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Ele criou um assistente com IA para alunos — e descobriu algo maior

Sébastien Martin, professor da Kellogg School, percebeu que o valor da IA não está em automatizar tarefas, mas em abrir caminho para inovações que antes eram impossíveis

IA generativa causa certa preocupação com sua implementação nas empresas (Wong Yu Liang/Getty Images)

IA generativa causa certa preocupação com sua implementação nas empresas (Wong Yu Liang/Getty Images)

Kellogg School of Management
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Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 08h01.

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Quando Sébastien Martin usou o ChatGPT para criar um assistente de ensino com IA para seu curso de gestão de operações, as avaliações iniciais foram positivas. Os alunos usaram o chatbot, chamado "Kai", para repassar material das aulas e slides, criar simulados de provas e fazer avaliações pré-aula.

Entretanto, Martin começou a se perguntar se não era ambição demais a forma como a IA poderia transformar a educação. Simplesmente automatizar tarefas menores e rotineiras dos assistentes de ensino dava certo: "A IA não se cansa", diz ele, mas não era uma verdadeira inovação.

“Acredito que é aqui que reside a maior parte do equívoco em relação à IA”, afirma Martin, professor associado de operações na Kellogg. “Muitas vezes, o primeiro instinto da gente é usar a IA para automatizar algo que já fazem como rotina. Isso pode não parecer uma armadilha, mas acredito que seja sim".

Ele observa uma tendência comum na forma como a maioria dos usuários de IA adota a tecnologia, passando do medo inicial ao uso experimental para substituir tarefas rotineiras. Entretanto, o potencial transformador da IA realmente se revela nos dois passos seguintes: colaboração e inovação.

Desde os testes iniciais com Kai, Martin desenvolveu novas ferramentas de IA que facilitam a colaboração com assistentes humanos, personalizam tarefas de casa e possibilitam um novo tipo de estudo de caso interativo, um dos quais recentemente publicado no The Wall Street Journal.

A experiência de Martin oferece lições que vão além da sala de aula para líderes empresariais com dificuldades em incorporar a IA em suas operações.

“É algo totalmente novo”, diz Martin. “O poder incrível desta ferramenta pode ser usado para realizar tarefas completamente novas que não tínhamos condição de fazer antes, e essas tarefas têm um valor imenso. Nunca foi tão fácil inovar, criar inovações verdadeiramente revolucionárias, mesmo em empresas que existem há décadas".

Promover colaboração ascendente com IA

No mundo dos negócios, não faltam empresas de consultoria e o que Martin chama de "gurus do LinkedIn" oferecendo teorias abrangentes sobre o futuro da IA e prometendo implementar uma estratégia de IA em empresas.

Ao contrário disso, ele sugere pensar em IA em termos de oportunidades para a empresa. E quem conhece melhor a empresa do que proprietário e seus funcionários? No ambiente incerto de hoje, ele observa, “não existe um plano específico que se possa ter certeza de que irá funcionar”, então é melhor criar um.

Permitir que equipes específicas criem seus próprios aplicativos implica confiar que elas perceberão onde a IA falha ou onde a intervenção humana seria mais apropriada.

“Os funcionários da empresa são, por definição, especialistas no que fazem. Eles sabem o que é certo e o que é errado”, diz Martin.

Na turma na qual Martin lecionava, ele percebeu que algumas perguntas dos alunos exigiam mais assistência do que o assistente virtual de IA tinha condições de prestar. Por exemplo, um aluno que faltaria em uma aula futura devido a um casamento queria saber não apenas o conteúdo que seria abordado, mas também outras tarefas que precisaria concluir para compensar a ausência.

Martin reescreveu o Kai para direcionar essas perguntas mais complexas aos seus assistentes humanos ou a ele próprio, um ajuste que gerou mais e-mails para a equipe responder, mas também proporcionou interações de melhor qualidade com os alunos.

“O que tem funcionado muito bem é, na verdade, fazer ao máximo possível a ponte com os assistentes de ensino”, diz Martin. “É muito difícil saber exatamente o que deseja dar para a IA e o que deseja tratar diretamente com seres humanos. É algo profundamente pessoal. É específico para cada problema, é específico para cada instrutor e requer muito mais conhecimento da área. Não se trata apenas de conectar e usar, mas também encontrar o nicho certo para a ferramenta".

Martin também descobriu que a colaboração entre seres humanos e IA é eficaz para dissipar preocupações comuns sobre como a tecnologia se encaixa na educação. Muitos professores universitários temem que, agora, os alunos simplesmente usem grandes modelos de linguagem para obter respostas das tarefas de casa em vez de realmente fazê-las por conta própria.

Ao mesmo tempo, os alunos reclamam que os professores usam a tecnologia para corrigir as lições de casa. Martin analisou a questão sob uma perspectiva diferente: e se as habilidades de conversa desses modelos pudessem ser usadas para demonstrar o conhecimento dos alunos sobre o conteúdo?

Em vez de pedir aos alunos de operações que respondessem a uma lista de perguntas de múltipla escolha, Martin os desafiou a "ensinar" o Kai, instruindo-o a representar o papel de um aluno do primeiro ano do MBA.

O aluno humano explica um conceito, como, por exemplo, a gestão de uma cadeia de suprimentos, ao modelo de IA, que responde com perguntas periódicas sobre o assunto. O aluno então envia o registro dessa conversa ao monitor humano, que o avalia com base na precisão e no nível de seriedade com que o aluno encarou o exercício.

Segundo Martin, os alunos responderam com entusiasmo à nova tarefa de casa, que ainda tem a vantagem de ser à prova de cola. Esse processo demonstra como inverter um medo comum relacionado à IA, neste caso o de que seja uma “máquina mágica de fazer tarefas de casa”, pode trazer benefícios.

Para empresas que começam a superar a fase de experimentação cautelosa com IA, ele sugere capacitar os funcionários com os recursos e o espaço necessários para explorar a IA, familiarizar-se com ela e descobrir por conta própria onde ela melhor se encaixa em suas operações e onde pode ser usada para ir além da automação e alcançar a real inovação.

“O mundo mudou com a IA”, diz ele. “Agora há ouro escondido em todos os lugares. É muito raro um funcionário, em qualquer lugar, conseguir descobrir algo incrível em questão de semanas".

Descubra o que é verdadeiramente novo

A capacidade da IA de representar papéis, assumindo diferentes personalidades com base em dados e instruções de treinamento, inspirou a próxima ideia ambiciosa de Martin: recriar suas aulas.

Uma tradição consolidada no ensino de negócios é o estudo de caso, um documento extenso que reúne pesquisas do mundo real: entrevistas, dados, documentos de apoio sobre uma empresa ou organização que enfrentam um determinado desafio.

De praxe, os alunos devem ler um relatório e responder a perguntas sobre as lições mais importantes do estudo.

Martin se perguntou se poderia usar a capacidade de adaptação da IA para enriquecer essa experiência. Em vez de simplesmente ler o estudo de caso e reproduzir as conclusões, os alunos poderiam conduzir um estudo de caso virtual por conta própria.

Para testar esse conceito, Martin, juntamente com a professora Daniela Hurtado-Lange, criou um estudo de caso com inteligência artificial sobre um distrito escolar que enfrentava uma crise de transporte. O estudo de caso apresenta um elenco virtual de partes interessadas que os alunos podem entrevistar, cada uma com suas próprias perspectivas e pontos cegos com base em dados reais de entrevistas.

Por exemplo, os alunos podem conversar com o superintendente do distrito escolar, que é o principal responsável pelas decisões e está totalmente ciente do cenário político existente. Ou podem conversar com um motorista de ônibus veterano, com conhecimento prático e que sabe realmente o que acontece em suas rotas de ônibus escolar.

A IA também pode compartilhar dados e documentação diretamente com os alunos. Por exemplo, o diretor de operações do distrito escolar pode fornecer ao aluno um simulador de transporte e instruí-lo sobre como operá-lo.

“É muito mais enriquecedor do que um caso típico, uma vez que é interativo, com personagens diferentes e pontos de vista distintos. É possível fazer qualquer pergunta complementar desejada e, em seguida, há narradores não confiáveis, em um grupo de pessoas nas quais não se pode confiar”, diz Martin. “Pode-se fazer praticamente o mesmo que faria com um estudo de caso tradicional, porém também muito mais".

Enquanto no estudo de caso tradicional as conclusões e recomendações eram apresentadas pelos especialistas que o elaboraram, na versão com inteligência artificial os alunos precisam montar o quebra-cabeça por conta própria e chegar às suas próprias conclusões.

“Não era possível fazer isso antes”, diz Martin. “É um fator aberto, criativo e que se assemelha muito mais a um cenário do mundo real".

Martin conseguiu implementar essa ideia inovadora em um fim de semana de trabalho (após meses de reflexão). Porém, mesmo para um novato, descobrir como fazer a IA realizar algo útil é surpreendentemente simples. Em sua experiência, a exposição gradual às LLM (Modelos de Linguagem de Grande Escala) pode familiarizar as pessoas com as ferramentas e suas capacidades.

“Qualquer pessoa, mesmo sem ter formação técnica, pode, simplesmente conversando regularmente com o ChatGPT, perceber uma grande diferença na sua compreensão desta máquina e de como ela funciona”, afirma.

Para as empresas, investir tempo no treinamento dos funcionários ajuda as pessoas a superarem o medo da tecnologia e, mais importante ainda, a começarem a sentir que a está dominando. Isso pode ajudá-las a ficarem mais entusiasmadas com as possibilidades.

“Quando as pessoas aprendem um pouco sobre IA, ficam curiosas; isso é algo muito natural do ser humano”, diz Martin. “Se mostrar às pessoas como fazer algo, elas percebem que não é tão complicado assim e, daí, têm todo tipo de ideia interessante para experimentar com a tecnologia. Elas encontram valor no que estão fazendo e, assim, ficam entusiasmadas em melhorar".

Em última análise, ele afirma que a IA representa uma oportunidade extraordinária para as empresas desbloquearem a criatividade e novas soluções, desde que consigam se familiarizar com a tecnologia, garantam que suas aplicações sejam ascendentes e se mantenham ágeis.

As empresas devem considerar a IA menos pelo potencial de facilitar a redução da força de trabalho e mais pelo potencial de inovação e vantagem competitiva.

“Colocar essa ferramenta nas mãos dos funcionários e remover esses obstáculos permitirá, no futuro, que você reaja mais rapidamente”, diz Martin. “Assim, se uma nova versão de uma tecnologia de IA for lançada e todos entrarem em pânico, naquele momento a sua empresa já terá funcionários que não apenas perderam o medo dela, mas que já a experimentaram um pouco e conhecem seus pontos fortes e fracos".

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