(Figure AI/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 14h16.
A Figure, startup americana de robôs humanoides, está pagando pessoas comuns ao redor do mundo — incluindo o Brasil — para dobrar roupa, lavar louça e cozinhar em frente a uma câmera.
O objetivo não é entretenimento, mas treinar o Helix, modelo de inteligência artificial (IA) que controla os robôs da empresa, com dados de movimento humano real, algo que simulações digitais ainda não conseguem replicar com precisão suficiente.
A iniciativa, batizada de Index, é uma plataforma de trabalho remoto (gig economy) lançada pela Figure em agosto e disponível para download no iOS e no Android.
A dinâmica funciona em duas pontas: qualquer pessoa pode se cadastrar como "criador" e gravar a si mesma executando tarefas domésticas ou de trabalho cotidianas em troca de pagamento, ou contratar, pelo próprio aplicativo, outros trabalhadores para realizar tarefas específicas.
Segundo o fundador e CEO da Figure, Brett Adcock, a empresa já pagou US$ 15 milhões a esses "criadores" e vai investir mais de US$ 1 bilhão em dados e capacidade computacional nos próximos 12 meses.
O app já soma 264 mil downloads, com 44 mil usuários ativos semanais, resultando em 16 milhões de vídeos enviados por pessoas de 108 países diferentes até agora — a plataforma processa cerca de 30 minutos de vídeo por segundo.
Cada mil horas de material coletado rende, segundo a empresa, dados sobre 373 tarefas diferentes, 1.146 objetos manipulados distintos e 116 ambientes únicos — uma diversidade que, segundo a Figure, seria quase impossível de definir de antemão em um estúdio controlado.
"Cada criador traz um ambiente nunca visto, um objeto desconhecido e sua própria forma peculiar de completar uma tarefa — o tipo de variação de cauda longa que é quase impossível de prever com antecedência", diz a empresa.
A aposta da Figure é que, ao contrário dos modelos de linguagem, que puderam ser treinados com o conteúdo já disponível na própria internet, a robótica nunca teve um equivalente a essa "internet gigante" de dados prontos.
Não existe um banco de dados público que registre, por exemplo, como uma mão humana gira uma espátula, ajusta a pegada quando uma xícara de café está mais pesada do que o esperado, ou navega por um cômodo bagunçado. Segundo a empresa, os dados necessários para escalar robótica de propósito geral simplesmente não existem online — precisam vir do mundo físico.
Nem todo mundo no setor concorda que esse caminho seja o único viável. Dias depois do lançamento do Index, a startup Antioch levantou US$ 32 milhões defendendo justamente o caminho oposto, com simulações digitais de alta fidelidade como alternativa mais barata e eficiente à coleta massiva de dados reais, argumentando que a maioria das empresas do setor simplesmente não tem como bancar uma operação do tamanho da Figure.
Além do trabalho remoto via Index, a Figure também contrata, nos Estados Unidos, funções presenciais como "Pilotos de Robôs Humanoides" e "Criadores de Dados Helix" — vagas remuneradas por hora, em que o trabalhador veste equipamento de teleoperação ou sensores de movimento para guiar fisicamente os robôs durante turnos de até oito horas, incluindo períodos noturnos.
Segundo anúncios de vaga da própria empresa, pilotos com bom desempenho podem crescer para cargos de liderança dentro da operação de coleta de dados.
A corrida por dados de treinamento coincide com um movimento ainda maior da Figure.
Nesta quinta-feira, 3, a empresa fechou parceria estratégica com a britânica Nscale para acessar até 100 mil unidades de processamento gráfico (GPUs) rodando na plataforma Vera Rubin, da Nvidia.
O acordo representa um compromisso inicial de US$ 3,5 bilhões em capacidade computacional, com intenção de escalar para mais de US$ 6 bilhões, e implantação inicial prevista para o segundo semestre de 2027, em Barstow, no Texas.
"Nosso modelo de IA, o Helix, fica mais capaz da mesma forma que qualquer sistema de aprendizado: com mais dados e mais capacidade computacional", disse Adcock em comunicado sobre o acordo com a Nscale — reforçando que os dois lados do problema, gente gerando dados e chips processando esses dados, caminham juntos na estratégia da empresa.
Apesar do tamanho do acordo com a Nscale, não existe hoje nenhuma forma direta de um investidor brasileiro comum comprar participação na Figure.
A empresa é privada, avaliada em cerca de US$ 39 bilhões após uma rodada Série C fechada em setembro de 2025, e suas ações não são negociadas em nenhuma bolsa de valores.
Analistas de mercado apontam o período entre 2027 e 2028 como a janela mais provável para uma eventual abertura de capital da empresa — o que significa que, por ora, participar como trabalhador de dados é, na prática, mais acessível a um brasileiro do que participar como investidor.