Como as 500 maiores empresas do país estão se recuperando da pandemia

Testada no limite pela pandemia, a elite do capitalismo brasileiro tem feito milagres — algumas empresas conseguem até mesmo lucrar em meio à crise
 (Eduardo Knapap/Folhapress)
(Eduardo Knapap/Folhapress)
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Roberta Paduan

Publicado em 19/11/2020 às 05:07.

Última atualização em 19/11/2020 às 11:26.

No fim de 2019, o executivo paulistano Jerome Cadier, presidente da Latam Brasil, se preparava para um “grande ano”. O grupo do setor aéreo, formado pela chilena Lan Chile e pela brasileira TAM, havia registrado um lucro de 190 milhões de dólares e transportado um recorde de 74 milhões de passageiros no ano. O mineiro Lorival Luz, presidente da fabricante de bens de consumo BRF, terminou 2019 comemorando a volta da companhia ao azul, com 1,2 bilhão de reais de lucro líquido, depois de três anos de prejuí­zo e de uma disputa ruidosa de acionistas pelo comando da dona das marcas Sadia, Perdigão e Qualy. “Depois de toda a reestruturação, o cenário para 2020 era de crescimento de rentabilidade e até algum crescimento inorgânico”, disse Luz à EXAME.

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Contudo, o ano nem bem começou e a pandemia de covid-19 transformou completamente os planos de ambos os executivos. No caso da Latam e de outras empresas aéreas, não há chance de lucro em 2020. Para a BRF, a lucratividade vem sendo mantida, já que o setor de alimentos é um dos menos afetados e, em alguns casos, é até beneficiado pela crise deflagrada pela pandemia. Mas a possibilidade de aquisição saiu do mapa. “O lema é disciplina financeira”, afirma Luz.

Em 47 anos de história da publicação MELHORES­ E MAIORES, nunca houve um acontecimento capaz de provocar efeitos tão drásticos em empre­sas de todo o mundo como a pandemia de covid-19. Para a EXAME,­ uma das consequências da crise sanitária global foi o adiamento de ­MELHORES E MAIORES. A edição anual, que revela o desempenho da elite corporativa brasileira com base nos números registrados em 2019, sai agora, juntamente com o relato de como homens e mulheres de negócios vêm enfrentando os desafios inéditos de 2020.

Em relação a 2019, a economia andou de lado — mais uma vez. As projeções de crescimento do PIB para o primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro eram de 2,5%, no início do ano, mas a realidade se impôs, e o resultado foi um frustrante avanço de 1,1%. Juntas, as 500 maiores empresas do país somaram 832 bilhões de dólares de receita líquida em 2019, um aumento de 2,5% em relação ao ano anterior.

“É um crescimento tímido quando se pensa em uma economia em desenvolvimento. Mas é preciso avaliar que o grupo das 500 maiores cresceu mais do que o dobro do PIB, o que mostra a vitalidade da elite corporativa brasileira”, afirma Ariovaldo dos Santos, coordenador técnico da Fipecafi, fundação ligada à Universidade de São Paulo que coleta e processa os dados publicados em ­MELHORES E MAIORES.

O indicador que mais chama a atenção, no entanto, é o do endividamento. A dívida das 500 maiores empresas somou 855 bilhões de dólares, alta de 21% em relação a 2018, reforçando a tendência de aumento registrada durante toda a década. “A combinação de crescimento baixo com variação cambial tem contribuído para o endividamento brasileiro”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. O aumento da dívida ajuda a explicar a queda de 29% no ­lucro das 500 maiores, em parte corroído pelo aumento real do custo ­financeiro das empresas.

Iniciado 2020, as expectativas positivas para o ano foram atropeladas pela pandemia. Alguns setores, como o aéreo, entraram em colapso. “É a maior crise da história do turismo e da aviação mundial, e vai levar pelo menos três anos para recuperarmos os níveis pré-pandemia”, diz Cadier, da Latam Brasil.

Na tentativa de aguentar o tranco, o grupo Latam entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos ainda em maio (o braço brasileiro da empresa ingressou no mesmo processo em julho). Os termos de um financiamento de 2,4 bilhões de dólares foram aprovados pela Justiça americana em setembro, e a Latam Brasil começou a acessar os recursos em outubro. Antes disso, porém, a empresa demitiu 2.700 funcionários.

Felizmente, nem todos os negócios foram afetados da mesma forma pela pandemia. No caso da Marfrig, segunda maior exportadora de carne bovina do mundo, 2020 vem sendo “excepcional”. O lucro líquido da empresa no primeiro semestre deste ano atingiu 1,45 bilhão de reais, ante os 218 milhões de reais registrados no ano inteiro de 2019. O resultado se deve a uma combinação perfeita de fatores. A empresa começou 2020 assumindo a operação da Quick Food, na Argentina, e completando a aquisição da americana National Beef, responsável por abastecer mercados sofisticados, como Japão e Europa.

Fábrica da BRF: a ordem é ter disciplina financeira (Germano Lüders/Exame)

O crescimento exponencial de receita e lucro, portanto, é, em grande parte, fruto de decisões estratégicas tomadas antes da pandemia. No final de 2019, a empresa começou a procurar mercados alternativos ao chinês, que responde por 65% da receita da empresa. “China e Hong Kong tinham importado demais no final de 2019 e previmos que haveria gargalos logísticos no início deste ano. Por isso, fomos atrás de outros mercados”, afirma Miguel Gularte, presidente da Marfrig.

A decisão foi crucial para que a empresa se desviasse do congestionamento de cargas ocorrido nos portos chineses nos primeiros meses de 2020. Quando a situação se regularizou, já com a pandemia espalhada para a Europa e os Estados Unidos, a Marfrig voltou a exportar para a China, que, apesar de ter sido o marco zero da pandemia, conseguiu religar os motores da economia rapidamente.

Continuar operando em meio à pandemia foi uma das provas mais difíceis para empresas que não podiam ou não queriam parar. “Foi uma operação de guerra”, afirma Walter Schalka, presidente da fabricante de papel e celulose Suzano. “Estávamos monitorando a situação pelos escritórios no exterior, principalmente na China. Colocamos 4.000 funcionários em home office em um fim de semana.

A pandemia foi declarada em 12 de março, uma quinta-feira, e na segunda-feira o pessoal administrativo já estava trabalhando de casa." Ao mesmo tempo, a empresa preparava protocolos de segurança a ser cumpridos pelos outros 11.000 funcionários que dão expediente em fábricas, florestas e área logística, espalhada por todo o planeta.

(Arte/Exame)

A redução de mortes por covid-19 permitiu o relaxamento das medidas preventivas e a volta gradual das atividades econômicas. A sombra de uma nova onda de infecções, no entanto, já em andamento na Europa, vem deixando as expectativas em suspenso. O cenário para o encerramento de 2020 é de PIB em queda de 4,8%.

Para 2021, a consultoria MB projeta dois cenários. No primeiro, estima um crescimento de 3,5% caso o governo engrene uma agenda de reformas, a começar pela administrativa. No segundo, sem reformas, o crescimento do PIB ficaria em 2,2%. Em ambos os cenários, o país não consegue se recuperar do tombo de quase 5% deste ano.

“O problema é que 2020 trouxe de volta a preocupação com o controle fiscal e, se isso não for bem conduzido, teremos de volta a instabilidade macroeconômica, o que significa inflação mais elevada, crescimento mais baixo, juros mais altos e taxa de câmbio mais depreciada”, diz Vale, da MB. Apesar do horizonte nebuloso, a vida nas empresas segue frenética, e seus principais executivos fazem malabarismos para se adaptar ao cenário macroeconômico. A Marfrig, por exemplo, afirma que construirá, do zero, uma nova fábrica no país em 2021. O lema mais adequado ao futuro próximo parece ser “esperar o melhor, mas se preparar para o pior”.