Revista Exame

'Vivemos a era do populismo permanente', diz Steven Levitsky

Em um cenário de revolta dos eleitores com as condições de vida, candidatos que prometem combater o sistema seguem ganhando força, o que traz riscos à democracia, avalia Steven Levitksy, autor do incensado Como as Democracias Morrem

Steven Levitksy: autor do incensado Como as Democracias Morrem (Arquivo pessoal/Divulgação)

Steven Levitksy: autor do incensado Como as Democracias Morrem (Arquivo pessoal/Divulgação)

Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.

As eleições recentes no Peru e na Colômbia mostraram que uma tendência segue forte: a vitória de candidatos que prometem saídas simples, e radicais, para problemas complexos. Para Steven Levitsky, professor de Harvard, diretor do David Rockefeller Center for Latin American Studies e coautor do best-seller Como as Democracias Morrem, esses casos mostram que o mundo vive uma “era populista permanente”, na qual as redes sociais corroeram o poder das elites e tornaram mais fácil a ascensão desses candidatos. “Com a estratégia certa, hoje qualquer um pode ser presidente”, diz.

Apesar disso, Levitsky não vê uma crise global da democracia e cita o Brasil como exemplo de resiliência. Em entrevista à EXAME, ele critica ainda as ações do presidente Donald Trump e elogia a postura do Brasil. “O governo brasileiro, para seu grande crédito, não recuou apesar das sanções e tarifas. Não acho que Trump tenha compreendido com quem se meteu no Brasil: o país não é Honduras.”


O senhor vê uma onda atual de populismo global. Há perspectiva de que ela termine?

As instituições políticas, como os partidos, empresas e sindicatos, jamais terão de novo o poder ou a influência que tinham no século 20. As elites estão enfraquecidas pelas mídias sociais, e entramos em uma espécie de era populista permanente. Isso é bom e ruim: é uma era mais democrática, mas instável. Vivemos em um mundo em que qualquer pessoa, com a estratégia certa nas redes sociais, pode ser eleita presidente. Ainda não se sabe se as pessoas se cansarão de ser governadas por amadores raivosos e meio malucos. Se esses caras governarem mal, talvez as sociedades voltem a eleger pessoas mais experientes. Bolsonaro governou mal, assim como Trump em seu primeiro mandato. Milei tem sucesso moderado, e Bukele, enorme sucesso. À medida que forem percebidos como bem-sucedidos, isso prolongará essa era populista. Até agora, não vejo nenhuma evidência de que ela esteja chegando ao fim.

Quais razões levam as pessoas a votar em líderes populistas na América Latina?

Houve uma espécie de tempestade perfeita na América Latina, que deixou os eleitores muito descontentes. As economias têm apresentado crescimento medíocre desde o fim do ciclo de alta das commodities há uma década. A covid-19 atingiu a América Latina duramente, e as respostas a ela deixaram os eleitores muito irritados. Além disso, há aumento da criminalidade e das organizações criminosas, tornando a vida dos cidadãos insuportável. As pessoas têm medo de sair de casa. Houve, ainda, corrupção. Quase todos os países da região sofreram um grande escândalo que envolveu o presidente ou outros membros da elite política.

Urna eletrônica: revolta da população contra a violência na América Latina tem influenciado o voto no continente (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Desde a publicação do seu best-seller, Como as Democracias Morrem, com Daniel Ziblatt, há sete anos, a situação das democracias liberais ao redor do mundo melhorou ou piorou?

Nos Estados Unidos, piorou consideravelmente. Este segundo mandato de Trump tem sido muito mais prejudicial à democracia e à ordem internacional liberal do que o primeiro. Quando escrevemos o livro, não imaginávamos a destruição autoritária que Trump promoveria. Mas, se analisarmos os números, o total de democracias no mundo se manteve estável. Há mais democracias hoje do que em 2000, apesar das crises. A Hungria é mais democrática do que quando escrevemos o livro. Assim como Polônia, Honduras, Equador e Bolívia. A Índia e alguns outros países regrediram. Países importantes, como Coreia do Sul e Brasil, conseguiram sobreviver a grandes ameaças, pelo menos até agora. As ameaças à democracia continuam reais. Trump, Putin, China, as redes sociais, a inteligência artificial, a criminalidade na América Latina… Eu não quero prever um declínio, mas será um período desafiador.

Em eleições recentes, como as do Peru e da Colômbia, assim como as do Brasil em 2022, candidatos derrotados questionaram os resultados, tanto à direita quanto à esquerda. Como sair desse ciclo?

Pelo exemplo. Os líderes precisam dizer a seus apoiadores: “Foi uma pena termos perdido”. A democracia só funciona quando os perdedores aceitam a derrota. As redes sociais pesam nisso, pela necessidade de alimentar a base com entusiasmo, e não é discurso que gera seguidores dizer: “Apenas perdemos e precisamos aceitar isso”. Os políticos têm incentivo para se radicalizar, e as alegações de fraude fazem parte disso, o que vai destruir as democracias se não tomarem as rédeas da situação.

O governo Trump decidiu impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Quais poderão ser os impactos disso na política brasileira?

A maioria das decisões de política comercial do governo Trump tem sido política. É uma política de comércio exterior confusa e bastante inepta, que muda a cada dia, conforme o humor do presidente. Não há uma política econômica coerente no governo Trump. Esses caras não são muito inteligentes. A administração Trump adotou uma abordagem intervencionista antiquada e descarada, ajudando abertamente um lado contra o outro em diversas eleições, sem um estudo sobre as consequências. Há um longo histórico, que remonta a Perón na Argentina nos anos 1940, de intervenções que se voltam contra os EUA quando são feitas de forma muito agressiva. Houve alguns casos em que as intervenções americanas parecem ter dado a Trump o que ele queria, como o apoio a Milei.  Mas há muitos outros casos, principalmente no Canadá, onde Trump beneficiou as forças mais liberais e de centro-esquerda.

Diante das barreiras que Trump encontrou no Brasil, que não cedeu aos pedidos comerciais dos americanos, e no Irã, com os reveses na guerra, o senhor acha que ele deverá intensificar as ações contra esses países ou parar e buscar outros alvos?

O Brasil é o único lugar na América Latina em que o governo Trump teve de confrontar os limites do seu poder. O governo brasileiro não recuou. Não acho que Trump tenha compreendido com quem se meteu no Brasil: o país não é Honduras. A resposta de Lula às tarifas, única na região, funciona: quando os governos cedem, Trump continua a intimidá-los; quando reagem, ele tende a recuar. Estamos vendo agora no Irã e em outros lugares os limites desse tipo de exercício irrefletido de poder. Trump está cometendo grandes erros. Ele adoraria fugir da situação no Irã e atacar Cuba, um alvo mais fácil. Mas se retirar neste momento seria uma rendição humilhante, que deixaria o Irã mais poderoso do que nunca.

Quais são as expectativas sobre as eleições presidenciais brasileiras, em que os dois principais campos políticos, do presidente Lula e de Flávio Bolsonaro, retratam o rival como uma ameaça à democracia?

A polarização no Brasil é bastante alta. A combinação de partidos fragmentados, descontentamento nas redes sociais e um sistema eleitoral que leva campos polarizados ao segundo turno gera polarização exagerada. Quando dois partidos rivais se enxergam como uma ameaça existencial, torna-se aceitável recorrer a todos os meios para deter o outro, como na tentativa de golpe de Estado de Bolsonaro em 2022-23, justificada pelo argumento de que “precisamos fazer tudo para impedir que Lula volte ao poder”. Infelizmente, esse nível de polarização existe no Brasil hoje.

O senhor já disse que as instituições brasileiras respondem melhor às ameaças autoritárias do que as dos Estados Unidos. Quais são os motivos dessa diferença?

Até agora, as instituições brasileiras tiveram um desempenho melhor do que as americanas. Nos EUA, o esforço para responsabilizar o presidente [Trump] foi lento, mal elaborado e ineficaz. No Brasil, a investigação e a acusação foram eficazes em responsabilizar o líder da tentativa de golpe. A principal diferença é que o Brasil tem experiência com o autoritarismo. Nos EUA, consideramos a democracia garantida. Isso nos levou a cometer erros graves.

Mas o STF vive uma crise de imagem. Como o Judiciário pode recuperar a confiança dos cidadãos?

Instituições e elites em todo o mundo enfrentam crises de confiança. O STF talvez seja a Suprema Corte mais poderosa do mundo democrático, e sua influência vinha crescendo havia anos desde a Lava Jato. A Corte terá de recuar para o sistema democrático funcionar bem. Mas a decisão de perseguir Bolsonaro de forma agressiva foi correta: uma crise de retorno ao autoritarismo é pior do que um STF agressivo.

Hoje, com a IA, é possível gerar conteúdos em grande quantidade para usar nas redes sociais. Como o senhor vê o uso de IA em campanhas?

É uma tecnologia em rápida evolução e que veio para ficar. Os políticos vão usá-la, e isso traz oportunidades e ameaças. Não há dúvida de que a IA pode causar grandes danos e ameaçar a democracia. O perigo reside em aceitar as novas tecnologias sem estudar suas consequências e sem estar disposto a regulamentá-las. Os políticos inovarão com IA, e a questão é se governos e cidadãos conseguirão se adaptar a ela e aprender a operá-la antes que ela se torne uma ameaça.

Os presidentes Donald Trump e Javier Milei: líder americano tem buscado influenciar eleições em outros países (Kevin Dietsch/AFP)

É possível regulamentar as redes sociais sem restringir a liberdade de expressão?

Quanto mais se espera, mais difícil fica. O problema nos EUA é que, primeiro, permitimos que as grandes empresas de tecnologia acumulassem enorme riqueza e poder, o que lhes deu influência sobre o sistema político. Além disso, tanto os políticos quanto os cidadãos se acostumaram a um ambiente sem regulamentação.

Os Estados Unidos terão eleições de meio de mandato em novembro. O senhor vê a possibilidade de que Trump tente mudar as regras para favorecer seu partido?

Trump já tentou seriamente manipular os resultados desta eleição. Seu esquema de manipulação dos distritos eleitorais mostra que os republicanos vão “roubar” cerca de dez cadeiras, o que pode fazer com que vençam a Câmara, mesmo perdendo no voto popular. Ele também tentou aprovar legislação para dificultar o voto, mas deve fracassar no Senado. Mas, como este governo é bastante inepto, acho que há boas chances de os democratas vencerem a eleição.

Como avalia a estratégia dos democratas para recuperar espaço após a derrota de 2024?

O Partido Democrata é muito diverso, e inclui de centro-direita a facções socialistas. O problema, que o PT também enfrenta, é que a centro-esquerda no mundo carece de projeto que inspire os eleitores. Hoje, a única força capaz de mobilizar as pessoas é a extrema direita. As centro-esquerdas representam a defesa do status quo, e as pessoas estão irritadas com ele. É um desafio tanto para os democratas nos EUA quanto para o PT no Brasil.


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