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Por que o Santander reduziu aposta na JBS com crise da carne nos EUA

Banco rebaixa recomendação da companhia para neutra, corta o preço-alvo e vê pressão sobre os resultados até 2028

JBS: A revisão ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos EUA, com aumento de custos e inflação. (JBS/Divulgação)

JBS: A revisão ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos EUA, com aumento de custos e inflação. (JBS/Divulgação)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 8 de julho de 2026 às 12h36.

Última atualização em 8 de julho de 2026 às 12h42.

A piora das perspectivas para o ciclo do gado nos Estados Unidos fez o Santander rever sua recomendação para a JBS. Nesta quarta-feira, 8, o banco rebaixou a ação de Outperform para Neutral e reduziu o preço-alvo para o fim de 2027 de US$ 17 para US$ 15,20, citando a deterioração dos fundamentos da companhia e a expectativa de resultados mais fracos nos próximos anos.

Em relatório assinado pelos analistas Guilherme Palhares, Laura Hirata e Ulises Argote, o banco diz que que o cenário para a companhia ficou mais desafiador diante da piora do ciclo pecuário nos EUA e da expectativa de resultados mais fracos nos próximos anos.

"Nos tornamos mais cautelosos com a ação diante do momento negativo dos resultados. A deterioração dos fundamentos na maior parte dos negócios nos levou a reduzir nossas estimativas em toda a companhia", afirmam os analistas.

A revisão ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos EUA, com aumento de custos e inflação.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

Nesse contexto, os preços da carne bovina nos EUA vêm acumulando sucessivos recordes. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.

Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente na temporada de churrascos de verão por lá.

Com isso, o Santander incorporou uma visão mais negativa para o mercado de bovinos nos Estados Unidos e agora espera que esse ciclo permaneça desfavorável até 2028.

Esse cenário levou o banco a cortar as projeções da JBS. A estimativa de Ebitda para 2026 caiu de US$ 5,99 bilhões para US$ 5,41 bilhões, enquanto a projeção para 2028 foi reduzida em 15%, para US$ 5,85 bilhões.

Apesar dos cortes, os analistas afirmam que o desconto histórico da JBS em relação à Tyson Foods diminuiu após a dupla listagem da companhia nos Estados Unidos.

"A diferença de valuation em relação à Tyson diminuiu desde a listagem nos EUA. Acreditamos que a ação carece de gatilhos de curto prazo", afirmam os analistas, mesmo após sua inclusão nos índices Russell 1000 e Russell 3000.

No final de junho, a JBS passou a integrar oficialmente o Russell 3000, um dos principais índices do mercado acionário dos EUA.

O Russell 3000 reúne aproximadamente 98% do mercado acionário investível dos Estados Unidos e serve de referência para trilhões de dólares administrados por fundos de investimento e ETFs que replicam a composição do índice.

Além do ciclo pecuário prolongado, o Santander aponta outros fatores que podem continuar pressionando o desempenho da companhia.

Na avaliação do banco, uma reconstrução do rebanho mais lenta do que o esperado nos Estados Unidos e no Brasil, surtos sanitários, os impactos do El Niño sobre os preços dos grãos e potenciais litígios ou restrições decorrentes de questões passadas de governança corporativa estão entre os principais riscos para a JBS.

Por outro lado, os analistas veem possíveis catalisadores positivos para a empresa, como um real mais fraco, a recuperação dos preços do frango nos Estados Unidos, uma melhora do ciclo pecuário americano e uma eventual inclusão das ações em índices como o S&P.

JBS nos EUA

Nem todas as avaliações do banco, porém, são negativas. O relatório considera acertada a decisão da JBS de encerrar as operações da unidade de Souderton, na Pensilvânia, anunciada em junho.

A planta representa cerca de 6% da capacidade de abate da JBS Beef North America e aproximadamente 2% da capacidade total de abate dos Estados Unidos.

Para os analistas, o fechamento sinaliza uma mudança estratégica do setor.

"Acreditamos que os frigoríficos estão adotando uma estratégia mais racional para preservar margens à medida que o ciclo se aproxima do fundo", afirma o relatório.

Segundo o Santander, a concentração da produção em plantas mais eficientes e em regiões com maior disponibilidade de animais ajuda a reduzir custos fixos e a diminuir a competição pela compra de gado.

O banco também observa que, considerando os fechamentos anunciados por JBS, Tyson e Cargill, a capacidade de abate nos EUA deverá registrar uma redução líquida próxima de 5%, movimento que tende a favorecer a rentabilidade do setor no médio prazo.

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