e aos investimentos públicos e, na habitação, Elmano destacou a parceria com o governo Lula por meio do Minha Casa, Minha Vida e de iniciativas estaduais, enquanto Ciro defendeu mutirões como instrumento complementar para famílias que precisam de regularização fundiária ou melhorias na moradia.
Elmano, por sua vez, defendeu um modelo em que o poder público financia a construção e entrega a residência pronta, em contraponto aos mutirões propostos por Ciro.
A Transnordestina provocou uma disputa semelhante, com Ciro lembrando sua participação no projeto durante o governo federal e, posteriormente, na direção da empresa responsável pela ferrovia, enquanto Elmano afirmou que a obra estava paralisada quando assumiu o governo e atribuiu sua retomada à articulação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e instituições financeiras.
Ciro, por outro lado, pontuou que a Transnordestina é uma concessão privada e ressaltou que o poder público também participa do financiamento e da articulação necessária para a execução do projeto.
Outros temas apareceram de forma mais pontual, como a expansão das energias renováveis e dos data centers em solo cearense, como o caso do TikTok, em que os dois candidatos defenderam conciliar novos investimentos com a proteção de comunidades tradicionais em regiões próximas às instalações.
Além do combate ao feminicídio, no qual Ciro propôs ampliar a capacitação policial e os mecanismos de proteção às vítimas, enquanto Elmano citou estruturas como as Casas da Mulher e a Patrulha Maria da Penha.
A segurança pública, embora tenha aparecido de forma transversal em discussões sobre juventude, prevenção à violência e proteção às mulheres, não ocupou o espaço que as duas campanhas esperavam no confronto.
Elmano afirmou que sentiu falta de uma discussão mais aprofundada sobre o assunto e citou entre suas propostas a contratação de mais profissionais e a ampliação das políticas de prevenção. Ciro fez avaliação semelhante e disse que um dos temas mais graves enfrentados pelos cearenses não havia ocupado espaço suficiente.
Durante o debate, Ciro apontou a falta de oportunidades para os jovens como um dos fatores associados à violência, já Elmano destacou programas de prevenção voltados a municípios considerados de maior risco.
Nos bastidores do debate realizado pelo jornal cearense O Povo, porém, as duas campanhas deixaram o encontro com avaliações positivas sobre o desempenho de seus candidatos.