(Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 2 de julho de 2026 às 12h41.
Todo jogo de futebol chega à sua tela com atraso. A diferença é de quanto. Na TV aberta, esse intervalo entre o lance no gramado e a imagem no aparelho fica em poucos segundos; no streaming, pode passar de meio minuto. Esse atraso tem nome técnico — latência — e existe porque o sinal precisa percorrer uma cadeia de etapas antes de chegar ao espectador, e cada etapa cobra seu preço em frações de segundo.
A razão do streaming ser sempre mais lento está no número de paradas nesse caminho. Quanto mais longo o percurso do sinal, maior o atraso — e a internet tem um trajeto bem mais cheio de escalas do que a radiofrequência da antena.
Na TV aberta via antena digital, o percurso é direto.
O sinal é captado, codificado e transmitido por radiofrequência até a antena doméstica, onde é decodificado no próprio televisor.
Por isso, o atraso costuma ficar entre 3 e 5 segundos — quase imperceptível para o espectador.
Nas outras formas de transmissão tradicional, o tempo sobe conforme o caminho se alonga. Na TV por assinatura via cabo, a latência fica na faixa de 5 a 8 segundos. Via satélite, em que o sinal sobe a um satélite e volta, pode chegar a cerca de 10 segundos.
No streaming, a cadeia é bem maior. A plataforma precisa capturar o sinal original, recodificá-lo em um formato compatível com a internet, cortá-lo em pequenos pacotes de dados, distribuí-lo por servidores espalhados pelo mundo — as chamadas redes de distribuição de conteúdo (CDN) — e, só então, decodificá-lo no aparelho do usuário.
Cada uma dessas etapas soma tempo. O resultado é que o atraso padrão do streaming fica entre 15 e 25 segundos, mas pode ultrapassar 30 segundos em conexões instáveis ou durante picos de audiência. Há ainda um agravante do lado de quem assiste: o tipo de conexão e o aparelho influenciam. Uma rede Wi-Fi congestionada, com vários dispositivos conectados, aumenta o atraso.
Existe uma razão para o streaming manter parte desse atraso de propósito.
As plataformas carregam alguns segundos de vídeo à frente, um colchão de segurança chamado buffer, que evita que a imagem trave quando a internet oscila. O espectador assiste no meio desse colchão — o que garante estabilidade, mas custa tempo.
Delay: atraso na transmissão tem explicação (Imagem gerada por IA/Exame)
É por isso que reduzir a latência é sempre um equilíbrio delicado: cortar o buffer aproxima o espectador do tempo real, mas aumenta o risco de travamentos, que incomodam ainda mais do que o próprio atraso.
As plataformas correm para encurtar esse caminho. Existem protocolos de baixa latência — como o LL-HLS — que diminuem o tamanho dos pacotes de vídeo e reduzem o atraso do streaming para a faixa de 2 a 4 segundos, aproximando-o da TV aberta.
A Globo investiu nessa tecnologia para o Globoplay na Copa.
A principal mudança foi cortar o caminho do sinal: em vez de passar pelas afiliadas regionais, a transmissão passou a sair direto da sede, no Rio de Janeiro, o que eliminou cerca de 13 segundos de atraso.
A meta da emissora é que o streaming fique, no máximo, 2 segundos atrás da TV aberta durante os jogos — um sinal de que, no fim, a distância entre os dois mundos é só uma questão de encurtar o percurso.