Vital, clube de formação de jogadores de futebol em São Paulo: em busca dos talentos do futuro (Divulgação/Divulgação)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 09h39.
Durante o mês de janeiro, os olhos do futebol brasileiro se voltam para a Copinha, a maior competição de base do país.
São mais de 250 jogos transmitidos ao vivo, com 128 equipes em campo e olheiros de todos os grandes clubes à espreita do próximo talento.
O que poucos veem, porém, é o caminho que muitos desses jovens percorreram até ali — e boa parte começa em projetos como o Vital, um clube de formação sediado na zona sul de São Paulo que vem chamando atenção por sua estrutura, metodologia e resultados silenciosos.
Em um campo alugado no bairro do Campo Limpo, cerca de 150 meninos treinam quase todos os dias. A maioria tem entre 12 e 17 anos.
Os treinos são curtos, intensos e focados em fundamentos técnicos — a base de tudo no modelo do Vital, que se define como uma incubadora de talentos do futebol, inspirada na lógica de venture capital.
O Vital nasceu em 2021, poucos meses após a criação da legislação que regulamentou as Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs).
Desde então, o projeto foi estruturado com uma visão empresarial de longo prazo: formar jogadores, colocá-los em clubes maiores e manter uma fatia dos seus direitos econômicos, com retorno no futuro por meio de transferências.
A operação consome cerca de R$ 3 milhões por ano e funciona sem sede própria ou alojamentos. Os atletas moram com suas famílias e recebem bolsas simbólicas, suficientes para cobrir transporte.“Essa estrutura leve permite foco total no que importa: a formação”, explica Carlos Guidi, um dos fundadores do projeto.
“A gente não está tentando criar um clube para competir com Flamengo, Palmeiras ou Corinthians. Estamos montando um laboratório de formação, com uma lógica de capital intelectual. Nosso ativo é o jogador. E o que diferencia esse jogador é o quanto ele foi bem formado, com tempo, método e paciência”, afirma Guidi.
Por trás do projeto está um grupo de executivos que se conheceram no mercado financeiro.
Com passagens por gestoras de recursos e empresas do mercado financeiro, eles investiram recursos próprios na criação do clube.
Guidi é gestor de recursos com passagens por bancos e gestoras. Ele estruturou o clube ao lado de Antonio Affonso Mac Dowell e Marcos Leite de Castro, do escritório MMLC Advogados, que viu na nova lei das SAFs uma oportunidade de preencher lacunas de governança e construir um projeto institucional.
Outros nomes de peso também compõem o grupo de fundadores: Bruno Szwarc e Glauco Bronz, da BlackPartners; Mauro Bergstein, da Mercury Gestão de Recursos; e Paulo Cardoso, do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
Todos são executivos com raízes no antigo Banco Garantia e experiência no mercado financeiro desde os anos 1980.
Juntos, eles pensaram o Vital como um modelo de Faria Lima para o futebol de base: profissionais no capital, processos claros, metas definidas e alinhamento entre operação e governança.
Time, comissão técnica e dirigentes do Vital: processos, metas definidas e alinhamento entre operação e governança (Divulgação/Divulgação)
A estrutura de governança da Vital segue a lógica de um banco de investimento. O clube tem um modelo de partnership, como os que existem em gestoras e escritórios financeiros.
Os executivos e formadores que trabalham no dia a dia com os jogadores detêm 60% das ações. Os outros 40% ficam com investidores de capital.
É um formato pensado para valorizar quem está “com a barriga no balcão”, nas palavras dos próprios fundadores. A ideia é reter talentos técnicos — treinadores, preparadores, fisiologistas, psicólogos — que em geral são mal pagos e pouco reconhecidos nos clubes brasileiros.
“O futebol brasileiro sempre apostou em força física e resultado rápido. A gente decidiu criar um projeto baseado em excelência técnica e paciência. Isso só funciona se quem está na operação também estiver no capital”, diz Guidi.
A comparação com o mundo das startups é inevitável.
“A gente olha para o jogador como o venture capitalista olha para uma startup. Nem todos vão vingar, mas um único acerto paga toda a operação”, diz Guidi. “A diferença é que aqui a formação tem que ser no campo, com suor, treino e paciência.”
“Não queremos ser uma fábrica de promessas, e sim de jogadores prontos para os grandes clubes”, afirma José Carlos Brunoro, uma das principais referências em marketing esportivo no Brasil e CEO do Vital.
Brunoro foi dirigente do Palmeiras nos anos 90, época em que o alviverde colecionou títulos na esteira do patrocínio recebido pela gigante italiana de laticínios Parmalat e que envolvia um choque de gestão no clube amparado pelo patrocinador.
De lá para cá, Brunoro liderou projetos importantes de patrocínio de empresas em esportes. Um deles foi o do time de futebol Audax, fundado como Pão de Açúcar Futebol Clube nos anos 80, a partir de um desejo do empresário Abílio Diniz e que, graças à boa gestão financeira e esportiva, chegou à final do campeonato paulista de 2016.
O modelo de negócio da Vital SAF é simples na teoria: formar jogadores, colocá-los em grandes clubes, manter uma fatia dos direitos econômicos e lucrar em transferências futuras.
Como clube formador certificado, a Vital também tem direito a receber percentuais sobre todas as negociações futuras dos jogadores que passaram por ali.
A operação funciona com cerca de R$ 3 milhões por ano. O custo mensal por atleta varia entre R$ 3.000 e R$ 5.000, incluindo treinos, alimentação, assistência médica, odontológica, psicológica e pedagógica.
Os meninos recebem uma bolsa simbólica de R$ 50 mensais, suficiente para o transporte até o treino — e com um cuidado: não o bastante para inverter a hierarquia familiar em casa.
O clube não tem alojamento. Os jovens moram com as famílias e voltam para casa todos os dias. Para os fundadores, isso é parte da estratégia.
A estrutura leve, sem moradia nem custos fixos pesados, permite manter o foco no que mais interessa: a formação dos atletas.
“O mercado mudou. Os clubes querem atletas que já cheguem com leitura de jogo, visão periférica, controle de bola e inteligência. É isso que entregamos.”
O modelo inclui treinos diários com bola, faixas na cabeça para estimular a visão periférica, finalizações direcionadas com metas visuais e simulações que exigem raciocínio rápido.
Os treinos são supervisionados por Professor Silva, ex-treinador das categorias de base do São Paulo FC e responsável por parte da formação de nomes como Kaká, Casemiro e Éder Militão.
“Se o menino dominar bem, levantar a cabeça e tomar a decisão certa em um segundo, ele tem futuro no futebol de elite”, diz Silva.
Originalmente, o Vital buscava preencher uma lacuna deixada pelos grandes clubes: a formação de atletas de maturação tardia, descartados cedo por falta de força física.
Hoje, o modelo mudou. O projeto continua atento a talentos subvalorizados, mas ampliou o perfil dos atletas, incluindo também jovens com biotipo padrão e características físicas já desenvolvidas — alinhando-se às demandas reais dos clubes.“A gente não está aqui para remar contra o mercado, mas para entregar o que ele precisa com mais qualidade e método”, explica Brunoro.
“Mudamos para ter uma formação global, respeitando o tempo de cada atleta, mas preparados para o que os grandes clubes exigem.”
A estrutura leve — sem folha inchada, sem estádios ou dívidas — permite que o foco fique totalmente no desenvolvimento.
Com atletas já integrados às categorias de base de São Paulo, Fluminense, Palmeiras, América-MG e outros clubes, o objetivo é ter entre 15 e 20 jogadores colocados em clubes de elite até o fim de 2026.
Quando esses jogadores forem vendidos, o Vital recebe parte do valor das transferências como clube formador e detentor de direitos econômicos.
“O retorno pode demorar, mas quando vem, é grande. É um jogo de longo prazo, como qualquer investimento bem estruturado”, afirma Guidi.
Se a Copinha é a vitrine, projetos como o Vital são a base do que se vê nela.
Enquanto milhares de garotos tentam um lugar ao sol nos gramados, executivos e treinadores seguem investindo, com método e visão de futuro, para transformar cada chute certo em ativo real — e cada talento em negócio.