Tecnologia

Com troca de controle, CEO do Inner Circle vê nova chance para enfrentar crise dos apps de namoro

Em entrevista exclusiva à EXAME, David Vermeulen, CEO e cofundador da plataforma recém-adquirida pelo Hello Group, afirma que usuários buscam qualidade em vez de quantidade e que o Brasil é o principal mercado do app

Aplicativos baseados em perfis infinitos enfrentam o cansaço de parte dos usuários, segundo o CEO do Inner Circle (Divulgação)

Aplicativos baseados em perfis infinitos enfrentam o cansaço de parte dos usuários, segundo o CEO do Inner Circle (Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 4 de novembro de 2026 às 16h41.

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O Hello Group, grupo chinês dono do Tantan e do Happn, comprou nesta segunda-feira, 2, o controle do Inner Circle, app de namoro holandês com quase 9 milhões de membros que aproxima pessoas por interesses em comum. O valor não foi divulgado. A compra chega num momento de ressaca do setor: em 2025, a receita global dos apps de relacionamento caiu pela primeira vez, puxada por Tinder e Bumble, enquanto Hinge e apps de nicho cresceram. Em entrevista à EXAME, o CEO David Vermeulen diz que nada muda para os usuários e que o Brasil, principal mercado da empresa nas Américas, deve receber mais eventos presenciais.


O Hello Group, grupo chinês listado na Nasdaq e dono de apps como Happn e Tantan, comprou na segunda-feira, 2, o controle do Inner Circle, aplicativo de relacionamento holandês construído sobre uma premissa pouco romântica: os opostos não se atraem. Em vez de oferecer perfis sem fim para deslizar na tela, o app aproxima pessoas por interesses, hábitos e lugares que frequentam.

Criado em Amsterdã em 2012, o Inner Circle tem quase 9 milhões de membros e, segundo a empresa, opera em mais de 200 cidades, com a base concentrada na Europa e na América Latina. O valor do negócio e o tamanho exato da participação não foram divulgados. A marca e a sede em Amsterdã continuam as mesmas.

Para ficar no tema dos relacionamentos, a compra chega em momento, digamos, de pouco amor. Em 2025, a receita global dos aplicativos de namoro caiu pela primeira vez, e os maiores nomes do "swipe", como Tinder e Bumble, perderam dinheiro e assinantes. Quem cresce são os apps que prometem menos volume e mais afinidade, exatamente o nicho em que o Inner Circle joga.

Em entrevista exclusiva à EXAME, David Vermeulen, holandês que cofundou o Inner Circle e ainda comanda a empresa, afirmou que a troca de controle não deve alterar a rotina do app. "O objetivo é que continuemos operando exatamente como já fazemos. Para os usuários, não haverá nenhuma mudança", disse.

O Brasil tem papel central nessa conta. "O Brasil é o nosso principal mercado nas Américas e vem crescendo ano após ano", afirmou o executivo.

Por que o Hello Group dá match com o Inner Circle

Para o Hello Group, antigo Momo e um dos maiores grupos de redes sociais e namoro da China, o Inner Circle é mais uma peça de uma estratégia para crescer fora de casa. No segundo trimestre de 2026, a receita total da companhia caiu 5,1%, para US$ 366,4 milhões. A receita internacional, por outro lado, subiu 52%, para US$ 99,1 milhões, e já responde por cerca de um quarto do faturamento.

No mercado doméstico, o sinal é de desgaste. O Tantan, app de namoro chinês do grupo, encerrou o trimestre com 500 mil assinantes pagantes, ante 700 mil um ano antes.

Lá fora, o Hello Group vem montando uma coleção de apps de nicho, cada um com uma forma diferente de aproximar pessoas.

Em setembro de 2025, o grupo comprou o Happn, app francês que conecta quem cruzou o mesmo caminho na rua e que tem no Brasil um de seus mercados mais fortes. O portfólio inclui ainda o americano Coffee Meets Bagel.


Tang Yan, presidente do conselho e CEO do Hello Group, disse que plataformas voltadas às características de suas comunidades devem puxar a próxima etapa do setor. "Vemos um potencial considerável para aproveitar essa base, combinando a força da marca do Inner Circle com a tecnologia, a expertise operacional e a experiência do Hello Group na expansão de plataformas sociais para acelerar seu crescimento internacional", afirmou.

Vermeulen justifica a venda pelo conhecimento que o novo controlador pode agregar. "Durante 15 anos, operamos como um aplicativo de relacionamento independente. Acreditamos que o Hello Group traz um vasto conhecimento que nos ajudará a aprimorar o Inner Circle."

Sobre o Happn, o executivo diz que a experiência sob o novo dono tem sido bem avaliada. "Temos ouvido relatos muito positivos. Há muito aprendizado compartilhado."

O cansaço do swipe

Os aplicativos de namoro viraram, na última década, a principal porta de entrada para encontros. Os números, porém, mostram um mercado que parou de crescer. Segundo a Business of Apps, consultoria de dados sobre o mercado de aplicativos, a receita global do setor ficou em cerca de US$ 6 bilhões em 2025, queda de quase 2% em relação ao ano anterior. Foi a primeira retração anual da série.

Em 2025, a receita dos apps de namoro caiu pela primeira vez. Tinder e Bumble encolheram; Hinge e apps de nicho cresceram.

A perda se concentrou nos líderes do swipe. O Tinder, carro-chefe do Match Group, faturou 5,2% menos; o Bumble, 9,5% menos. Na direção oposta, o Hinge, app do mesmo Match Group que se vende como "feito para ser deletado", cresceu cerca de 25%. Apps de nicho como Grindr, Pure e Feeld também avançaram.

O balanço mais recente do Match Group, divulgado também nesta segunda-feira, 2, repete o desenho. No terceiro trimestre de 2026, a receita total caiu 3%, para US$ 891 milhões, e a do Tinder recuou 2%, para US$ 480 milhões. O Hinge faturou US$ 220,6 milhões, alta de 19%. O Tinder comemorou um respiro: em setembro, o número de usuários diários voltou a crescer na comparação anual pela primeira vez em três anos e meio.

O Bumble, fundado por Whitney Wolfe Herd, vive uma situação mais delicada. Em junho de 2025, demitiu cerca de 30% da equipe, ou 240 pessoas, e passou a apostar em inteligência artificial para ir além do swipe. No segundo trimestre de 2026, a receita caiu 15%, para US$ 210,5 milhões, e o número de assinantes pagantes recuou 16%, para 3,2 milhões.

Parte da explicação está na experiência de quem usa. Uma pesquisa do Pew Research Center, instituto americano de pesquisas sobre comportamento, divulgada em 2023, mostrou que 56% das americanas com menos de 50 anos que já usaram apps de namoro receberam mensagens ou imagens de teor sexual sem pedir. No mesmo grupo, 43% relataram que alguém continuou a procurá-las mesmo depois de dizerem que não tinham interesse.

O desgaste também é emocional. Em levantamento da OnePoll para a Forbes Health, feito em 2024 com mil usuários americanos, 78% disseram se sentir exaustos com os apps ao menos de vez em quando. Entre os jovens da geração Z, a fatia foi de 79%; entre os millennials, de 80%.

Vermeulen atribui o problema menos ao usuário e mais ao desenho dos apps. "Na maioria desses aplicativos, a dinâmica se resume a deslizar a tela incessantemente e ver uma infinidade de perfis. O foco acaba sendo a quantidade, e não a qualidade. Além disso, as plataformas tentam manter os usuários conectados pelo maior tempo possível", disse. "Ao longo dos anos, as pessoas perceberam que essa não é a melhor maneira de conhecer alguém de verdade."

Para o executivo, o desejo de encontrar alguém continua o mesmo. "A maioria dos solteiros continua buscando um relacionamento sério. O que muda é a forma como você encontra essas pessoas. Os aplicativos podem contribuir muito, mas tudo depende do que eles oferecem e de como fazem isso."

Do círculo de salsa ao clube de corrida

A resposta do Inner Circle é ir na contramão: perfis mais completos e comunidades temáticas, os "círculos". Há, por exemplo, um "círculo de salsa", em que os usuários combinam de ir juntos a eventos.

"Não se trata apenas de dizer 'gosto de música', mas de ir mais a fundo: 'gosto de música ao vivo, de salsa, e estes são os lugares que frequento'", exemplificou Vermeulen. "É uma forma de interação que vai muito além de ver um perfil e clicar em 'sim' ou 'não'. Acreditamos, de fato, que esse é o futuro dos relacionamentos."

A tese conversa com um movimento que vai além dos apps de namoro. Segundo o relatório anual do Strava, rede social de corredores e ciclistas, o número de clubes de corrida na plataforma cresceu 3,5 vezes em 2025. Na pesquisa que acompanha o relatório, com mais de 30 mil pessoas, os jovens da geração Z se mostraram 39% mais propensos que os da geração X a usar o exercício físico para conhecer gente com interesses parecidos.

Até o Tinder tem corrido nessa direção, com recursos para marcar encontros em dupla com amigos e para divulgar eventos presenciais. "Hoje, percebemos que essa proposta tem ganhado cada vez mais força", afirma Vermeulen.

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Quando o app funciona, o cliente vai embora

Os aplicativos de relacionamento carregam um dilema de origem: quem encontra um parceiro tende a sair da plataforma. O Hinge transformou esse paradoxo em parâmetro de sucesso.

À primeira vista, parece um tiro no pé. Vermeulen, porém, enxerga o fenômeno da mesma forma. "Vemos que muitas pessoas estão deixando o aplicativo justamente porque encontraram alguém por meio dele. Mesmo que pareça estranho, encaramos isso como uma vitória."

Para o CEO, esses ex-usuários viram os "melhores embaixadores da marca", ao contar aos amigos como se conheceram e o que tinham em comum.

Há ainda quem fique pela comunidade, e não necessariamente em busca de encontros. Um dos usos, segundo o executivo, é pedir aos outros membros recomendações de passeios e restaurantes em viagens.

"No fim de semana passado, viajei para Istambul, na Turquia, e consultei o aplicativo para ver quais eram os restaurantes mais populares. Não é exatamente uma forma de encontrar alguém pessoalmente, mas é uma maneira como as pessoas estão usando o app. Esse aspecto de comunidade voltada a um estilo de vida é, para nós, uma forma eficaz de reter os membros", disse.

Como o Inner Circle ganha dinheiro

O Inner Circle tem versões gratuita e paga. Entre os recursos pagos está a busca em outras cidades. "Se a pessoa mora em São Paulo e viaja para Belo Horizonte, ela pode ver quem, por lá, talvez queira tomar um café, ou conferir os eventos que estamos organizando", explicou Vermeulen.

O app também cobra por eventos presenciais, como grupos de corrida, encontros para um drinque e degustações de vinho, embora essa frente ainda não dê lucro. "Os eventos são um benefício extra que oferecemos aos nossos membros. Em alguns casos, cobramos uma taxa para ajudar a cobrir os custos, que podem ser elevados. Mas o propósito principal é promover o encontro das pessoas na vida real."

Segundo o executivo, boa parte do custo da operação vem da estrutura de segurança: além das verificações técnicas, uma equipe analisa os perfis e faz o atendimento aos usuários. É esse gasto, diz ele, que justifica a cobrança.

"Há muita gente trabalhando por trás deste aplicativo de relacionamento. E, considerando nossas ambições, precisamos cobrar pelo serviço, assim como fazem muitos outros aplicativos."

Novas fontes de receita estão em teste. Na Europa, o Inner Circle negocia parcerias com bares interessados em patrocinar eventos, já que a plataforma leva público a esses lugares. "Estamos em conversa com vários donos de estabelecimentos, e eles têm se mostrado dispostos a nos pagar por isso. Dessa forma, geramos receita não apenas com os membros, mas também com parcerias", afirmou.

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Os planos para o Brasil

Não há dado oficial sobre quantos brasileiros estão cadastrados em apps de relacionamento. Uma pesquisa da Mobile Time com a Opinion Box, feita em março de 2025 com 2.019 brasileiros que têm smartphone, dá a dimensão do hábito.

No Brasil, 23% de quem tem smartphone já teve um encontro com alguém que conheceu num app de relacionamento.

A fatia chega a 29% entre os jovens de 16 a 29 anos, cai para 25% na faixa de 30 a 49 e fica em 14% entre quem tem 50 anos ou mais. O Tinder domina com folga: 43% dos que já tiveram um encontro dizem ter usado o app, contra 5% do Badoo e 3% do Bumble. Outros 28% não lembram em qual aplicativo conheceram a pessoa.

É nesse mercado concentrado que o Inner Circle quer crescer, agora sob o mesmo dono do Happn. Vermeulen se diz otimista. "Já observamos crescimento no Brasil e seguimos nessa direção. Agora que as pessoas podem comparar nossa proposta com a de outros aplicativos, percebem cada vez mais que o Inner Circle é a melhor escolha."

O plano é ampliar a presença física no país. "Em um país imenso e belíssimo, repleto de cidades, ainda existem muitos lugares onde queremos atuar, promovendo eventos e explorando o potencial do Inner Circle", disse. A empresa não detalhou quais cidades estão na lista nem quando os novos eventos devem começar.

"Embora sejamos vistos como um aplicativo de relacionamento online, acredito que podemos ser muito mais do que isso. Nossa ambição é conectar essas pessoas não apenas por meio de um aplicativo, mas também por meio de comunidades baseadas em um estilo de vida compartilhado", afirmou.

A compra reforça um movimento que já aparece nos balanços do setor: o dinheiro tem migrado do swipe em massa para apps de nicho e para encontros fora da tela. É nessa direção que o Hello Group decidiu apostar.


Perguntas frequentes

O que é o Inner Circle? +

O Inner Circle é um aplicativo de relacionamento criado em Amsterdã, na Holanda, em 2012. Ele aproxima pessoas por interesses, hábitos e lugares em comum, com perfis mais completos, comunidades temáticas chamadas de "círculos" e eventos presenciais. Tem quase 9 milhões de membros, a maioria na Europa e na América Latina.

Quem comprou o Inner Circle? +

O Hello Group, grupo chinês listado na Nasdaq e dono de apps como Tantan, Happn e Coffee Meets Bagel, comprou o controle do Inner Circle em 2 de novembro de 2026. O valor do negócio e o tamanho exato da participação não foram divulgados.

O que muda para os usuários do Inner Circle? +

Segundo o CEO e cofundador David Vermeulen, nada muda para os usuários. O app mantém a marca e a sede em Amsterdã, e o Hello Group deve contribuir com tecnologia, desenvolvimento de produto e operações.

O Inner Circle é gratuito? +

O app tem uma versão gratuita e outra paga. Entre os recursos pagos está a busca por pessoas e eventos em outras cidades. Alguns eventos presenciais também cobram uma taxa para cobrir custos.

O Inner Circle funciona no Brasil? +

Sim. O Brasil é o principal mercado do Inner Circle nas Américas, segundo o CEO da empresa, que planeja levar eventos presenciais a mais cidades do país. A empresa não informou quais cidades nem o cronograma.

Os aplicativos de namoro estão perdendo usuários? +

Os apps baseados em swipe estão. Em 2025, a receita global do setor caiu pela primeira vez, cerca de 2%, segundo a Business of Apps, com queda de 5,2% no Tinder e de 9,5% no Bumble. No mesmo período, o Hinge e apps de nicho como Pure e Feeld cresceram.

Por que as pessoas estão cansadas dos apps de namoro? +

Pesquisas apontam excesso de perfis, mensagens indesejadas e desgaste emocional. Em levantamento da OnePoll para a Forbes Health, 78% dos usuários americanos disseram se sentir exaustos com os apps ao menos de vez em quando. Segundo o Pew Research Center, 56% das americanas com menos de 50 anos que usaram esses apps receberam conteúdo sexual sem pedir.

Quantos brasileiros já tiveram encontros por aplicativo? +

Segundo pesquisa da Mobile Time com a Opinion Box feita em março de 2025, 23% dos brasileiros com smartphone já tiveram um encontro com alguém que conheceram num app de relacionamento. Entre os jovens de 16 a 29 anos, a fatia sobe para 29%. O Tinder é o app mais citado.

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