Tecnologia

Alemanha admite ter perdido para a China no setor automotivo

Durante o Salão do Automóvel de Pequim, a presidente do VDA afirma que domínio histórico das montadoras alemãs no maior mercado automotivo do mundo já não pode mais servir como referência

Hildegard Mueller: presidente do VDA, associação que representa o lobby automotivo da Alemanha (Getty Images)

Hildegard Mueller: presidente do VDA, associação que representa o lobby automotivo da Alemanha (Getty Images)

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 28 de abril de 2026 às 16h26.

A indústria automobilística alemã reconheceu publicamente que sua posição dominante no mercado chinês está enfraquecendo. Durante o Salão do Automóvel de Pequim, a presidente do VDA, associação que representa o lobby automotivo da Alemanha, Hildegard Mueller, afirmou que a concorrência no país atingiu um novo patamar e que as marcas locais terão papel cada vez maior no setor.

"A competição no mercado chinês é a mais intensa do mundo", declarou Mueller durante o Auto China 2026. Segundo ela, o patriotismo do consumidor chinês e a rápida evolução tecnológica das fabricantes locais mudaram estruturalmente o ambiente de negócios para grupos como Mercedes-Benz, BMW e Volkswagen.

O reconhecimento ocorre em um momento simbólico: o Auto China 2026 reuniu 1.451 veículos e 181 estreias mundiais em uma área recorde de 380 mil metros quadrados, consolidando o evento como o maior salão automotivo do mundo.

Marcas chinesas como Geely e NIO apresentaram modelos premium com mais tecnologia e preços inferiores aos praticados por rivais alemãs tradicionais, especialmente no segmento de luxo, onde os alemães historicamente concentraram sua força.

Mueller também apontou que o enfraquecimento da economia chinesa, com desemprego elevado e consumidores mais cautelosos, afeta diretamente o segmento de alto padrão. Isso pressiona justamente a faixa de mercado mais importante para Mercedes-Benz e BMW.

Apesar disso, ela afirmou que a China continua oferecendo maior potencial de crescimento do que Europa e Estados Unidos, o que mantém o país como prioridade estratégica para as montadoras alemãs.

Os dados reforçam essa mudança. Segundo a Automobility, as marcas locais já respondiam por cerca de 68% do mercado de veículos de passeio na China no início de 2026, enquanto as remessas de fabricantes alemãs caíram 16,8% entre janeiro e fevereiro.

Executiva trata perda de participação como mudança estrutural

Mueller reconheceu que a forte participação histórica da Alemanha no mercado chinês não pode mais ser usada como parâmetro de sucesso. A leitura do setor é que não se trata de uma oscilação temporária, mas de uma transformação mais profunda na indústria.

Com avanço em software, baterias e velocidade de desenvolvimento, empresas como XPeng e Xiaomi passaram a competir diretamente com marcas tradicionais também no segmento premium, tornando a disputa menos dependente da reputação histórica das montadoras europeias.

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