Educação no Brasil: apenas 8% dos jovens concluem o ensino médio com o aprendizado esperado em matemática (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 9 de setembro de 2026 às 16h53.
O Brasil conseguiu manter seu desempenho no Pisa, avaliação internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em um cenário de piora dos resultados globais. A estabilidade, porém, ocorre em um patamar ainda baixo e reforça o desafio do país de transformar o acesso à escola em aprendizagem, segundo Felipe Proto, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, em entrevista à EXAME.
“O grande salto que a gente deu nas últimas décadas foi universalizar o acesso. Hoje, 100% dos jovens do primeiro ano estão na escola, mas a qualidade é o que a gente precisa discutir agora”, afirma Proto.
Os resultados do Pisa 2025, divulgados na última terça-feira, 8, mostram que o desempenho médio do Brasil ficou praticamente igual ao registrado em 2022 em matemática, leitura e ciências. A estabilidade se estende por mais de uma década: nas três áreas, os resultados permanecem próximos dos níveis observados desde 2015. O país segue abaixo da média da OCDE nas três disciplinas.
Na avaliação de Proto, há dois aspectos no resultado brasileiro. O primeiro é que o país conseguiu preservar o desempenho enquanto a média internacional recuou. O segundo é que essa estabilidade ainda não representa uma melhora consistente da qualidade da educação.
“A média da OCDE e muitos países da América Latina têm caído no Pisa nos últimos anos. Comparando o Brasil com a América Latina em matemática, linguagens e ciências, você vê vários países similares com quedas bem grandes de uma edição para outra. Por outro lado, o Brasil se manteve praticamente igual nesses três", afirma.
O quadro é mais crítico em matemática. Apenas 28% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência, considerado o patamar básico pela OCDE. Na média dos países da organização, a proporção foi de 65%. Isso significa que 72% dos estudantes brasileiros avaliados ficaram abaixo desse nível.
Em leitura, 49% dos brasileiros alcançaram o nível 2 ou superior, ante média de 69% na OCDE. Em ciências, a proporção foi de 48% no Brasil e 74% na média da organização.
“Se olhar um filme dos últimos 10 anos, o Brasil não evoluiu de um resultado ruim. É um indicador, obviamente, de que a qualidade da educação brasileira ainda não é boa”, diz.
O desempenho brasileiro ocorre em um cenário de deterioração dos resultados educacionais em diferentes países. Na média da OCDE, as notas de leitura e matemática chegaram aos menores níveis já registrados pelo Pisa. Entre 2015 e 2025, a pontuação média caiu 28 pontos em leitura e 22 pontos em matemática.
Proto afirma que ainda existem diferentes hipóteses para explicar o movimento e que as evidências continuam em construção. Um dos fatores, segundo ele, é o efeito da pandemia de covid-19 sobre a trajetória escolar dos jovens avaliados.
“Esse jovem de 15 anos viveu uma etapa muito importante da aprendizagem numa época em que muitas escolas estavam fechadas. Muitos jovens não tiveram educação, não tiveram acesso à escola. Então, isso traz impacto, gera defasagem e dificuldade no aprendizado", afirma.
Outro elemento que passou a fazer parte desse cenário é a presença de celulares e da inteligência artificial no cotidiano dos estudantes. Para Proto, a tecnologia pode contribuir com a educação quando há orientação dos professores, mas também pode prejudicar o desenvolvimento do aluno quando funciona apenas como um atalho para executar atividades.
“A tecnologia, quando trabalha junto do professor e da professora, com intencionalidade pedagógica, é uma ótima ferramenta. Mas uma tecnologia usada indiscriminadamente pelo aluno, celular na sala de aula, inteligência artificial para fazer uma lição de casa sem um pensamento crítico, é prejudicial", diz.
[grifar]Para Proto, o contexto educacional mudou em velocidade maior do que a capacidade das políticas públicas de acompanhar as transformações provocadas pelas novas tecnologias.
Em meio às eleições de 2026, Proto afirma que as propostas para educação variam entre as candidaturas, mas identifica pontos que aparecem com frequência nos planos de governo. Um deles é a alfabetização.
“Todos os planos de governo falam, mencionam alfabetização como uma pauta relevante, porque a gente sabe que é a base. Se essa criança não aprendeu a ler e escrever corretamente no segundo ano do ensino fundamental, ela vai ter muita dificuldade ao longo de toda a sua jornada", diz.
Outro tema presente nas propostas, segundo o vice-presidente da Fundação Lemann, é a expansão do ensino em tempo integral. Proto afirma que o aumento da jornada escolar pode ter impacto tanto sobre a aprendizagem quanto sobre o acesso dos estudantes a atividades como esporte, música e cultura.
“Ele é um grande acelerador de trajetórias, não só de aprendizado", afirma.
A formação de professores, por outro lado, recebe menos destaque nas propostas, segundo Proto. Para ele, o debate deveria incluir desde a qualidade das licenciaturas até a formação continuada e as condições da carreira docente.
“Hoje se menciona pouco sobre como pensar a formação inicial, como está a licenciatura dos professores, como ofertar melhores condições para formação continuada e como melhorar a atratividade da carreira docente", diz.
Proto também afirma que mencionar uma prioridade no plano de governo não resolve, por si só, o problema. O passo seguinte é detalhar como as políticas serão executadas e como União, estados e municípios atuarão em conjunto.
“Alfabetização importa, mas como garantir uma boa alfabetização? Como garantir essa manutenção? O apoio do governo federal para os estados, dos estados para os municípios, demanda uma colaboração entre estados, governo federal e municípios. É importante a gente entender melhor os candidatos, como eles propõem fazer isso", afirma.
Proto aponta a alfabetização como um dos exemplos positivos recentes da educação brasileira. Na avaliação dele, além dos resultados de aprendizagem, o modelo se destaca pela colaboração entre diferentes níveis de governo.
“O maior exemplo positivo que o Brasil tem tido nos últimos anos é a alfabetização. Alfabetização tem sido um bom case de resultados, ou seja, de evolução na aprendizagem dos alunos, e também de um jeito de fazer que envolve muita colaboração entre o governo federal, estados e municípios", diz.
O desafio, segundo ele, é levar uma estrutura semelhante para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio.
“Quando a gente fala de ensino fundamental, anos finais e ensino médio, ainda tem práticas muito diferentes, políticas públicas que não atuam num regime de colaboração tão intensivo igual a gente vê na alfabetização", afirma.
Para Proto, três fatores são centrais para melhorar a qualidade da educação: engajamento político, aprendizagem no centro das políticas públicas e expansão da escola em tempo integral.
“Não tem nenhum país do mundo que tenha tido avanços significativos na educação sem ter educação no centro das principais políticas públicas do país", diz.
O desempenho em matemática é um dos pontos que mais preocupam no retrato do Pisa. No Brasil, 72% dos estudantes de 15 anos ficaram abaixo do nível básico de proficiência na disciplina.
Proto afirma que o país dedicou historicamente menos políticas públicas específicas à aprendizagem de matemática do que à alfabetização e ao ensino de língua portuguesa.
“A gente discute mais sobre o método de alfabetização, sobre como apoiar os diferentes estados, sobre como garantir material adequado. O que a gente vê em matemática é que, historicamente, há menos políticas públicas focadas no ensino da matemática no Brasil. Isso acontece desde a pré-escola até o ensino médio", afirma.
Para ele, uma estratégia para a área precisa começar nos primeiros anos da educação e incluir expectativas claras de aprendizagem, avaliações, formação e apoio aos professores.
“Ter políticas públicas pensadas em matemática, sobre como estimular o pensamento matemático desde a pré-escola até o ensino médio, como fazer boas avaliações e como oferecer apoio e formação para os professores são exemplos de coisas muito importantes para a gente poder ter avanços mais significativos nessa disciplina”, diz.
Proto cita ainda outro indicador para dimensionar o problema: segundo ele, apenas 8% dos jovens concluem o ensino médio com o aprendizado esperado em matemática.
“Isso mostra que realmente tem desafios mais profundos", afirma.
O avanço da inteligência artificial não reduz a importância dessas competências, na avaliação do especialista. Ao contrário, leitura, escrita e raciocínio lógico tornam-se instrumentos para que os estudantes consigam avaliar criticamente as respostas produzidas pelas novas ferramentas.
“Uma boa capacidade de leitura e escrita é fundamental para você conseguir ler criticamente um texto que uma inteligência artificial coloca e para você também poder se expressar corretamente", diz.
O mesmo raciocínio, afirma Proto, vale para matemática.
“O pensamento matemático e o raciocínio lógico também são muito importantes, inclusive para quem quiser programar ou atuar no mundo da tecnologia", afirma.
Para o vice-presidente da Fundação Lemann, portanto, a expansão das novas tecnologias não substitui as competências básicas que o sistema educacional ainda tem dificuldade de assegurar a todos os estudantes.
“Linguagem e pensamento matemático são fundamentais para garantir uma base sólida para todo mundo conseguir fazer uma interpretação crítica, construir e pensar", diz.