Mundo

Setor privado pressiona EUA contra tarifa sobre produtos brasileiros

Representantes de empresas e entidades brasileiras participam de audiências em Washington para tentar impedir sobretaxa de 25% proposta pelo governo Donald Trump

Publicado em 6 de julho de 2026 às 07h45.

Representantes de empresas brasileiras e entidades setoriais participam, a partir desta segunda-feira, 7, de audiências em Washington, nos Estados Unidos, para tentar impedir a adoção da tarifa adicional de 25% proposta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).

O principal argumento é que a medida elevaria custos para empresas e consumidores americanos, reduziria investimentos e afetaria empregos no próprio país.

Entre os participantes estão representantes da indústria, do agronegócio e do setor exportador, que apresentarão argumentos econômicos, jurídicos e comerciais contra a taxação durante a investigação conduzida pelo governo Donald Trump.

Pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a diretora de Comércio Exterior, Patrícia Gomes, defenderá que mais de 80% do comércio bilateral do setor ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico, como matrizes e filiais. Segundo ela, a tarifa prejudicaria a própria indústria americana, especialmente nos segmentos de infraestrutura e energia.

"Em componentes para a produção nos EUA, seria difícil fazer uma substituição rápida, dando oportunidade a outros países como a China", afirmou.

Segundo a Abimaq, os Estados Unidos importaram US$ 3,2 bilhões em máquinas e equipamentos brasileiros em 2025 e registraram superávit de US$ 1,2 bilhão nessa relação comercial, o que, na avaliação da entidade, enfraquece a justificativa para a adoção da tarifa.

Empresas destacam investimentos e geração de empregos nos EUA

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), representada pelo ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, argumentará que a tarifa adicional não se sustenta sob os aspectos jurídico, econômico e estratégico. A entidade também defenderá que o Brasil avançou nos temas investigados pelo USTR e estima que mais de 35,2% das manufaturas exportadas pelo país seriam atingidas pela medida.

A WEG levará à audiência o presidente de sua subsidiária americana, Peter Barry, que destacará os cerca de 2.300 funcionários da empresa nos Estados Unidos e sua participação em cadeias ligadas aos setores de energia, indústria e infraestrutura.

Segundo a companhia, a tarifa reduziria a competitividade da economia americana e prejudicaria trabalhadores locais sem alcançar os objetivos da investigação. A empresa lembra ainda que fechou recentemente um contrato para fornecer cerca de 600 motores ao projeto Thacker Pass, unidade de processamento de lítio em construção no estado de Nevada.

Pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral defenderá que o relatório do USTR apresenta falhas técnicas e utiliza informações desatualizadas, especialmente sobre desmatamento.

"Mas também em relação às exigências da OMC, aos dados que não foram considerados, principalmente os de desmatamento, que estão desatualizados", afirmou.

Café, alimentos e madeira também serão tema das audiências

A Bauducco destacará o investimento de US$ 200 milhões realizado em uma nova fábrica na Flórida, inaugurada no mês passado. A unidade dobra a capacidade de produção da empresa nos Estados Unidos, concentra toda a fabricação de wafers em um único local e deverá gerar cerca de 600 empregos quando operar em plena capacidade.

Com base nesse investimento, o CEO Stefano Mozzi solicitará que os produtos da empresa fiquem fora da tarifa por um período de três a cinco anos. Segundo ele, a medida resultaria em menos investimentos, menos empregos e preços mais altos para os consumidores americanos.

A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) defenderá que metade das exportações brasileiras do setor tem como destino os Estados Unidos e que a produção nacional é baseada em florestas plantadas e sistemas de rastreabilidade.

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) buscará manter a isenção tarifária para o café verde e ampliar a lista de exceções para incluir também o café solúvel. A estratégia foi construída em conjunto com a National Coffee Association (NCA), entidade que representa a indústria cafeeira americana.

"O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo, enquanto os Estados Unidos são o maior consumidor. Quando surgiu a perspectiva de tarifas sobre o café brasileiro, a inflação do produto chegou a ser oito vezes maior que a inflação média americana", afirmou o diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos.

A Associação Brasileira de Rochas Ornamentais (Centrorochas) defenderá que o Brasil fornece matéria-prima essencial para a indústria americana do setor e que uma eventual tarifa acabaria sendo repassada ao consumidor dos Estados Unidos. Segundo a entidade, cerca de 85% das pedras naturais consumidas no país são importadas, e um quarto desse volume vem do Brasil.

Já a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sustentará que as críticas relacionadas a tarifas preferenciais, etanol e combate ao desmatamento não encontram respaldo nas regras da OMC nem em evidências econômicas. A Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (ABPI), por sua vez, defenderá que os avanços do Brasil no combate à pirataria e na redução do prazo para análise de patentes tornam desatualizado o diagnóstico apresentado pelo USTR.

*Com O Globo

Acompanhe tudo sobre:TarifasEstados Unidos (EUA)

Mais de Mundo

Flávio Bolsonaro chega aos EUA para discutir tarifas e critica Lula

Ataque russo a Kiev deixa 14 mortos antes da cúpula da Otan

Audiência sobre tarifas dos EUA ao Brasil começa hoje; veja lista de 81 inscritos

Presidente interina da Venezuela descarta convulsão social após terremotos