A Datagro projeta que o Brasil exportará 4,248 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC) em 2027, ante 4,176 milhões de TEC estimadas para 2026, uma alta de 1,7%. (Alfribeiro/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 06h00.
A China continuará como o principal destino da carne bovina brasileira, mas deixará de ser o motor do crescimento das exportações em 2027. A expectativa da Datagro, consultoria agrícola, é de que os embarques cresçam 1,7% no próximo ano, impulsionados por uma combinação de mercados como Estados Unidos, Chile, Sudeste Asiático e Oriente Médio, em um cenário de aumento do déficit global de proteína.
Para Guilherme Jank, analista sênior da consultoria, o crescimento dos embarques do país será sustentado pelo aumento do déficit global de proteína e pela capacidade do Brasil de atender países que terão dificuldade em ampliar a própria produção.
A Datagro projeta que o Brasil exportará 4,248 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC) em 2027, ante 4,176 milhões de TEC estimadas para 2026, uma alta de 1,7%. "O déficit deixa de aumentar no mundo desenvolvido para passar a aumentar no mundo em desenvolvimento”, afirma o analista.
Segundo Jank, o Brasil deve capturar parte desse crescimento da demanda global porque possui escala produtiva e uma participação relevante no comércio internacional de carne bovina.
“O Brasil no ano que vem vai abocanhar mais ou menos um quarto da expansão no déficit mundial. Essa é a nossa expectativa”, diz.
Entre os mercados com potencial de expansão está o Chile, que já é um dos principais compradores da carne brasileira. “A gente pode mencionar Chile. O Chile hoje é um dos nossos principais mercados importadores e tem uma situação tão grave de oferta quanto tem o resto do mercado”, afirma Jank.
Além do país sulamericano, os EUA, que enfrentam uma das piores quedas do rebanho dos últimos 80 anos, devem ser um dos principais destinaos da proteína brasileira no próximo ano. O rebanho bovino total do país atingiu o menor nível desde 1952, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
Até agosto deste ano, os Estados Unidos já apareciam como o segundo principal destino da carne bovina brasileira. O país importou 269,1 mil toneladas no período, alta de 29% em relação ao mesmo intervalo de 2025, segundo a Associação das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Para o analista, além dos EUA e do Chile, o Oriente Médio e alguns países da Ásia também deve impulsionar os embarques brasileiros.
“A gente pode falar de Sudeste da Ásia, que é extremamente relevante. Oriente Médio, em alguma medida, se a situação (da Guerra no Irã) conseguir se acalmar, obviamente isso tem um efeito importante também”, afirma Jank.
Apesar de a China continuar como o principal destino da carne bovina brasileira, a expectativa é que o país asiático não seja o responsável pelo crescimento dos embarques no próximo ano.
Segundo Roberto Perosa, presidente da Abiec, o país asiático já sinalizou um aumento de cerca de 20 mil toneladas no volume permitido para o próximo ano. Apesar de representar um avanço, o incremento ainda é considerado insuficiente pela indústria brasileira, que defende um modelo de livre comércio.
O mercado chinês passa por um período de adaptação após a implementação da cota de importação, implementada neste ano, e que limitou o ritmo das compras da carne brasileira pelo país asiático.
Em agosto, a China recebeu 18,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, queda de 88,2% em relação ao mesmo mês do ano passado. Em receita, os embarques somaram US$ 101,9 milhões, recuo de 88,6%, segundo dados da Abiec.
Apesar da forte retração no mês, a China ainda lidera o ranking de destinos da carne bovina brasileira no acumulado de janeiro a agosto.
No período, o país asiático comprou 899,2 mil toneladas, com receita de US$ 5,51 bilhões. O volume representa uma queda de 6,6% em relação ao mesmo intervalo de 2025, mas o mercado chinês ainda concentra 40,8% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil em 2026.
A União Europeia também permanece como um ponto de atenção para o setor. O Brasil ainda negocia a retomada das exportações de carne bovina para o bloco após restrições relacionadas ao controle do uso de antimicrobianos na pecuária.
A Abiec espera que a retomada dos embarques brasileiros para o bloco europeu aconteça ainda no primeiro semestre de 2027.
Além do avanço dos embarques, outro fator deve mudar o mercado brasileiro em 2027: a queda do consumo doméstico.
A Datagro estima que o consumo brasileiro de carne bovina cairá 10,6%, passando de 6,603 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC) em 2026 para 5,905 milhões de TEC em 2027.
Com menos demanda interna, a participação das exportações na produção nacional deve crescer, passando de 38,6% para 41,6%.
A redução da oferta de animais deve ser parcialmente compensada pelo aumento da produtividade da pecuária.
Nos cálculos da consultoria, os bovinos abatidos em 2027 devem chegar mais pesados ao frigorífico, em um cenário de maior uso de tecnologia, intensificação da produção e disponibilidade de alimentação.
A previsão é de que o peso médio das carcaças avance 3,2%, de 263,9 quilos por animal em 2026 para 272,3 quilos em 2027.