Ser empreendedor de sucesso no Brasl é coisa de super-herói

Uma pesquisa exclusiva revela por que 98,5% dos empreendedores brasileiros não vão longe. A boa notícia é que as exceções continuam a aparecer

São Paulo - O americano Ray Kroc, responsável por transformar o McDonald’s na maior cadeia de restaurantes da história, dizia que dois fatores determinam o sucesso de um empreendedor. Primeiro, estar no lugar certo na hora certa. Depois, aproveitar que a sorte sorriu e arriscar.

Claro que as coisas são mais complicadas que isso, mas o resumo de Kroc explica como funciona o tal “espírito animal”, tão falado e tão pouco compreendido no Brasil hoje. Fora do ar-condicionado dos gabinetes ministeriais, nunca os “espíritos animais” dos empreendedores brasileiros estiveram tão aguçados.

A proporção da população que planeja abrir um negócio por aqui é três vezes maior do que nos Estados Unidos. Não falta vontade, portanto. Mas os resultados desse surto empreendedor têm sido decepcionantes.

Desde 2007 apenas 1,5% das empresas conseguiram aumentar anualmente o número de funcionários em 20% num período de três anos — um índice usado para definir as empresas de “alto impacto”. Essas companhias, sozinhas, criaram 50% dos novos postos de trabalho no Brasil. As dificuldades ficam claras graças a um estudo da ONG de empreendedorismo Endeavor.

Durante um ano, a Endeavor e a empresa de tecnologia SAP criaram um banco de dados com base em estudos de instituições como Banco Mundial e Fórum Econômico Mundial sobre o Brasil, outros países emergentes e os Estados Unidos. Até hoje, as informações de empreendedorismo não podiam ser compiladas porque vinham de fontes e de metodologias diferentes.

O que a Endeavor fez foi criar um critério único, com notas de zero a 10 para cada quesito. E o resultado não é nada animador. Estamos abaixo da média em fatores básicos para o sucesso de qualquer empresa. É mais difícil, por exemplo, contratar e demitir funcionários aqui do que na China, na Índia ou na Rússia. “O ambiente pune o crescimento”, diz Juliano Seabra, diretor-geral da Endeavor. “As regras são tão complicadas que erros ingênuos colocam em risco o futuro do negócio.”

Cenário desafiador

Alguns entraves ao sucesso são notórios, como a dificuldade de abrir e fechar empresas. São necessários 107 dias para abrir uma empresa no Brasil, ante 25 na Argentina e cinco nos Estados Unidos. Levamos nota 2,9 nesse quesito — ante 9,6 do Chile. Acabamos perdendo negócios para países mais amigáveis ao empreendedorismo. 

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o mineiro Gustavo Travassos, dono da MXT, empresa especializada em aparelhos de rastreamento de frotas que faturou 80 milhões de reais em 2012. Há oito anos, ele fechou um contrato de 8 milhões de dólares para entregar 40 000 equipamentos para o transporte público no Chile.


Para isso, precisaria ampliar sua fábrica no Brasil e conseguir licenças de exportação — algo que demoraria até um ano. Como não podia esperar, pegou um avião para Taiwan, onde abriu uma nova empresa em apenas um dia — e, feitas as encomendas a fornecedores locais, entregou tudo no praz

“Falta muito para que o Brasil possa chegar a um patamar em que seja útil tirar lições do Vale do Silício ou de Israel, fontes inesgotáveis de startups”, diz Daniel Isenberg, professor da escola de negócios americana Babson. “Para chegar a esse estágio, é preciso tirar da sala o elefante que é o excesso de regulação.”

O levantamento da Endeavor revela que, na disponibilidade de capital de risco, estamos atrás de Chile, China, Índia e África do Sul. São poucos os fundos dedicados aos negócios iniciantes — e eles sofrem com a burocracia. “Os trâmites são tantos que, quando sai o dinheiro, o negócio já mudou ou nem existe mais”, diz Paulo Humberg, do A5 Internet Investments, fundo dedicado a investir em empresas iniciantes. Não sobram muitas opções, a não ser investir por conta própria.

A empresa de softwares para o manejo de lavouras Arvus, criada há sete anos por três engenheiros em Florianópolis, só conseguiu os primeiros financiamentos um ano depois de fechar contratos com empresas como a fabricante de celulose Fibria.

Neste ano, já com receita de 10 milhões de reais, a Arvus recebeu a primeira linha de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social depois de dois anos de negativas. “Empresas americanas com nosso perfil recebem aportes antes de faturar 1 milhão”, diz Gustavo Raposo, fundador da Arvus. 

O governo joga contra, mas nossos empreendedores também poderiam ajudar mais. O raio X da Endeavor mostra que, talvez inibidos pelas dificuldades de fazer negócios no país, eles pensam pequeno. Apenas 5% dos donos de negócios iniciantes no Brasil pretendem contratar mais de 20 funcionários nos próximos cinco anos, ante 18% nos Estados Unidos e 10% na Argentina, segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), outra fonte da Endeavor.

“A ambição básica de nosso empreendedor é pagar as próprias contas”, diz Silvio Meira, cientista-chefe do Cesar, centro de inovação com sede em Pernambuco. Os empresários são conservadores — e, na média, mal preparados. Um terço deles nem sequer terminou o ensino fundamental, e a fatia de quem concluiu a pós-graduação é de 2,1%. 

Em meio a isso tudo, a boa notícia é que, conforme revelam as histórias contadas nas páginas anteriores, um grupo crescente de empresários supera essas barreiras e chega muito longe. As dificuldades não vão diminuir de uma hora para a outra, mas o mercado brasileiro oferece cada vez mais espaço a empreen­dedores que pensam grande.

É o caso do ex-jogador de futebol Edivan Costa, fundador da Sedi, empresa que ajuda companhias a conseguir licenças governamentais. Costa largou o time do Palmeiras aos 19 anos para virar corretor de imóveis. Era tão eficiente em regularizar a papelada para seus clientes que decidiu abrir um negócio próprio.

Ele voltou à sala de aula e procurou ajuda de consultores — entre eles a própria Endeavor. Hoje, emprega 100 pessoas em 11 escritórios e fatura 30 milhões de reais. “De 2008 para cá, quadrupliquei a receita”, diz Costa. A meta é crescer mais 50% em 2014 e 40% em 2015. Mesmo com o elefante na sala.

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