Exportação de carne: De janeiro a agosto deste ano, a União Europeia ampliou em 26,4% as compras de carne bovina do Brasil, para 87,1 mil toneladas em volume e US$ 762,3 milhões em receita. (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 17 de setembro de 2026 às 15h24.
Última atualização em 17 de setembro de 2026 às 15h42.
A retomada das exportações de carne bovina brasileira para a União Europeia deve ocorrer apenas no primeiro semestre de 2027, segundo Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). No ano passado, o Brasil exportou cerca de US$ 1 bilhão em carne bovina para a UE.
Segundo Perosa, o setor trabalha para que o Brasil volte à lista de países autorizados a exportar para a Europa e, a partir disso, negocie um período de transição para a retomada do fluxo comercial. Ele afirmou que, na avaliação da entidade, a solução deve avançar apenas no próximo ano.
“Eu acho que é um assunto para se resolver no primeiro semestre do ano que vem”, afirmou Perosa nesta quinta-feira, 17, durante coletiva com jornalistas.
O executivo explicou que o objetivo do setor é restabelecer o comércio com a Europa após a aprovação do protocolo criado para controlar o uso de antimicrobianos na produção pecuária — a carne bovina é produto de origem animal mais vendido para a União Europeia.
No dia 4, a UE concluiu missões técnicas para avaliar as cadeias de produção de mel e frango. Para a carne bovina, porém, ainda não há previsão de uma visita específica, segundo Perosa.
A indústria brasileira tenta negociar um período de transição para evitar uma interrupção prolongada das vendas para a Europa. Segundo Perosa, a proposta europeia atual poderia levar até dois anos para a retomada das exportações de carne bovina, devido ao ciclo de produção dos animais.
O setor defende que, após a União Europeia reconhecer o protocolo brasileiro e a capacidade de fiscalização do Ministério da Agricultura, seja estabelecido um prazo gradual para a volta das exportações.
Perosa afirmou ainda que a indústria pediu ao governo brasileiro que negocie um período de transição para que as empresas possam voltar a exportar antes desse prazo de dois anos.
Desde 3 de setembro, a União Europeia interrompeu as importações de produtos de origem animal do Brasil. Com a medida, o país ficou impedido de exportar carne bovina, suína, frango, mel, pescados e ovos para os 27 países do bloco.
A alegação da UE é de que o controle realizado pelo Brasil sobre o uso dessas substâncias é insuficiente.
O principal impasse da negociação envolve o protocolo brasileiro de controle de antimicrobianos, elaborado pelo setor privado com entidades como Abiec, CNA e associações de certificadora — o documento estabelece regras para acompanhar animais que não utilizarão esses produtos desde o nascimento.
Segundo Perosa, apesar da adesão das indústrias, o desafio é ampliar a participação dos pecuaristas e demonstrar à UE que o Brasil possui mecanismos de controle e fiscalização adequados.
O bloco, porém, defende que o protocolo seja aplicado antes de uma decisão sobre o retorno das compras, enquanto o setor brasileiro tenta negociar o reconhecimento do acordo antes da implementação.
Além do volume exportado, o retorno ao mercado europeu é considerado estratégico porque a União Europeia compra cortes específicos do boi, diferentes dos principais destinos da carne brasileira, como China e Estados Unidos.
Segundo Perosa, a Europa funciona como um formador de preços no mercado internacional e brasileiro, porque ajuda a equilibrar o aproveitamento da carcaça bovina.
Enquanto a China concentra compras principalmente no dianteiro do animal, os Estados Unidos demandam cortes voltados à produção de carne processada, e a Europa compra peças semelhantes às consumidas no mercado interno brasileiro.
“Se a gente tira uma dessas partes que tinha destinação certa, mexe no balanço do preço do boi em todos os ambientes, tanto na China, tanto no Brasil, como no resto do mundo”, afirmou o presidente da Abiec.
A ausência do mercado europeu pode afetar principalmente a remuneração da indústria e dos pecuaristas, já que o equilíbrio entre diferentes compradores permite maior aproveitamento comercial do animal.