Tartarugas-gigantes: animais reintroduzidos na natureza descendem de exemplares encontrados há mais de 20 anos no Vulcão Wolf (Freepik)
Redatora
Publicado em 19 de setembro de 2026 às 05h37.
Depois de mais de 175 anos desaparecidas da Ilha Floreana, tartarugas-gigantes com genes da linhagem local voltaram a caminhar por esse território de Galápagos. Em fevereiro de 2026, 158 animais foram soltos na natureza após décadas de pesquisas e reprodução em cativeiro.
A reintrodução foi realizada pela Direção do Parque Nacional de Galápagos com apoio de organizações de conservação. Dados de satélite da Nasa ajudaram a identificar áreas adequadas para a soltura.
Os animais descendem de tartarugas encontradas há mais de duas décadas no Vulcão Wolf, na Ilha Isabela. Análises genéticas relacionaram esses exemplares à população de Floreana, desaparecida da ilha em meados do século XIX.
A história começou em 2000, quando pesquisadores encontraram tartarugas com características incomuns durante uma expedição ao Vulcão Wolf.
Os animais tinham carapaças em formato de sela, diferentes das esperadas naquela região. Sem saber sua origem, os pesquisadores passaram a chamá-los informalmente de “alienígenas”, contou James Gibbs, vice-presidente de Ciência e Conservação da Galapagos Conservancy, em entrevista à CNN.
Análises genéticas posteriores revelaram que algumas carregavam ancestralidade da linhagem Floreana. A principal hipótese é que navegadores tenham levado esses animais para a Ilha Isabela. Piratas e baleeiros transportavam tartarugas nos navios porque elas conseguiam sobreviver por longos períodos sem comida ou água.
Segundo Jorge Carrión, diretor de conservação da Galapagos Conservancy, algumas podem ter sido abandonadas perto do Vulcão Wolf. O transporte natural durante enchentes também é considerado, embora a participação humana seja apontada como mais provável.
Tartarugas-gigantes chegaram a Galápagos há cerca de 2 milhões a 3 milhões de anos e, ao longo do tempo, diferentes populações se adaptaram às ilhas do arquipélago.
A chegada de navegadores mudou esse cenário. Entre 100 mil e 200 mil tartarugas desapareceram em aproximadamente dois séculos devido à captura e a outras ameaças, como espécies invasoras introduzidas pelos humanos.
A população de Floreana desapareceu da ilha por volta de 1850.
Após a identificação genética, 19 exemplares da linhagem Floreana foram levados para um centro de reprodução. Segundo Gibbs, os animais se adaptaram bem ao cativeiro e produziram cerca de 800 filhotes.
Parte desses descendentes formou o grupo reintroduzido neste ano. Os animais receberam dispositivos de rastreamento por satélite para que pesquisadores acompanhem sua adaptação ao ambiente.
As tartarugas soltas são híbridas e combinam genes da antiga população de Floreana com os de espécies da região do Vulcão Wolf.
Até agora, nenhum exemplar geneticamente puro foi localizado. No entanto, pesquisadores encontraram animais jovens com cerca de 50% de ancestralidade Floreana, o que indica que tartarugas da linhagem original podem ainda existir na região.
Além de recuperar a população, a reintrodução pode restabelecer funções ecológicas perdidas. As tartarugas-gigantes são consideradas “engenheiras do ecossistema” porque modificam a vegetação e dispersam sementes.
Cada animal pode consumir até 225 quilos de vegetação por ano. Como a digestão é lenta, sementes podem ser transportadas por quilômetros antes de serem eliminadas.
Nos últimos 60 anos, mais de 9 mil tartarugas-gigantes foram criadas em cativeiro e soltas na natureza em Galápagos. O retorno a Floreana amplia esse esforço de conservação para uma área onde esses animais estavam ausentes desde o século XIX.