Competência técnica pode abrir portas, mas caráter, responsabilidade e respeito ajudam a definir quem fortalece a cultura de uma empresa (SIphotography/Thinkstock)
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Publicado em 28 de agosto de 2026 às 15h00.
Por Simone Salgado, CEO S. Group Investments.
Você sabe explicar por que escolheu as pessoas que hoje trabalham com você?
Experiência, formação, competência técnica, resultados anteriores, indicação. São critérios importantes e, muitas vezes, os primeiros que observamos em uma contratação.
Mas existe uma escolha acontecendo antes disso: que tipo de pessoa estamos colocando dentro da nossa empresa?
Ao longo da minha trajetória como empreendedora nos Estados Unidos, construí empresas e trabalhei com centenas de profissionais. Com o tempo, fui entendendo que uma boa contratação não pode ser avaliada apenas pelo que alguém sabe fazer.
Porque uma pessoa pode ser excelente tecnicamente e, ainda assim, ser péssima nas relações.
Eu mesma já errei dessa forma. Já contratei profissionais com currículos excelentes, grande capacidade técnica e resultados consistentes, mas que prejudicavam o ambiente, geravam conflitos e tinham dificuldade para construir relações saudáveis.
Essas experiências me ensinaram algo que hoje considero fundamental: competência técnica resolve uma parte do problema. Bom caráter sustenta a outra.
Uma tarefa pode ser ensinada. Mas existe algo que nenhum currículo consegue garantir: como essa pessoa reage quando erra?
Ela assume responsabilidade ou procura um culpado? É transparente quando uma situação não lhe favorece? Como trata alguém que pensa diferente? Tem disposição para aprender? É capaz de olhar para um problema e pensar: “O que podemos fazer melhor?”
Essas respostas revelam muito porque errar faz parte. O que não podemos normalizar é a falta de honestidade, respeito e responsabilidade.
Essa é uma das partes mais difíceis. Ninguém chega a uma entrevista dizendo que não é confiável ou que tem dificuldade para assumir responsabilidades. Por isso, não acredito em uma pergunta mágica capaz de revelar o caráter de alguém.
Ele aparece nos detalhes. Na forma como a pessoa fala dos antigos colegas e gestores. Na maneira como conta uma situação em que errou. Na capacidade de reconhecer a própria responsabilidade em um conflito. Na coerência entre aquilo que diz valorizar e os exemplos que consegue apresentar.
Se alguém fala em comprometimento, pergunte sobre uma situação em que precisou fazer mais do que o combinado.
Se diz que sabe trabalhar em equipe, pergunte sobre uma situação em que precisou ceder.
Se afirma que gosta de aprender, peça um exemplo de algo que teve dificuldade para aprender e como lidou com isso.
Não vamos conhecer completamente o bom caráter de alguém em uma entrevista. Mas podemos criar situações que permitam observar comportamento, maturidade e coerência.
O currículo mostra o que a pessoa sabe. As situações revelam como ela age.
E é justamente quando as coisas dão errado que essa diferença fica mais evidente.
Quando admitir um erro é desconfortável. Quando fazer o correto dá mais trabalho do que fazer o conveniente. Quando assumir a responsabilidade pode custar alguma coisa.
É nessas situações que valores como honestidade, respeito, transparência, gentileza e comprometimento deixam de ser palavras e passam a ser comportamento.
Por isso, não procuro pessoas que nunca erram. Procuro pessoas que saibam reconhecer o erro, aprender com ele e buscar uma solução.
Também valorizo quem estuda, quer crescer e tem iniciativa para olhar para dentro da empresa e pensar: “O que eu posso fazer para isso funcionar melhor?”
Quem entra na empresa também influencia quem já está lá.
Quando uma pessoa que desrespeita os outros é mantida porque entrega bons resultados, a equipe aprende.
Quando a desonestidade é tolerada, a equipe aprende.
Quando alguém assume responsabilidade, ajuda um colega e trata as pessoas com respeito, a equipe também aprende.
Por isso, cultura não é apenas aquilo que escrevemos como valor. É aquilo que toleramos, reconhecemos, recompensamos e repetimos. E, escolher pessoas é escolher quais comportamentos queremos multiplicar.
É também por isso que acredito que gentileza e resultado não são opostos. Uma gestão pode cobrar, estabelecer metas, corrigir erros e buscar alta performance sem abrir mão do respeito pelas pessoas.
Essa reflexão continua presente no meu trabalho e também está disponível no meu livro Gestão com Gentileza 2.0, pois eu acredito que a forma como conduzimos as relações dentro de uma empresa faz parte daquilo que estamos construindo no mundo.
Passamos uma parte enorme da nossa vida trabalhando. Muitas vezes, convivemos mais horas com colegas do que com as pessoas da nossa própria família. Por isso, escolher uma equipe é também escolher com quem vamos compartilhar uma parte importante da nossa vida.
Quero pessoas competentes, claro. Mas quero também pessoas em quem eu possa confiar. Pessoas honestas, respeitosas, dispostas a aprender, crescer, assumir responsabilidades e contribuir para que a empresa seja melhor do que era ontem.
Um dos grandes aprendizados que carrego é este: as pessoas que colocamos dentro da empresa ajudam a definir a empresa que teremos.
Por isso, antes de olhar apenas para o currículo, vale olhar para a pessoa que está por trás dele.
Competência pode abrir a porta, mas é o bom caráter que nos faz decidir quem queremos manter por perto.