Tecnologia

Data centers no espaço: a aposta de US$ 800 bilhões que pode não funcionar

Gigantes de tecnologia apostam em data centers espaciais para sustentar a expansão da IA, mas desafios ainda limitam a viabilidade comercial da tecnologia

SpaceX: empresa fez IPO neste mês (CRISTOBAL HERRERA/EFE)

SpaceX: empresa fez IPO neste mês (CRISTOBAL HERRERA/EFE)

Publicado em 20 de junho de 2026 às 06h01.

A SpaceX quer construir data centers de inteligência artificial (IA) em órbita — e não está sozinha nessa aposta.

Mas, segundo dois professores de engenharia especializados em design de data centers e sistemas espaciais, em artigo publicado nesta semana no The Conversation, existe uma diferença enorme entre lançar satélites e operar, de fato, uma infraestrutura computacional em escala industrial no vácuo do espaço.

A lógica que atrai os investidores

A ideia é sedutora.

Lançar data centers em órbita, onde a energia solar é abundante e terra, água e redes elétricas locais deixam de ser fatores limitantes. Google, SpaceX, OpenAI e Salesforce já tratam publicamente centros de dados espaciais como possibilidade concreta para o futuro da inteligência artificial.

Parte do entusiasmo em torno da oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) recorde da SpaceX, segundo os autores do artigo, vem justamente da aposta dos investidores não só em foguetes, mas em um ecossistema orbital inteiro.

Segundo Edison Yu, analista do Deutsche Bank, o avanço da IA está pressionando os limites dos data centers terrestres em três frentes — energia, refrigeração e latência — e, no espaço, pelo menos os dois primeiros gargalos poderiam ser reduzidos.

O que um data center precisa para funcionar — na Terra e fora dela

Um data center não é apenas uma sala cheia de servidores.

Ele precisa de três coisas básicas: energia elétrica em grande quantidade, refrigeração (já que praticamente toda a eletricidade consumida pelos servidores se transforma em calor) e infraestrutura física, incluindo terreno, energia de backup, sistemas de água e redes de comunicação.

Na Terra, isso significa grandes instalações elétricas e térmicas construídas ao redor do hardware de computação.

No espaço, a lógica muda. A energia viria de painéis solares, já que o Sol nunca para de brilhar em órbita e não é bloqueado por nuvens, embora a Terra possa projetar sombra sobre os painéis durante parte da órbita, dependendo da trajetória.

Mesmo as melhores células solares disponíveis hoje convertem apenas cerca de metade da luz solar que recebem em eletricidade.

A vantagem do frio espacial — e o problema

A outra vantagem potencial está na refrigeração.

O fundo do espaço é extremamente frio (aproximadamente 270 graus Celsius negativos) o que, em tese, permitiria que o calor residual dos data centers escapasse por meio de radiadores, mantendo a eletrônica refrigerada sem a necessidade da infraestrutura pesada e intensiva em água usada na Terra.

Só que existe uma armadilha física nessa lógica. No vácuo, não há ar para carregar o calor para longe do equipamento, já que ele só pode escapar como radiação infravermelha, um processo relativamente lento.

Como resultado, remover 10 megawatts de calor residual pode exigir radiadores com área comparável a dois campos de futebol americano.

Um centro orbital de apenas 1 megawatt já exigiria cerca de 980 metros quadrados de área radiadora. Para comparação, data centers terrestres hoje operam entre 100 e mil megawatts de capacidade.

Os obstáculos que a empolgação dos CEOs costuma deixar de fora

Há ainda o problema da manutenção. Servidores não duram para sempre, e operadores terrestres costumam substituir ou atualizar o hardware a cada três a cinco anos, a depender de como os chips evoluem e as cargas de trabalho mudam.

Na Terra, esse processo é relativamente simples e um técnico remove e substitui o servidor. No espaço, isso se torna extremamente mais difícil e caro.

Se a plataforma de computação não puder ser atualizada, ou se muitos componentes falharem, ela pode se tornar obsoleta muito antes da infraestrutura ao redor dela atingir o fim de sua vida útil, um problema sério em um campo no qual o desempenho dos chips melhora rapidamente e a demanda por computação só aumenta.

Soma-se a isso a dureza do próprio ambiente espacial. Radiação constante danificando a eletrônica, variações extremas de temperatura conforme o equipamento entra e sai da sombra da Terra várias vezes ao dia, e o risco de colisão com detritos orbitais e micrometeoritos, que pode destruir a estrutura e, pior, gerar ainda mais lixo espacial.

A órbita baixa já abriga cerca de 10 mil satélites ativos e aproximadamente 10 mil toneladas de detritos, segundo levantamentos do setor, um tráfego que só deve aumentar se a indústria avançar com os planos atuais.

O satélite que a SpaceX já projetou — e suas limitações

Apesar de todos os desafios, a SpaceX já avançou e a empresa anunciou o design do satélite de computação "AI1 Compute Satellite", que pretende usar como espaçonave de data center orbital.

Segundo os autores do artigo, porém, esse satélite tem capacidade de 100 a 1.000 vezes menor do que os data centers terrestres atuais, uma diferença de escala enorme que ilustra o quão distante ainda está a viabilidade comercial em massa.

Nem toda tarefa de computação faz sentido no espaço.

Muitas aplicações de data center dependem de respostas rápidas e conexões próximas com usuários na Terra — transações financeiras, serviços de IA interativos e a maioria das aplicações em nuvem são extremamente sensíveis a atrasos de latência. Estudos apontam uma latência adicional de 10 a 20 milissegundos só pela distância orbital — pequena, mas relevante para certos usos.

As aplicações mais viáveis no curto prazo, segundo os pesquisadores, são justamente as menos sensíveis a esse atraso e mais conectadas a operações que já acontecem no próprio espaço: processamento de dados de observação da Terra vindos de outros satélites, dados militares ou de inteligência, computação científica ligada a missões espaciais, ou processamento especializado para outros ativos espaciais.

Em outras palavras: os primeiros data centers orbitais viáveis provavelmente vão atender clientes que já operam no espaço, antes de algum dia competirem com a computação em nuvem tradicional da Terra.

Uma corrida que já tem disputa internacional

A SpaceX não está sozinha nessa frente. O Google conduz pesquisa própria através do Project Suncatcher, que busca conectar satélites movidos a energia solar equipados com TPUs numa "nuvem orbital de IA", com protótipo inicial previsto para 2027 em parceria com a Planet Labs.

A China também já anunciou planos para lançar data centers de IA no espaço nos próximos cinco anos, com sua principal contratada espacial prometendo infraestrutura em escala de gigawatts, segundo a mídia estatal chinesa.

O mercado de data centers espaciais deve atingir entre US$ 11,3 bilhões até 2030 e até US$ 41 bilhões até 2035, segundo estimativas da Research and Market — números que ajudam a explicar por que tantas big techs estão dispostas a investir em algo que, segundo a própria ciência por trás do projeto, ainda enfrenta obstáculos físicos fundamentais antes de se tornar realidade em escala relevante.

Acompanhe tudo sobre:SpaceXData center

Mais de Tecnologia

Por que o iPhone é tão caro — e por que pode ficar ainda mais

Como fazer backup do celular sem precisar pagar? Conheça alternativas ao iCloud e Google One

Android 17: quais as novidades e capacidades do novo sistema operacional

Como blindar seus arquivos antes de entregar o celular a um atendente ou técnico