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Quem é o bilionário de 94 anos que acaba de vender rede por US$ 29 bilhões

De um negócio de milho na África ao atacado alimentar nos EUA, Nathan Kirsh construiu uma fortuna de US$ 7,3 bilhões longe dos holofotes e evitando estruturas societárias complexas

Nathan Kirsh (YouTube/Captura de tela)

Nathan Kirsh (YouTube/Captura de tela)

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 31 de março de 2026 às 09h39.

A venda da Jetro Restaurant Depot, rede americana de atacado alimentar voltada a restaurantes independentes e pequenos comerciantes, por cerca de US$ 29,1 bilhões, colocou sob os holofotes um personagem que passou décadas longe deles: Nathan “Natie” Kirsh.

Aos 94 anos, o bilionário sul-africano construiu um império global a partir do atacado alimentar nos Estados Unidos e consolidou uma fortuna estimada em US$ 7,3 bilhões, em grande parte fora do radar do mercado.

A principal fonte dessa riqueza é a Jetro Holdings, dona das redes Jetro Cash & Carry e Restaurant Depot, especializadas no fornecimento de produtos para pequenos comércios e restaurantes nos Estados Unidos. Kirsh controlava cerca de 70% do negócio, que se tornou a base de um grupo privado com atuação global.

Como tudo começou

A trajetória do bilionário começa bem longe de Nova York.

Kirsh iniciou a carreira ainda jovem, ajudando a administrar o negócio da família na África do Sul. O primeiro movimento relevante veio em 1958, com a criação de uma empresa de moagem de milho na então Suazilândia, atual Essuatíni, país localizado na África Austral.

A operação cresceu rapidamente e transformou Kirsh em um dos principais investidores locais. A partir dessa base, passou a expandir atuação para distribuição e varejo, consolidando um padrão que se repetiria ao longo da carreira: operar em mercados pouco estruturados com foco em eficiência e escala.

Na década de 1970, em meio às restrições do apartheid, surgiu a oportunidade que moldaria o modelo de negócios. Ao identificar limitações no acesso de pequenos comerciantes a fornecedores, estruturou um sistema de abastecimento baseado em volume e autosserviço.

O conceito evoluiu para o cash-and-carry, ou “pague e leve”, posteriormente levado aos Estados Unidos após a identificação de ineficiências semelhantes no abastecimento de pequenos varejistas urbanos.

Antes de levar o modelo aos Estados Unidos, Kirsh já havia construído um conglomerado relevante na África do Sul. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, consolidou participações em redes de varejo, distribuição e propriedades comerciais, incluindo ativos como a rede de supermercados Checkers e o grupo Kimet, que chegou a figurar entre os maiores do país.

Rede de supermercados sul-africana Checkers: ao longo das décadas, Kirsch investiu em redes de varejo na África do Sul (GIANLUIGI GUERCIA/AFP)

A operação ganhou escala rapidamente e posicionou Kirsh como um dos principais nomes do setor de consumo na região, antes da virada que mudaria o rumo dos negócios.

O sul-africano perdeu o controle de parte relevante dos negócios ao firmar um acordo societário com a seguradora Sanlam. Divergências sobre aumento de capital levaram à venda de ativos estratégicos em 1986.

O episódio marcou a perda de uma parcela significativa do patrimônio — e forçou uma reconfiguração completa da estratégia. A partir dali, a operação nos Estados Unidos, ainda incipiente, passou a ser o principal foco.

Foi com a Jetro que Kirsh iniciou a reconstrução do império, desta vez com uma diretriz mais rígida: manter controle direto sobre os negócios e evitar estruturas societárias complexas.

A virada em Nova York

Apesar de ter fundado a Jetro em Nova York em 1976, foi só dez anos depois que o sul-africano passou a focar em escalar a operação americana.

Em 1994, Kirsh adquiriu a rede atacadista Restaurant Depot e, no ano seguinte, inaugurou a primeira unidade da marca, voltada exclusivamente a restaurantes.

As duas operações passaram a atuar de forma complementar e deram origem à estrutura que consolidaria a Jetro Holdings.

O crescimento chamou a atenção de investidores globais. Em 2003, o megainvestidor Warren Buffett chegou a negociar uma participação minoritária na empresa — um movimento incomum dentro de sua estratégia. As negociações, no entanto, não avançaram por divergências nos termos.

Mesmo sem abrir capital ou diluir controle, a companhia expandiu para mais de uma centena de unidades nos Estados Unidos.

Paralelamente, Kirsh ampliou presença em outros setores, com investimentos em indústria, segurança e imóveis, estruturando um portfólio global distribuído entre Estados Unidos, Europa, África e Austrália.

O império construído em silêncio

Ao contrário de outros bilionários, Kirsh manteve os negócios fora da bolsa ao longo de toda a trajetória. O conglomerado privado do bilionário, o Kirsh Group, reúne investimentos em private equity, mercado imobiliário e diferentes setores industriais.

Entre os ativos mais conhecidos está o Tower 42, um dos edifícios mais altos de Londres e sede de dezenas de empresas internacionais. Ainda assim, a principal geração de caixa continua concentrada na operação de distribuição de alimentos nos Estados Unidos.

Ao longo dos anos, o portfólio incluiu empresas de segurança, indústria, vestuário profissional e academias, sempre sob controle direto.

Outro pilar relevante está na filantropia. Iniciativas voltadas ao empreendedorismo já financiaram milhares de pequenos negócios na África, com foco em geração de renda e desenvolvimento local.

No fim, a trajetória foge do padrão mais comum entre bilionários globais. Kirsh construiu um império sem exposição midiática, sem capital aberto e com foco em nichos negligenciados — uma combinação rara no mundo dos negócios.

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