China: país investe pesado em IA (Leandro Fonseca /Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 8 de setembro de 2026 às 09h59.
O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China (MIIT) definiu como meta quadruplicar a capacidade de computação inteligente do país até 2030, alcançando 9,8 mil exaflops — unidade de medida que mensura o desempenho de supercomputadores. Em junho deste ano, o país registrava 2,18 mil exaflops, em alta de 177% em relação ao ano anterior.
A medida visa expandir a capacidade de processamento necessária para treinar modelos avançados e executar sistemas de inteligência artificial (IA) em grande escala.
O plano prevê investimento acumulado de 3,8 trilhões de yuanes (cerca de US$ 534 bilhões, na cotação atual) em infraestrutura de informação entre 2026 e 2030, cobrindo a expansão de data centers, redes e demais recursos de processamento no país.
Em vez de usar apenas um computador, a China vai interligar milhares de placas aceleradoras (GPUs de alta performance) em uma única rede integrada para trabalharem juntas como se fossem um supercomputador gigante.
Para os projetos mais complexos e ambiciosos, o governo quer criar infraestruturas colossais que combinam até 100 mil placas em um único cluster. É o nível de infraestrutura que pouquíssimas empresas no mundo (como Microsoft, Meta e Google) conseguem construir hoje.
A meta de computação se conecta a um esforço mais amplo do governo chinês para reduzir a dependência de tecnologia estrangeira em meio às restrições impostas pelos Estados Unidos à exportação de semicondutores avançados e equipamentos de fabricação de chips.
Segundo Li Lecheng, ministro da Indústria e Tecnologia da Informação da China, a indústria central de inteligência artificial do país já superou 1,2 trilhão de yuanes (cerca de US$ 174 bilhões) em 2025, reunindo mais de 6,2 mil empresas.
Como parte desse esforço de autonomia tecnológica, Pequim também vem apoiando fabricantes locais de chips, como a SMIC — maior fabricante de semicondutores do país —, a Hua Hong Semiconductor e divisões da Huawei, na tentativa de ampliar rapidamente a produção de wafers, as placas de semicondutores usadas na fabricação de chips.
Segundo reportagem do Nikkei Asia, a China produz hoje menos de 20 mil wafers, mas a meta é chegar a 100 mil unidades em até dois anos, e a 500 mil até 2030.
O plano de expansão de computação está inserido no esboço do 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030), que também prevê avanços em sistemas multimodais, agentes de IA e inteligência coletiva.
Segundo Li Lecheng, a tecnologia deve "servir às pessoas, beneficiar as pessoas e permanecer sob controle humano", com potencial para atuar como um bem público global — discurso que busca posicionar a China como referência também na governança internacional de IA, e não apenas na corrida por capacidade computacional.
A meta de computação anunciada pelo MIIT não é uma iniciativa isolada, mas parte de uma sequência de movimentos que a China vem acelerando ao longo dos últimos meses.
No início deste ano, o governo chinês autorizou a startup DeepSeek a comprar chips H200, modelo intermediário da Nvidia, como alternativa ao Blackwell, o mais avançado da fabricante americana — liberação que ocorreu semanas depois de Washington permitir vendas limitadas de semicondutores a gigantes chinesas como ByteDance, Alibaba e Tencent, em uma flexibilização pontual das restrições de exportação.
Em paralelo, empresas locais também têm investido pesado em soluções próprias de IA para reduzir a dependência de tecnologia ocidental.
A Alibaba, por exemplo, reservou 380 bilhões de yuanes (cerca de US$ 54 bilhões) só para capacidade de computação e infraestrutura de IA, além de desenvolver modelos próprios, como o Qwen3.5.
Startups como Z.AI (por trás do modelo GLM) e a Moonshot AI, criadora do Kimi, também têm ganhado espaço no mercado interno chinês, disputando espaço com os laboratórios americanos em benchmarks internacionais de desempenho.
Na frente diplomática, a China também tem buscado protagonismo na definição de regras globais para a tecnologia: na World AI Conference de 2025, Pequim apresentou um plano de 13 pontos para a governança do que chama de "AI+", destacando cooperação internacional e o papel do Estado na criação de normas — incluindo um documento específico de cooperação com países da América Latina e do Caribe.
Segundo as metas do próprio governo chinês, a expectativa é que infraestruturas, tecnologias e serviços baseados em IA estejam presentes em 70% da economia real do país até 2027, chegando a mais de 90% até 2030.