Elmano de Freitas: governador tenta transformar resultados da gestão em apoio para um segundo mandato. (Micaela Menezes/Campanha Elmano)
Repórter de Invest
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 06h01.
FORTALEZA, CEARÁ — Elmano de Freitas (PT) chega à reta final da eleição no Ceará tentando transformar quase quatro anos de governo em argumento para um segundo mandato.
No caminho, enfrenta uma disputa marcada pela discussão em torno da segurança pública, pela construção de uma candidatura apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo ex-ministro Camilo Santana (PT) e, ainda, pelo retorno do ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) à corrida pelo Palácio da Abolição.
O governador vem se recuperando nas pesquisas, antes dominadas por Ciro, e conta com 55% de aprovação ao seu trabalho, segundo levantamento do Datafolha da sexta, 25, em que o tucano aparecia com 44% das intenções de voto e Elmano, com 43%, em empate técnico pela primeira vez. Já no levantamento do instituto Paraná Pesquisas de sábado, 26, Ciro tinha 46% das intenções, ante 42,2% de Elmano.
Vale lembrar que a trajetória eleitoral do petista teve uma virada em 2022. Dois anos antes, quando disputou a Prefeitura de Caucaia, cidade ao lado de Fortaleza, ele terminou em quarto lugar, com apenas 7,69% dos votos válidos. Na disputa pelo Governo do Ceará, todavia, ele venceu no primeiro turno com 54,02% dos votos válidos, com suporte de Lula e do ex-governador e ex-ministro da Educação, Camilo Santana (PT).
Inserido em um campo político que ocupa o governo cearense desde 2007, ainda que com mudanças de composição e rupturas ao longo do período, Elmano chega à eleição com a missão de defender as entregas de sua gestão e, ao mesmo tempo, fortalecer o seu nome entre o eleitorado que pode, porventura, votar em Ciro, adversário com longa trajetória política e alto grau de conhecimento entre os eleitores cearenses.
O foco é conquistar eleitores indecisos nestes últimos dias.
A campanha de Elmano apresenta como parte do balanço da gestão o crescimento de 2,87% da economia cearense em 2025, acima da média nacional (2,3%), segundo o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece); e um saldo de cerca de 184,7 mil empregos formais de janeiro de 2023 a julho de 2026, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
A gestão também inaugurou, no ano passado, o Hospital Universitário do Ceará, mas a construção havia começado ainda no governo de Camilo Santana. E na segurança, um dos temas mais sensíveis da eleição, alguns indicadores apresentaram melhora em 2026, como a queda de 40,8% nos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) no primeiro semestre, em relação aos primeiros seis meses do ano passado.
O avanço ocorreu depois de três cidades cearenses ficarem entre as dez mais violentas do país em 2025, com mais de 100 mil habitantes. Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, ficou na primeira posição do ranking nacional.
Elamno de Freitas durante ato de campanha (Micaela Menezes/Campanha Elmano)
A geração de empregos é uma das áreas que a campanha de Elmano procura apresentar como marca.
Além do saldo positivo de postos formais registrado desde 2023, a taxa média de desemprego no Ceará caiu para 6,5% em 2025, a menor da série histórica estadual iniciada em 2012, conforme o Ipece, desempenho que passou a ocupar espaço relevante no discurso de continuidade do governador.
Mas o rendimento médio do trabalho no Ceará, que ficou em R$ 2.394 no ano passado, foi o terceiro menor entre os estados brasileiros.
Chagas Vieira, coordenador da campanha e ex-secretário-chefe da Casa Civil, coloca o mercado de trabalho no centro desse balanço. "Se eu tivesse que dizer uma marca do primeiro governo Elmano, foi o governo que mais gerou empregos de carteira assinada na história do Ceará", diz. Para ele, o resultado está associado também à atração de novos investimentos ao lado do fortalecimento das políticas de educação e saúde.
Na educação, a campanha enfatiza a expansão do ensino em tempo integral como parte da continuidade das políticas estaduais e, na assistência médica, a descentralização dos serviços para além de Fortaleza, com a ampliação de tratamentos como oncologia e traumatologia no interior. Vieira cita, ainda, investimentos ligados a data centers, como o do TikTok, e a retomada de uma produção industrial automotiva no estado.
Mas nenhuma área expõe tão claramente a disputa entre os candidatos quanto a segurança pública.
Não só no Ceará, mas também no Brasil a temática vem ganhando espaço. Chagas afirma que o reforço das forças de segurança começou a apresentar resultados mais claros ao longo deste ano e cita contratações de policiais e investimentos em inteligência entre as medidas adotadas pela gestão.
A campanha petista destaca, em seu plano de governo, que permitirá "consolidar um modelo de segurança baseado na prevenção, na investigação qualificada, no enfrentamento às organizações criminosas e na integração das políticas de segurança com ações sociais voltadas à redução das vulnerabilidades e à prevenção da violência".
Entre os aliados do governador, há também o reconhecimento de que o tema ocupa um espaço central na eleição. O deputado estadual Renato Roseno (Psol) detalha que "para a grande maioria da população, há uma percepção de que segurança é o grande tema", embora considere que a disputa de 2026 também envolve questões nacionais mais amplas.
A melhora recente de alguns indicadores de violência, contudo, pode não se traduzir completamente em uma percepção maior de segurança para os cearenses. Na pesquisa Datafolha que saiu no dia 9 de setembro, por exemplo, 51% dos entrevistados disseram acreditar que a violência havia aumentado no Ceará nos 12 meses anteriores, 27% viam que estava igual e 20% afirmavam perceber uma redução.
Já a oposição questiona se essa redução dos índices representa uma mudança mais duradoura. O deputado estadual Heitor Férrer (PSDB), aliado de Ciro, classifica a queda da violência como sazonal e contesta a avaliação de que os números mais recentes sejam suficientes para alterar o balanço da segurança pública no estado.
"Nós vivemos num estado onde a insegurança é causadora da infelicidade das pessoas", diz Férrer.
Por outro lado, a estratégia de apresentar a candidatura governista como um time tem sido um dos pontos que ajudaram a impulsionar o crescimento de Elmano nas pesquisas, segundo o cientista político e professor-adjunto de teoria política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Emanuel Freitas.
O grupo reúne Lula, Elmano, Cid Gomes (PSB), ex-governador do Ceará e irmão de Ciro que rompeu politicamente com o tucano, e Luizianne Lins (Rede), ex-prefeita de Fortaleza. Os dois últimos disputam vagas no Senado.
Elmano e Cid: governador e irmão de Ciro integram o mesmo campo político. (Micaela Menezes/Campanha Elmano)
Segundo Freitas, a atuação coordenada ampliou a capacidade de transferência de apoio entre seus principais nomes, em contraste com a campanha de Ciro, que não se apresenta vinculada a uma candidatura presidencial.
Ao mesmo tempo, a campanha de Elmano tem explorado politicamente as alianças de Ciro com nomes e partidos ligados ao bolsonarismo, como André Fernandes (PL) e Capitão Wagner (União).
Esse movimento ganha peso em um estado onde Lula segue como o principal ativo eleitoral do PT.
Na pesquisa do instituto do Real Time Big Data no sábado, 26, o presidente aparecia com 60% das intenções de voto no Ceará, contra 26% de Flávio Bolsonaro (PL), no cenário em que os entrevistados recebem uma lista com o nome dos candidatos.
Só que parte do eleitorado cearense não segue necessariamente uma chapa fechada e pode separar a escolha nacional da estadual, tendo em vista a referência de antigas gestões de Ciro tanto na Prefeitura de Fortaleza, entre 1989 e 1990, quanto no próprio Governo do Ceará, de 1991 a 1994.
No Datafolha do dia 8 de setembro, 32% dos eleitores cearenses de Lula disseram votar em Ciro para governador.
Ainda assim, Elmano chega aos últimos dias de campanha em trajetória de crescimento nas pesquisas. No Datafolha de sexta, 25, o governador apareceu com 43% das intenções de voto, tecnicamente empatado com Ciro, que tinha 44%.
Na comparação com a rodada anterior, o petista avançou três pontos percentuais, enquanto o tucano recuou três.
A rejeição de Elmano também apresentou melhora no mesmo levantamento, ao cair de 37% para 34%. Ainda assim, o governador permanece com o maior índice entre os principais candidatos, ante 29% de Ciro.
E, para Emanuel Freitas, um dos pontos a observar nessa reta final é até que ponto Elmano consegue ampliar sua identificação própria com o eleitorado, visto que a presença de Lula e Camilo continua tendo peso importante na construção do apoio ao governador.
Os números do Datafolha do dia 25 também ajudam a contextualizar esse cenário. Enquanto 55% dos entrevistados aprovavam o trabalho de Elmano como governador, 43% declaravam voto nele no primeiro turno, uma diferença de 12 pontos percentuais entre os dois indicadores.
Na reta final, a campanha de Elmano contará novamente com a presença de Lula no Ceará. O presidente tem agenda prevista em Fortaleza no dia 29, cinco dias antes do primeiro turno.
A chapa petista intensificou as agendas na capital e no interior e concentra esforços sobre os indecisos.
Ao comentar o desempenho recente de Elmano nas pesquisas, Chagas Vieira ressalta que a expectativa dos aliados para os últimos dias antes do pleito é de um crescimento ainda maior do governador.