Rhaenyra: personagem de 'A Casa do Dragão' passou por mudanças entre série e livro (House of the Dragon/Divulgação)
Repórter
Publicado em 27 de abril de 2026 às 09h11.
Última atualização em 27 de abril de 2026 às 09h13.
A série "A Casa do Dragão" ganhou um novo trailer da terceira temporada durante a CCXP México, realizada no sábado, 25, na Cidade do México. A prévia antecipa os próximos episódios da produção da HBO, com estreia prevista para junho.
O painel contou com a presença de Matt Smith, que interpreta Daemon Targaryen; Olivia Cooke, intérprete de Alicent Hightower; e Fabien Frankel, que vive Criston Cole. O showrunner Ryan Condal participou por vídeo e afirmou que a nova temporada será a maior já feita pela série.
“É sombria. É engraçada. Cheia de ação. Emocional. E, claro, tem muitos e muitos dragões”, disse Condal.
No material exibido ao público da CCXP México, Corlys Velaryon afirma: “Tudo o que resta é você decidir o que quer desta guerra”. Em outra cena, Criston Cole alerta: “Ruína e destruição nos cercam”.
A prévia também mostra Aemond Targaryen ocupando o Trono de Ferro, depois que seu irmão, Aegon, foi desfigurado e a rainha Alicent abandonou Porto Real.
Outro ponto destacado no trailer é a Batalha do Golfo. A sequência deveria ter sido filmada na segunda temporada, mas foi cortada após a redução da leva anterior de dez para oito episódios.
A nova fase chega em um momento em que a série se afasta cada vez mais de "Fogo & Sangue", livro de George R.R. Martin que serve de base para a produção.
A obra, publicada em 2018, não é um romance tradicional, mas uma história fictícia dos Targaryen narrada a partir de fontes contraditórias.
Esse formato dá margem para a série escolher versões próprias dos acontecimentos. Desde a primeira temporada, A Casa do Dragão alterou relações entre personagens, reorganizou cronologias e suavizou ou deslocou decisões que, no livro, tornam a disputa pelo poder mais ambígua.
Confira as principais diferenças até agora:
"Fogo & Sangue", livro publicado em 2018, não é um romance. A obra funciona como uma história fictícia dos Targaryen, narrada por um arquimaestre a partir de três fontes primárias contraditórias.
Uma dessas fontes é Cogumelo, bobo da corte anão que descreve os acontecimentos da forma mais escandalosa possível. No livro, a versão verdadeira dos eventos nunca é apresentada de forma definitiva.
Na adaptação da HBO, Ryan Condal e a equipe de roteiristas escolheram uma versão dos acontecimentos. Em alguns casos, criaram uma terceira possibilidade que não aparece em nenhuma das fontes do livro.
A principal mudança está na relação entre Rhaenyra Targaryen e Alicent Hightower. Em Fire & Blood, as duas não eram amigas de infância. Alicent tem nove anos a mais que Rhaenyra, e não havia infância compartilhada nem ruptura pessoal.
O conflito, no livro, era político e dinástico. Na série, as duas foram transformadas em contemporâneas e melhores amigas de infância. A mudança reorganizou a Dança dos Dragões como a ruptura de uma relação afetiva.
Olivia Cooke (Alicent Hightower) e Emma D'Arcy (Rhaenyra Targaryen): intérpretes das protagonistas de 'A Casa do Dragão' (HBO Max/Divulgação)
“Para odiar alguém, precisa haver uma paixão que você tenha que incendiar. E acho que houve um grande amor ali”, disse Olivia Cooke durante o painel. A fala descreve uma relação que, no livro, não existe.
A Rhaenyra de "A Casa do Dragão" é construída como uma protagonista para o público acompanhar. Em "Fogo & Sangue", a personagem tem contornos mais ambíguos.
Quando Vaemond Velaryon questiona a legitimidade dos filhos dela e a insulta diante da corte, Rhaenyra ordena sua execução. Depois, manda o cadáver ser entregue à sua dragoa, Syrax.
Na série, a cena é diferente. Daemon Targaryen mata Vaemond por iniciativa própria, durante a audiência no salão do trono. A mudança preserva Rhaenyra de uma decisão mais brutal.
Esse é um padrão da adaptação. Quando o livro atribui a Rhaenyra decisões sombrias, a série desloca parte da culpa para outros personagens.
Daemon e Rhaenyra: casal é mais forte no livro (House of the Dragon/Facebook)
O destino de Laenor Velaryon também foi alterado. No livro, ele morre assassinado por seu amante, Qarl Correy, em Spicetown, diante de testemunhas.
Na série, Rhaenyra e Daemon simulam sua morte e o enviam para Essos com uma nova identidade. A escolha cria uma questão para a continuidade: se Laenor está vivo, a série precisa explicar quem poderá montar Seasmoke, o dragão que ele deixou para trás.
Outras mudanças não vêm diretamente de "Fogo & Sangue". A grande caçada do episódio 2, por exemplo, não aparece no livro. Na obra original, o Rei Viserys não tem interesse especial por caça.
A cena em que Daemon segura Rhaenyra pelo pescoço também foi criada pelos roteiristas. Já a profecia de Aegon, o Conquistador, que liga a conquista de Westeros à ameaça do Norte, veio de Martin, mas ainda não aparece em nenhum livro publicado.
Segundo Ryan Condal, Martin planeja introduzir essa ideia em The Winds of Winter ou no segundo volume ainda inédito de "Fogo & Sangue". Na prática, a série adapta também elementos de uma história que ainda não chegou aos livros.
Cogumelo, uma das três fontes históricas centrais de "Fogo & Sangue", quase desaparece na adaptação. Ele aparece por um instante no casamento de Rhaenyra e Laenor, sem fala, sem identificação e sem função narrativa.
No livro, sua presença ajuda a sustentar a ambiguidade da narrativa. Ele é uma fonte exagerada, mas também uma das poucas que não finge neutralidade.
A série faz outra escolha. "Fogo & Sangue" é construído em torno da impossibilidade de conhecer a verdade. A Casa do Dragão transforma essa disputa de versões em uma narrativa fechada para a televisão.
A terceira temporada estreia em junho. É quando a guerra chega a uma escala maior — e quando o livro se torna mais sombrio, mais arbitrário e menos compatível com qualquer leitura heroica.
Em setembro de 2024, George R.R. Martin publicou em seu blog pessoal, o Not a Blog, um texto intitulado Beware the Butterflies ("cuidado com as borboletas", em tradução literal). A publicação foi apagada cerca de meia hora depois, mas leitores já tinham salvado prints.
No texto, Martin criticava decisões criativas de "A Casa do Dragão" e citava diretamente o showrunner Condal. O ponto central era a remoção de Maelor, filho caçula de Aegon e Helaena, que existe em "Fogo & Sangue", mas foi cortado da série.
Para Martin, a ausência do personagem não era um detalhe. Em "Fogo & Sangue", Maelor tem papel importante nas consequências de Queijo e Sangue, uma das passagens mais violentas da guerra Targaryen.
No livro, Helaena é forçada a escolher qual filho morrerá. Ela escolhe Maelor, mas os assassinos matam Jaehaerys. Na série, essa escolha não existe, já que Helaena não tem um terceiro filho.
A HBO justificou a mudança por razões práticas de produção, segundo Martin. Crianças muito novas atrasariam as filmagens e aumentariam os custos.
George R. R. Martin, criador de Games of Thrones (Rich Polk / Stringer/Getty Images)
Martin afirmou que aceitou a decisão após Condal prometer que Maelor seria introduzido na terceira temporada. Depois, segundo o autor, o plano mudou, e o personagem foi retirado de forma definitiva.
“Maelor por si só significa pouco. É uma criança pequena, não tem uma fala, não faz nada de consequência além de morrer… mas onde, quando e como, isso importa”, escreveu Martin.
O autor afirmou que a ausência do personagem afetaria eventos futuros, como a cena de Bitterbridge, o suicídio de Helaena e os tumultos em Porto Real. Para Martin, a mudança criaria um efeito dominó nas próximas temporadas.
“E há borboletas maiores e mais tóxicas por vir, se 'A Casa do Dragão' seguir em frente com algumas das mudanças sendo contempladas para as temporadas 3 e 4”, escreveu.
A HBO respondeu com uma nota em apoio a Condal. O texto de Martin saiu do ar, e o autor não publicou os outros posts que havia prometido sobre os problemas da segunda temporada.
O episódio expôs um ponto central: embora seja produtor executivo e cocriador oficial da série, Martin não tem poder final sobre as decisões criativas da adaptação.
Em julho de 2024, o autor já havia indicado distanciamento da produção. Em um post sobre sua agenda, escreveu que a sala de roteiristas da terceira temporada se reunia em Londres, mas que ele não planejava comparecer.