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Por que falta carne nos EUA — e como o Brasil entra nessa equação

Menor rebanho, frigoríficos pressionados e ciclo de reconstrução lento desafiam empresas como Tyson, JBS e outros processadores de carne nos Estados Unidos

Carne bovina: até agosto deste ano, os Estados Unidos já apareciam como o segundo principal destino da carne bovina brasileira. (Freepik/Divulgação)

Carne bovina: até agosto deste ano, os Estados Unidos já apareciam como o segundo principal destino da carne bovina brasileira. (Freepik/Divulgação)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 06h00.

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O problema da carne bovina nos Estados Unidos não está na demanda, mas na oferta. Mesmo com consumidores dispostos a pagar mais pela proteína, frigoríficos como Tyson Foods e JBS e pecuaristas americanos enfrentam uma escassez de animais que deve pressionar o mercado até 2028 e criar oportunidades para o Brasil.

Segundo projeção do Santander, o ciclo pecuário americano entrou em uma fase negativa após uma redução significativa do rebanho, consequência de anos de abates elevados e condições adversas para os produtores. Para reconstruir a oferta, porém, o setor depende de uma variável que não responde rapidamente: o tempo biológico de criação do gado.

“O ciclo negativo do gado nos Estados Unidos deve durar mais do que inicialmente esperado”, afirmam os analistas Guilherme Palhares, Ulises Argote e Laura Hirata, que mantêm uma visão mais cautelosa para empresas expostas ao mercado americano de carne bovina.

A crise no setor se intensificou neste ano, mas desde 2019, o número de cabeças de gado de corte nos EUA caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho bovino total do país atingiu o menor nível desde 1952, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem. Como consequência, muitos produtores venderam parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com a queda, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção de carne bovina.

A pressão sobre a oferta foi agravada ainda pelas restrições sanitárias às importações de gado do México, um dos principais fornecedores americanos. A medida foi adotada após o avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, uma praga que ameaça a pecuária da região.

A menor oferta doméstica aumentou a dependência americana do mercado externo. O USDA projeta que os EUA importem 2,78 milhões de toneladas de carne bovina em 2026, alta de 14% em relação ao ano anterior. Só no primeiro semestre, as compras externas somaram cerca de 1,5 milhão de toneladas, avanço de 12%.

O primeiro efeito da falta de animais aparece diretamente na operação dos frigoríficos. Com menos gado disponível, as empresas precisam disputar matéria-prima, pressionando custos e reduzindo margens. Diante desse cenário, os frigoríficos começaram a reagir com uma estratégia diferente: reduzir a capacidade de processamento para preservar rentabilidade.

O Santander estima que os fechamentos líquidos de capacidade em 2026 devem alcançar cerca de 6,7 mil cabeças por dia, o equivalente a aproximadamente 13% da capacidade existente no início do ano. Para os analistas, o movimento indica uma tentativa da indústria de priorizar margens em vez de volume.

Entre os exemplos estão unidades fechadas ou em processo de encerramento por empresas como Tyson Foods e JBS, além de outros frigoríficos regionais.

Para as companhias, o desafio é administrar uma indústria estruturada para operar com maior disponibilidade de animais em um momento de oferta restrita.

Uma das alternativas encontradas pelo mercado americano foi ampliar as importações de gado do México. Mas, segundo o relatório, esse movimento tem alcance limitado.

Nos últimos anos, os animais mexicanos representaram cerca de 5% dos animais destinados aos confinamentos americanos.

Mesmo com a retomada gradual das compras, o Santander estima que essas importações devem representar entre 0,5% e 1% dos animais colocados em confinamento nos Estados Unidos em 2026, volume insuficiente para alterar o cenário nacional de oferta.

Na prática, o gado mexicano pode aliviar problemas regionais, especialmente em estados produtores como Texas e Kansas, mas não resolve o déficit estrutural de animais nos Estados Unidos.

A solução passa pela reconstrução do próprio rebanho americano — um processo que depende da retenção de fêmeas e da produção de novos bezerros. “O ciclo pecuário não muda de uma hora para outra. Para aumentar a oferta de animais, é preciso tempo”, afirma Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercados, à EXAME.

“Por mais investimento que você faça, a recomposição de rebanho não é rápida”, afirma. Segundo ele, a produção de novos animais depende do ciclo natural da reprodução bovina, o que impede uma resposta imediata do mercado.

Carne do Brasil

A pressão sobre os preços chegou ao consumidor americano e passou a ter reflexos políticos.

A carne moída, um dos cortes mais consumidos nos EUA, subiu 0,6% em agosto em relação ao mês anterior e atingiu um novo recorde histórico, segundo dados divulgados na sexta-feira, 11, pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA. Os preços estavam 7,9% acima dos níveis registrados um ano antes.

Diante da falta de animais e da pressão sobre os preços da carne bovina, os Estados Unidos também passaram a buscar alternativas no mercado internacional.

Há duas semanas, o presidente Donald Trump anunciou que aumentaria em 300 mil toneladas as importações de carne bovina como uma tentativa de ampliar a oferta e reduzir os preços no país.

Segundo Trump, a maior parte desse volume deve vir de Brasil e Argentina. Ao defender a medida, o presidente americano destacou a qualidade da carne produzida pelos dois países.

“Pode haver outros países, mas agora são principalmente Argentina e Brasil. Estamos fazendo isso de forma muito limitada porque nossos pecuaristas conseguem atender ao mercado”, afirmou Trump.

O movimento abre uma oportunidade para exportadores brasileiros. Até agosto deste ano, os Estados Unidos já apareciam como o segundo principal destino da carne bovina brasileira. O país importou 269,1 mil toneladas no período, alta de 29% em relação ao mesmo intervalo de 2025, segundo a Associação das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

Segundo análise da Safras & Mercado, o Brasil poderia capturar entre 30% e 40% do volume adicional anunciado pelos Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente 90 mil a 120 mil toneladas. Como referência para projeções, a consultoria considera 100 mil toneladas um cenário plausível.

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