Santiago Peña: em meio a crise bancária, o presidente paraguaio renuncia (Federico PARRA / AFP)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 5 de novembro de 2026 às 13h26.
Última atualização em 5 de novembro de 2026 às 16h54.
Um escândalo bancário no Paraguai levou à renúncia do presidente Santiago Peña. A crise envolve o Banco Ueno, que enfrentou falha de capital e foi colocado sob controle do Banco Central. O caso gerou acusações de impeachment e conflito de interesses contra o governo.
O presidente do Paraguai, Santiango Peña, renunciou seu cargo nesta quinta-feira, 5. O mandatário, que assumiu o cargo em 2023 para um mandato até 2028, enfrenta uma crise bancária, associada ao Banco Ueno. O Congresso do país já analisava seu impeachment.
"Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis de minha vida", afirmou Peña em vídeo publicado na rede social X. "Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. O faço pensando na estabilidade de nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas."
Sobre a crise bancária no país, o conservador do Partido Colorado afirmou: "Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento falhei. Nunca foi minha intenção fraudar a confiança que depositaram em mim."
A instabilidade começou após o banco digital Ueno fechar as portas. A crise se agravou nesta quarta-feira, 4, depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no Ueno Bank por insuficiência de capital. Com isso, os serviços da instituição foram suspensos.
Quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios tem conta no banco. O escândalo levou à renúncia do presidente do BCP, Carlos Carvallo.
"Hoje minha prioridade é apenas uma: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas poupanças ao nosso sistema financeiro. Por trás de cada depósito há anos de esforço, sacrifício e projetos familiares. Meu maior desejo é que se garanta a devolução desses recursos", disse Penã.
Mensaje del Presidente de la República, Santiago Peña, al pueblo paraguayo. https://t.co/RBz6IfFV9L
— Santiago Peña (@SantiPenap) November 5, 2026
O mandatário é o segundo presidente paraguaio a renunciar desde a redemocratização do país, na década de 1990. Seu correligionário Raul Cubas Grau também abriu mão da chefia do Executivo em 1999, após sete meses de instabilidades políticas graves que envolveram o assassinato de seu vice-presidente, Luis Maria Argaña.
Deputados da oposição apresentaram ao Congresso do Paraguaium pedido de impeachment contra o presidente do país e seu vice, em razão da crise que envolve um dos maiores bancos paraguaios e que levou ao congelamento dos depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas.
A Câmara dos Deputados discutia nesta quinta-feira o impeachment do mandatário, acusando-o de "por mau desempenho de suas funções no exercício do cargo".
Entre as acusações contra Peña está a de "conflito de interesses", além de questionamentos sobre o aumento do seu patrimônio. O presidente de fato possuía ações de um grupo que controlava o Ueno Bank, das quais se desvinculou em 2025.
A oposição acusa Peña de tomar "decisões regulatórias supostamente favoráveis ao Ueno Bank" e de concentrar recursos previdenciários na instituição, em meio a um possível conflito de interesses decorrente de seus vínculos passados com o banco.
O Partido Colorado, governante, tem maioria própria nas duas câmaras do Congresso, mas seu presidente, o ex-chefe de Estado Horacio Cartes, distanciou-se do governo.
O Ueno Bank, instituição financeira que chegou a reunir quase três milhões de clientes no Paraguai, entrou em processo de resolução nesta segunda-feira, 2, após a autoridade monetária do país identificar insuficiência de capital, ou seja, seu índice de solvência estava abaixo da metade do mínimo exigido por lei.
Sem capital suficiente para absorver prejuízos, o banco passou ao controle do regulador, que busca proteger os depositantes. O caso tem sido comparado ao do Banco Master no Brasil.
A crise atingiu depositantes, expôs cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos administrados pelo banco e provocou a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo.
Em 3 de novembro, o BCP anunciou o início do procedimento de resolução do Ueno, decidido no dia anterior, após identificar um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido pela regulamentação.
Em comunicado oficial sobre a resolução do Ueno Bank, o regulador informou que a medida foi tomada após ajustes nos demonstrativos financeiros da instituição.
A resolução é um regime especial previsto na legislação paraguaia para instituições financeiras em situação de insolvência. Nesse procedimento, o Banco Central assume o controle do banco para reorganizar seus ativos e passivos, que podem ser transferidos a outras instituições, e liquidar o restante, com o objetivo de proteger os depositantes e evitar que os problemas contaminem o sistema financeiro.
O BCP também relatou a identificação de empréstimos a empresas relacionadas ao grupo controlador. Segundo a autoridade, o banco havia sido notificado em 5 de junho para adequar essas operações aos limites legais. Oito pessoas ligadas ao banco foram detidas nas investigações.
Antes da resolução, o Ueno negava a existência de irregularidades comprovadas e afirmava que colaboraria com as investigações.
Glossário
O que é Banco Ueno?
Instituição financeira paraguaia que enfrentou falha de capital e foi colocada sob controle do Banco Central, afetando quase metade da população do país.
O que significa impeachment?
Processo político pelo qual um líder é acusado de crimes graves e removido do cargo pelo legislativo.
O que é Partido Colorado?
Partido político governista do Paraguai, que tem maioria no Congresso mas enfrentou distâncias internas durante a crise.
O que é Congresso do Paraguai?
Poder legislativo do Paraguai, responsável por analisar pedidos de impeachment e supervisionar o governo.
O que quer dizer Banco Master?
Banco brasileiro que enfrentou crise financeira similar, usado como comparação para a situação do Banco Ueno.