Novo presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, avança agenda de direita e propõe reformas no vocabulário de sua administração (AFP)
Repórter
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 07h00.
Pouco mais de um mês após a posse na Colômbia, a administração do novo presidente, Abelardo de la Espriella, já passou a defender mudanças na linguagem oficial, ao mesmo tempo em que apresenta uma agenda voltada à produtividade e à expansão do acesso ao crédito e às terras.
Em uma medida que gerou ampla indignação, de la Espriella afirmou que removeria a palavra "camponês" e termos associados do vocabulário da administração, substituindo-os por expressões como "pequenos produtores agrícolas" e "pequeno empreendedor rural."
O episódio ganhou força na semana passada, 8, quando o ministro da Agricultura, Indalecio Dangond, confirmou, diante das comissões econômicas do Congresso, que o governo deixaria de usar o termo “camponês” para se referir aos produtores de alimentos. Para a nova administração, o termo "camponês" é considerado pejorativo.
A declaração provocou uma reação imediata de parlamentares da oposição e de especialistas em direito constitucional. O principal argumento é que o termo não é apenas uma classificação informal: desde 2023, a Constituição colombiana reconhece o campesinato como sujeito de direitos e de proteção especial, incluindo sua relação específica com a terra.
Após a declaração, muitos críticos manifestaram insatisfação. A defensora do Povo da Colômbia, Iris Marín Ortiz, afirmou que os camponeses são uma população com características sociais, econômicas, culturais e territoriais próprias e que não podem ser discriminados em razão dessa condição.
Para críticos do governo, a mudança de nomenclatura pode acabar apagando uma categoria que possui reconhecimento jurídico específico.
Por sua vez, Mafe Carrascal Rojas, deputada do Pacto Histórico, o partido do ex-presidente esquerdista Gustavo Petro, foi às redes sociais em protesto.
"É de ferver o sangue ouvir tamanho absurdo em um país como a Colômbia, onde a violência, o desapossamento e a exclusão das instituições têm sido especialmente cruéis contra o campesinato", afirmou a deputada no X, ex-twitter.
"Todo o povo colombiano, seja de esquerda ou de direita, sente um profundo orgulho de ter pais ou avós camponeses, ou de se dedicar atualmente ao cultivo da terra para alimentar suas famílias e todo o país."
Dangond tentou conter a repercussão nas redes sociais e apresentou a proposta como uma distinção técnica.
Segundo ele, “camponês” designa uma condição social, econômica, territorial ou ligada à agricultura familiar, enquanto “produtor agropecuário” seria uma categoria produtiva mais ampla, capaz de incluir desde pequenos agricultores até grandes empresas do setor.
A controvérsia, porém, não começou no Congresso. Dias antes do discurso de Dangond. Diversas plataformas de mídia e entidades governamentais já afirmaram ter recebido orientações para evitar o uso do termo em relatórios e materiais de comunicação.
A expressão “reforma agrária”, segundo essas informações, também deveria ser substituída por termos como “acesso à terra” e “formalização”.
A escolha das palavras tem peso adicional em um país em que palavras associadas ao termo "camponês" podem assumir conotação depreciativa em determinados contextos, mas também são reivindicadas por organizações rurais como identidade política e social.
Na Colômbia, organizações do setor continuam a defender a manutenção da expressão. A Dignidad Agropecuaria Colombiana afirma que o país precisa conciliar o apoio à agricultura familiar e comunitária com o estímulo às empresas agrícolas nacionais e sustenta que as políticas para o campo não deveriam variar conforme a ideologia do governo de turno.
A discussão sobre a linguagem ocorre enquanto Dangond tenta implementar uma agenda econômica para o setor agropecuário.
Administrador de empresas com cerca de quatro décadas de experiência em financiamento agrícola e desenvolvimento rural, o ministro tem entre suas prioridades bancarizar 2,5 milhões de camponeses, ampliar a regularização de propriedades e acelerar a construção de distritos de irrigação.
O plano também prevê a realização de um censo nacional agropecuário, a criação de 700 escolas de empreendedorismo rural e a substituição de 50 mil hectares de cultivos de uso ilícito por atividades produtivas, com projetos de palma em Tumaco e de cacau em Tibú. O objetivo declarado é ampliar o acesso ao crédito, à assistência técnica e a oportunidades econômicas no campo.
Ao completar um mês à frente da pasta, Dangond afirmou que pretende colocar a Colômbia entre os principais polos do comércio agrícola até 2030.
O ministro destacou que países como Peru, Uruguai, Brasil e Argentina avançaram na produção nas últimas décadas, enquanto a Colômbia permanece próxima de 5,5 milhões de hectares cultivados e enfrenta dificuldades de produtividade entre cerca de 2,4 milhões de pequenos produtores.
É nesse contexto que a disputa sobre a nomenclatura ganhou uma dimensão política. Para o advogado Carlos Quesada, doutor em direito pela Universidade Nacional da Colômbia, a proposta revela uma concepção de desenvolvimento rural mais concentrada no crescimento econômico e na iniciativa privada, em contraste com a exigência constitucional de conciliar atividade produtiva com sustentabilidade social e atenção às populações marginalizadas.
Na avaliação de Quesada, a mudança poderia ter efeitos que vão além da comunicação institucional, ao influenciar quais grupos aparecem explicitamente no desenho e na distribuição das políticas públicas.
O governo, por sua vez, sustenta que diferenciar categorias produtivas permitiria formular programas mais específicos para diferentes perfis do campo, sem eliminar a identidade ou os direitos das populações rurais.