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Dia dos Namorados: por que o Bumble trocou o swipe pela IA?

Entenda por que encontrar alguém ficou mais fácil e como isso reflete as mudanças nos aplicativos de namoro

Aplicativos de namoro adotam inteligência artificial para combater a exaustão afetiva dos usuários (Reprodução/Reprodução)

Aplicativos de namoro adotam inteligência artificial para combater a exaustão afetiva dos usuários (Reprodução/Reprodução)

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Publicado em 9 de junho de 2026 às 17h00.

Por Danielle Vieira*

Recentemente, o Bumble, um dos aplicativos de namoro mais famosos do mundo, anunciou que está mudando a forma de interação entre os usuários.

Whitney Wolfe Herd, CEO da rede social de relacionamentos, divulgou que haverá uma saída gradual do deslizar entre perfis, para uma aposta em inteligência artificial que usará os dados do usuário para sugerir combinações mais compatíveis.

O aplicativo, que ajudou a consolidar a lógica do swipe (deslizar algo), parece agora, reconhecer que esse modelo já não responde ao cansaço afetivo de uma geração marcada pelo excesso de escolhas e pela dificuldade de sustentar vínculos.

Nunca tivemos tantos recursos para encontrar potenciais parceiros, mas talvez jamais tenhamos sido tão pouco preparados para sustentar a intimidade.

A abundância de possibilidades nos levou para um labirinto emocional: buscamos sempre razões para desistir do outro, mas raramente para permanecer.

O sistema de deslizar e ir para o próximo na velocidade de um toque não só produz ansiedade, impaciência e comparações exacerbadas, como também sustenta a sensação permanente de que pode sempre haver alguém melhor a poucos cliques de distância, gerando exaustão afetiva e uma certa apatia relacional.

A diferença entre compatibilidade e vínculo real

O novo modelo de matches construídos pela IA traz uma promessa diferente: menos incompatibilidade, mais eficiência. Será que é possível encaixar o amor na lógica da eficiência?

Existe uma grande diferença entre encontrar alguém compatível e construir um vínculo maduro.

Um relacionamento não se sustenta apenas na compatibilidade de gostos e objetivos, mas sim no encontro real que necessariamente vai passar por desencaixes, pedir mais tempo e paciência afetiva.

No amor moderno somos treinados a evitar em vez de conectar, interpretamos qualquer atrito como incompatibilidade e qualquer desconforto como motivo para buscar o próximo match, vivendo relações mais no campo do ideal do que na realidade.

Um vínculo maduro, entretanto, é construído após a excitação inicial, aquela fase de idealização e paixão; quando somos capazes de enxergar o outro com seu pacote completo de coisas boas e ruins, e principalmente na capacidade de tolerar a frustração de que o outro não vai se encaixar no nosso ideal.

As raízes da cultura do desapego

O que parece um fenômeno social tem raízes psicológicas mais profundas: a forma como nos relacionamos hoje não reflete apenas a lógica dos aplicativos, mas também como aprendemos, desde cedo, a lidar com afeto, presença e rejeição.

Sustentar vínculos depende da disposição de enfrentar a própria vulnerabilidade e superar o medo de depender, reconhecendo essa necessidade como parte do humano.

A tecnologia pode nos aproximar do amor, mas de forma alguma fazer por nós o trabalho que vem depois.

Em um mundo onde a cultura do desapego parece ter ganhado força, e os aplicativos foram desenhados para que possamos "colecionar" pessoas, o trabalho mais difícil talvez seja justamente o de sustentar a escolha por uma só.

*Danielle Vieira é psicóloga e psicanalista clínica, pesquisadora dos afetos e das relações contemporâneas, mestre pela UMinho (PT), fundadora do IIPB e autora do livro "Amor moderno: o nosso mundo evitativo" (Editora Labrador).

 

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