Tecnologia

Por que a Nvidia quer comprar a Hugging Face?

Acordo de US$ 12,9 bilhões pela plataforma de código aberto ampliaria o controle da fabricante de chips sobre um ponto estratégico do ecossistema de IA — e chega logo depois de o site sofrer um ataque hacker causado por um modelo da OpenAI

Nvidia: empresa avalia comprar a Hugging Face (Nvidia/Divulgação/Fundo gerado por IA/Exame)

Nvidia: empresa avalia comprar a Hugging Face (Nvidia/Divulgação/Fundo gerado por IA/Exame)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 28 de agosto de 2026 às 15h01.

Priorizar nos meus resultados Google

A Nvidia teria concordado em comprar a Hugging Face, plataforma de código aberto onde desenvolvedores compartilham, testam e usam modelos de inteligência artificial (IA), por US$ 12,9 bilhões, segundo o site The Information.

A negociação, segundo a mídia americana, avançou para uma avaliação acima de US$ 13 bilhões — e uma fonte disse à CNBC poder "confirmar que a aquisição pela Nvidia tem feito parte de negociações em andamento e recentes". Nem a Nvidia nem a Hugging Face confirmaram publicamente o negócio.

Se concluído, o acordo seria uma das maiores aquisições já feitas pela Nvidia, e colocaria sob controle da fabricante de chips uma das plataformas mais usadas do mundo para compartilhar e trabalhar com modelos abertos de IA.

Um seguro contra dois riscos ao mesmo tempo

A compra funciona menos como uma aquisição de tecnologia tradicional e mais como uma proteção contra duas ameaças que já pressionam o negócio da Nvidia.

A primeira é a proliferação de chips personalizados: quase todo grande laboratório de IA que pode bancar o investimento já desenvolve seu próprio processador — a própria OpenAI já apresentou o Jalapeño, seu primeiro chip de inferência, construído em parceria com a Broadcom, e analistas já apontam o produto como ameaça às margens da Nvidia especificamente no mercado de inferência (a etapa de efetivamente rodar um modelo já treinado), hoje a fatia que mais cresce nos gastos com IA. Google tem seus próprios chips TPU; a Meta, os MTIA.

A segunda ameaça é a concentração da distribuição de modelos de IA nas mãos de poucas nuvens gigantes (hyperscalers).

Ao controlar a Hugging Face, a Nvidia garante um ecossistema de código aberto forte o suficiente para manter clientes fora dos laboratórios fechados — e, na prática, mais atrelados ao hardware da própria Nvidia, já que a empresa já investiu dezenas de bilhões de dólares em seus próprios modelos abertos.

A aquisição também marcaria o retorno da Nvidia ao negócio de computação em nuvem, área que a empresa havia reduzido cerca de um ano atrás.

Segundo analistas, possuir a Hugging Face poderia dar à companhia uma forma de escoar capacidade de nuvem ociosa — a Nvidia já se comprometeu com bilhões de dólares em garantias para bancar custos de computação de clientes de IA, e capacidade não utilizada dentro desses compromissos poderia ser redirecionada para a base de usuários da Hugging Face, em vez de ficar parada.

Uma segunda tentativa da Nvidia

A Nvidia já era acionista da Hugging Face, tendo participado de uma rodada de captação em 2023 que avaliou a startup em US$ 4,5 bilhões.

No fim do ano passado, porém, a Hugging Face recusou um investimento de US$ 500 milhões oferecido pela própria Nvidia, que a avaliaria em US$ 7 bilhões — a empresa, à época, não queria um único investidor com poder de influenciar suas decisões.

A Business Insider também apurou que a Hugging Face já havia conversado com a Microsoft sobre uma possível venda, sem chegar a acordo.

O momento do anúncio não é coincidência

A negociação veio a público um mês depois da Hugging Face ganhar atenção internacional por outro motivo.

Recentemente, um modelo da OpenAI, durante testes internos de cibersegurança, violou seu protocolo de teste e invadiu os sistemas da própria plataforma — episódio que a OpenAI detalhou em relatório técnico publicado recentemente.

O CEO da Hugging Face, Clem Delangue, já havia se posicionado publicamente a favor da aposta da Nvidia em código aberto, em meio a temores de que autoridades em Washington venham a restringir modelos abertos — um receio alimentado pelo avanço de laboratórios chineses, como a Moonshot AI, cujo modelo Kimi K3 rivaliza com sistemas americanos líderes em benchmarks, a um custo muito menor.

Fundada por três franceses, hoje avaliada 86 vezes sua receita

A Hugging Face foi fundada em 2016 por três empreendedores franceses — Clément Delangue, Julien Chaumond e Thomas Wolf —, batizada em homenagem ao próprio emoji que dá nome à empresa.

Hoje com dez anos de operação, a companhia afirma estar perto do lucro, com receita anual em torno de US$ 150 milhões — o que faz da avaliação de US$ 12,9 bilhões um múltiplo de cerca de 86 vezes o faturamento.

A movimentação também se encaixa na tendência maior de plataformas que ocupam pontos estratégicos de conexão entre desenvolvedores e modelos de IA vêm sendo compradas por preços cada vez mais altos.

Em maio deste ano, a OpenRouter, serviço de roteamento de modelos bem menor que a Hugging Face, foi avaliada em US$ 1,3 bilhão em uma rodada Série B — meses depois, a Stripe concordou em comprá-la por mais de US$ 7 bilhões.

Acompanhe tudo sobre:NvidiaFusões e Aquisições

Mais de Tecnologia

Apple pode quebrar tradição e lançar 1º MacBook touchscreen da história da marca

DNS e navegação anônima: o que protege de verdade e o que é ilusão

NIO bate recorde com mais de 183 mil trocas de baterias em um dia na China

Uso de IA para planejar viagens cresce 79% durante feriado na China