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Do IPO bilionário à revolta: como a Roblox irritou seu maior público

Crianças de até 12 anos protestaram contra o bloqueio dos chats, em reação que se espalhou por servidores e redes sociais

Roblox: plataforma de jogos é alvo de protestos  (Montagem/Exame)

Roblox: plataforma de jogos é alvo de protestos (Montagem/Exame)

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 07h46.

Em um espaço extenso com gramado verde, um protesto acontece. Nele, milhares de pessoas carregam placas com frases como “justissa pela gente” e “fallca infiliz”. Algo corriqueiro, salvo uma exceção: tudo ali é feito de pixels. No Roblox, a proibição de chats para menores de 13 anos virou um problema dos grandes.

A mudança, que entrou em vigor globalmente entre os dias 6 e 9 de janeiro, exige verificação facial de idade para liberar o uso de chats de voz e texto. Crianças de até 9 anos tiveram o acesso bloqueado às conversas, a menos que os responsáveis autorizem, e só podem se comunicar com crianças de até 13 anos.

Já usuários a partir de 13 anos que concluíram a verificação de idade podem se conectar e conversar com mais liberdade com pessoas que conhecem, mesmo fora de sua faixa etária imediata. A medida afeta todas as regiões onde o chat é permitido, mas, no Brasil, não foi bem aceita.

As manifestações começaram em servidores populares como Brookhaven entre os dias 13 e 14 de janeiro. As crianças se reuniram para exibir placas e protestar contra o novo sistema de verificação de idade.

Como estavam com o chat de voz bloqueado e o texto restrito, improvisaram formas de comunicação visual: criaram cartazes com frases de protesto, construíram barricadas com objetos do jogo, incendiaram carros virtuais e organizaram “desfiles” com slogans.

As frases eram repetidas em massa por centenas de avatares e incluíam variações como “queremos o chat” e ataques diretos ao influenciador Felca. Os erros de digitação provavelmente foram intencionais, seguindo a lógica cômica usada por comunidades para gerar viralização e identificação.

Houve ocupação simultânea de diversos servidores, com ações sincronizadas.

Os jogadores combinavam horários para entrar em mundos virtuais e iniciar os atos. Em algumas partidas, os protestos travavam a movimentação normal dos jogos, interrompendo a rotina dos usuários que não participavam das manifestações.

Protesto no Roblox

Protesto no Roblox: crianças lutam contra proibição de chats para menores de 13 anos (Montagem/Exame)

As pessoas também se organizaram por fora da plataforma. Em grupos de WhatsApp e canais do Discord, combinaram rotas, comandos e frases a serem repetidas nos servidores. Alguns usaram o sistema de design de roupas da própria Roblox para vestir seus avatares com trajes de protesto.

A adesão foi massiva. Em menos de 48 horas, vídeos e capturas de tela circularam nas redes sociais com milhões de visualizações. O protesto digital virou assunto mais comentado em plataformas como TikTok, Instagram e X (antigo Twitter), transformando o episódio em um fenômeno de mídia. A estética dos protestos — infantil, barulhenta e desorganizada — foi interpretada por muitos adultos como caos. Mas, na prática, revelava uma capacidade rara de mobilização coletiva espontânea por parte de usuários com menos de 13 anos.

A organização, o volume de participantes e a criatividade nas estratégias deram à “Revolta do Roblox” um alcance que extrapolou o jogo e passou a influenciar o debate sobre governança de plataformas infantis.

Felca é alvo de ataques

Um nome recorrente nas placas foi o do influenciador Felca (Felipe Bressanim). O criador havia publicado vídeos sobre “adultização infantil” e os riscos de exposição precoce online. Mesmo sem ligação direta com a decisão da Roblox, ele foi apontado como responsável pelas restrições. Recebeu ameaças, ofensas e teve seu nome distorcido nas mensagens de protesto.

Para usar o chat, agora é preciso enviar uma selfie ou vídeo curto pelo aplicativo. A imagem é processada por inteligência artificial da empresa Persona, que estima a faixa etária e apaga o material em seguida. Não é possível burlar o sistema com maquiagem, filtros ou imagens manipuladas, segundo a empresa.

A tecnologia emprega sinais de prova de vida e detecção de deepfake, além de verificações contínuas: se o comportamento de um perfil não condiz com a idade informada, uma nova verificação é exigida.

Felca

Felca: influenciador virou alvo dos participantes do protesto na Roblox (YouTube/Reprodução)

A empresa afirmou à EXAME que está ciente das manifestações e reforçou que a mudança visa proteger os mais jovens. “Estamos exigindo que todos passem por uma verificação de idade para usar nossos recursos de chat, a fim de ajudar a manter a Roblox o mais segura possível para a imaginação, o jogo e a criatividade”, disse.

Pressão judicial e reputacional

A exigência de verificação facial é uma resposta direta à pressão legal enfrentada pela empresa. A Roblox acumula mais de 20 processos judiciais e é alvo de investigações sobre abusos e riscos para crianças. A nova política, de acordo com a companhia, tem como objetivo segmentar a comunicação por faixas etárias e impedir interações entre adultos e menores de 16 anos.

Usuários entre 13 e 17 anos podem usar o chat após verificação de idade. Abaixo disso, o acesso é restrito e exige consentimento dos pais. Nos primeiros testes, feitos em dezembro de 2025 na Austrália, Nova Zelândia e Holanda, mais de 50% dos usuários concluíram o processo.

A adoção global foi acompanhada por reclamações. Usuários relataram falsos negativos, ou seja, casos em que adolescentes foram identificados como crianças e perderam acesso. Outros apontaram que a medida compromete a socialização na plataforma, especialmente em países como o Brasil.

Segundo a empresa, mais de 151 milhões de usuários diários usavam a plataforma em 2025. No terceiro trimestre do mesmo ano, o tempo médio de uso foi de 2,8 horas por dia. O sistema de verificação é atualizado constantemente com testes de segurança, ajustes antifraude e auditorias próprias da equipe técnica da Roblox.

Roblox em Wall Street

A Roblox estreou na Bolsa de Valores de Nova York em março de 2021, por meio de uma listagem direta, com valor de mercado inicial de US$ 41,9 bilhões. Na época, a empresa foi apontada como um dos principais expoentes da economia dos jogos online e da criação de mundos virtuais.

Nos primeiros meses, as ações da empresa (RBLX) registraram forte valorização, impulsionadas pelo crescimento de usuários durante a pandemia e pela expectativa em torno do metaverso.

Mas, desde 2022, o papel passou por ciclos de queda, impactado por resultados trimestrais voláteis, aumento da concorrência e questionamentos sobre sustentabilidade financeira de longo prazo.

Entre 2023 e 2025, a Roblox enfrentou pressões adicionais com investigações sobre segurança infantil, processos judiciais e mudanças na política de moderação.

A nova exigência de verificação facial, implementada em 2026, foi interpretada por parte do mercado como tentativa de resposta regulatória, mas gerou resistência entre usuários e riscos reputacionais.

Roblox

Roblox: empresa tem passado por momentos complicados na bolsa (Montagem/Exame)

Apesar das dificuldades, a empresa segue entre as principais plataformas de jogos infantis no mundo. Analistas apontam que seu valor de mercado depende diretamente da capacidade de equilibrar crescimento com segurança e retenção de usuários jovens. Um desafio que ficou mais evidente após os protestos no Brasil.

É claro que não é possível afirmar se a revolta das crianças brasileiras tem relação com a queda da empresa em Wall Street, mas, na terça-feira, 21, a Roblox amargou uma queda de 9,7%. Às vezes, a brincadeira é de gente grande.

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