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O fim das senhas: como as passkeys funcionam? Vale a pena usar?

Chaves de acesso usam criptografia e biometria do celular para substituir senhas tradicionais, com adoção de Google, Apple e Microsoft

Passkeys: como funcionam as chaves de acesso que prometem substituir as senhas tradicionais (Philipp Theis / EyeEm/Getty Images)

Passkeys: como funcionam as chaves de acesso que prometem substituir as senhas tradicionais (Philipp Theis / EyeEm/Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 24 de maio de 2026 às 11h00.

Pesquisadores do site de cibersegurança Cybernews identificaram mais de 19 bilhões de combinações de login e senha expostas em bases de dados na internet só no primeiro trimestre de 2025. Cerca de 94% dessas senhas eram reutilizadas em mais de um serviço, o que significa que um vazamento em uma rede social pode abrir a porta de um e-mail pessoal ou de um sistema bancário.

No Brasil, o prejuízo financeiro médio de um vazamento de dados chegou a R$ 7,19 milhões em 2025, segundo o relatório Cost of a Data Breach da IBM. Com números assim, não é difícil entender a desconfiança que surgiu em torno do modelo de proteção baseado em senhas. Para contornar o problema, as grandes empresas de tecnologia agora apostam nas passkeys, que são chaves de acesso que dispensam senhas e usam a biometria do próprio dispositivo para autenticar o usuário.

As passkeys são credenciais digitais baseadas em criptografia assimétrica, desenvolvidas pela FIDO Alliance (consórcio que reúne empresas como Google, Apple e Microsoft) em conjunto com o W3C. Em vez de digitar uma senha, o usuário confirma a identidade por impressão digital, reconhecimento facial ou PIN do celular ou computador. O login acontece sem que nenhuma informação sensível trafegue pela rede. Em 2026, a FIDO Alliance estimou que 5 bilhões de passkeys já estão em uso no mundo, e 75% dos consumidores ativaram ao menos uma chave de acesso em suas contas.

O que são as passkeys?

Uma passkey (ou chave de acesso) é uma credencial digital que substitui a senha tradicional no login de sites e aplicativos. Ela funciona com um par de chaves criptográficas: uma pública, armazenada no servidor do serviço (como Google ou um banco), e uma privada, que fica protegida dentro do dispositivo do usuário.

A chave privada nunca sai do aparelho. Quando o usuário tenta acessar uma conta, o serviço envia um desafio criptográfico, e o dispositivo usa a chave privada para responder. A autenticação só é liberada depois que o usuário confirma a identidade por biometria (digital ou rosto) ou pelo PIN de desbloqueio do aparelho. O servidor confere a resposta com a chave pública e concede o acesso.

O padrão técnico por trás das passkeys é o FIDO2, que combina o protocolo WebAuthn (para comunicação entre sites e navegadores) e o CTAP (para comunicação entre dispositivos e autenticadores). Esse padrão é aberto e impede que cada fabricante crie um sistema incompatível com os demais.

Como as passkeys funcionam no dia a dia?

Na criação de uma conta (ou na ativação da passkey em uma conta já existente), o dispositivo gera o par de chaves de forma automática. A chave pública vai para o servidor; a privada fica no aparelho, protegida pelo sistema de autenticação local — Face ID, Touch ID, Windows Hello ou o PIN de desbloqueio. O login seguinte acontece da seguinte forma:

  1. O usuário acessa o site ou app e seleciona a opção de login com passkey;
  2. O serviço envia um desafio criptográfico para o dispositivo;
  3. O aparelho pede a confirmação biométrica (digital, rosto) ou o PIN;
  4. Após a confirmação, a chave privada assina o desafio e envia a resposta ao servidor;
  5. O servidor valida a assinatura com a chave pública e libera o acesso.

Todo esse processo leva poucos segundos. O usuário não digita senha e não precisa receber códigos por SMS ou abrir um app de autenticação separado.

As passkeys podem ser sincronizadas entre dispositivos por meio de serviços na nuvem — como o iCloud Keychain (Apple), o Google Password Manager (Android e Chrome) e o Microsoft Authenticator, o que permite que uma passkey criada no celular funcione no tablet ou no computador, desde que os dispositivos estejam conectados à mesma conta.

Qual a diferença entre passkey e senha tradicional?

A diferença mais relevante está na forma como cada método protege o acesso. Uma senha é uma sequência de caracteres que o usuário cria, memoriza e digita a cada login. Ela pode ser adivinhada, reutilizada, interceptada por malware ou exposta em vazamentos de servidores.

Uma passkey não depende de memorização e não pode ser digitada — ela existe como um par de chaves criptográficas, e a chave privada nunca é transmitida pela rede.

Em um ataque de phishing, por exemplo, o criminoso cria uma página falsa que imita o site verdadeiro para capturar a senha do usuário. Com passkeys, esse golpe não funciona, visto que a chave está vinculada ao domínio real do serviço e não pode ser acionada em uma página fraudulenta. Mesmo que o usuário acesse um site falso por engano, a passkey não será ativada.

Outro ponto é a resistência a vazamentos em massa. Quando um servidor é invadido, o que os criminosos obtêm é a chave pública — que, sozinha, não permite acessar a conta. A chave privada permanece no dispositivo do usuário, protegida pela biometria.

Em caso de perda ou roubo do celular, o criminoso não consegue usar as passkeys armazenadas sem a impressão digital ou o reconhecimento facial do proprietário. E ao adquirir um novo aparelho, o usuário pode restaurar as chaves via a nuvem (iCloud, Google, Microsoft) e criar novas passkeys nos serviços que precisar.

Vale a pena usar passkeys?

Sim, para a maioria dos usuários. As passkeys eliminam os riscos mais comuns do modelo de senhas — reutilização, fragilidade, phishing e dependência de memorização — sem exigir nenhum conhecimento técnico.

A principal limitação é a compatibilidade, já que nem todos os sites e aplicativos aceitam passkeys. Entre os 100 maiores sites do mundo, cerca de 50% a 60% já oferecem suporte, segundo dados do setor. Serviços como Google, Apple, Microsoft, Amazon, PayPal, LinkedIn, GitHub, Discord e WhatsApp (para proteção de backups) permitem login com passkey. Mas plataformas menores, regionais ou corporativas podem não ter o recurso habilitado.

Outra questão é a transição. A maioria dos serviços que aceita passkeys mantém a senha como método secundário de login. Isso significa que, durante o período de migração, as duas opções convivem — o que pode ser conveniente para quem ainda não configurou passkeys em todos os dispositivos.

Para quem trabalha com dados sensíveis, a passkey pode ser combinada com autenticação multifator (MFA) — por exemplo, passkey no celular mais chave de segurança física (como uma YubiKey). Essa camada adicional é recomendada para contas corporativas, bancárias ou de administração de sistemas.

Como configurar passkeys no Google, na Apple e na Microsoft?

A ativação segue uma lógica parecida nas três plataformas: o usuário acessa as configurações de segurança da conta, cria a passkey e confirma com biometria ou PIN. Veja o passo a passo de cada uma.

No Google (Android, Chrome, Gmail)

  1. Acesse myaccount.google.com e faça login;
  2. Vá em Segurança e depois em Chaves de acesso e chaves de segurança;
  3. Toque em Criar uma chave de acesso;
  4. Confirme a identidade com impressão digital, reconhecimento facial ou PIN do dispositivo;
  5. A passkey será salva no Google Password Manager e sincronizada com outros dispositivos conectados à mesma conta Google.

Em celulares Android a partir da versão 9, o sistema pode sugerir a criação da passkey no momento do login, sem necessidade de ir às configurações.

Na Apple (iPhone, iPad, Mac)

  1. Acesse o site ou app que deseja proteger (ou appleid.apple.com para a conta Apple);
  2. Nas configurações de segurança do serviço, selecione a opção de criar passkey;
  3. O dispositivo pedirá confirmação por Face ID, Touch ID ou código do aparelho;
  4. A passkey será armazenada no iCloud Keychain e sincronizada com outros dispositivos Apple conectados ao mesmo Apple ID.

O recurso exige iOS 16 ou superior, macOS Ventura ou superior, e o iCloud Keychain ativado.

Na Microsoft (Windows, Outlook, Xbox)

A Microsoft anunciou em maio de 2026 que novas contas são criadas sem senha por padrão, e que os códigos SMS para autenticação serão descontinuados até o fim de 2026. Para configurar as passkeys:

  1. Acesse account.microsoft.com e faça login;
  2. Vá em Segurança e depois em Opções de segurança avançadas;
  3. Selecione Adicionar uma nova forma de entrar e escolha Chave de acesso;
  4. Confirme com Windows Hello (rosto, digital ou PIN) ou com o celular;
  5. A passkey será salva no dispositivo ou no Microsoft Authenticator, com sincronização entre aparelhos vinculados à conta Microsoft.
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