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Com carne e etanol na mira, agro brasileiro tenta barrar tarifaço de Trump

Representantes do setor defenderão que sobretaxas elevam custos para empresas americanas e pressionam a inflação nos Estados Unidos

Donald Trump: o argumento é de que a taxação de matérias-primas e produtos brasileiros elevaria os custos da indústria americana, pressionando a inflação e encarecendo produtos para os consumidores do país. (Kent NISHIMURA/AFP)

Donald Trump: o argumento é de que a taxação de matérias-primas e produtos brasileiros elevaria os custos da indústria americana, pressionando a inflação e encarecendo produtos para os consumidores do país. (Kent NISHIMURA/AFP)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 6 de julho de 2026 às 06h00.

O setor produtivo brasileiro intensificou a articulação para tentar reverter as tarifas propostas pelo governo Donald Trump com base na Seção 301 da legislação comercial americana. A discussão ocorrerá nesta segunda-feira, 6, em audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).

A estratégia das entidades brasileiras será destacar os impactos econômicos das medidas para os próprios EUA. O argumento é de que a taxação de matérias-primas e produtos brasileiros elevaria os custos da indústria americana, pressionando a inflação e encarecendo produtos para os consumidores do país.

Ao todo, mais de 70 brasileiros participarão da audiência, entre representantes de cadeias produtivas, especialistas em comércio exterior, economistas e políticos.

O agronegócio terá 11 representantes com direito à fala, enquanto 12 entidades do setor agropecuário americano também apresentarão seus argumentos.

A audiência deve colocar frente a frente representantes do agronegócio brasileiro e entidades americanas favoráveis à adoção de tarifas recíprocas.

Um dos principais embates envolve o setor de biocombustíveis. A Renewable Fuels Association (RFA), que representa os produtores de etanol dos EUA, sustenta que o Brasil adota práticas comerciais desleais e defende a aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros.

Para reforçar sua posição, a entidade divulgou uma pesquisa segundo a qual 74% dos eleitores americanos apoiam o Renewable Fuel Standard (RFS), programa federal que determina a mistura obrigatória de biocombustíveis aos combustíveis fósseis.

O percentual é o maior registrado pela associação em uma década de levantamentos trimestrais — apenas 12% dos entrevistados disseram ser contrários à política.

Na avaliação da RFA, esses números reforçam o papel do etanol de milho, produzido nos Estados Unidos, e do qual o país é o maior produtor global, para reduzir a dependência energética do país, fortalecer a economia rural e ampliar a oferta de combustíveis mais acessíveis.

Além da RFA, a United States Cattlemen's Association (USCA), uma das principais entidades da pecuária americana, pediu ao presidente Donald Trump a imposição de tarifas e restrições amplas sobre todos os produtos bovinos brasileiros, incluindo carne, cortes e miúdos, sem exceções.

A associação afirma que a pecuária brasileira opera com vantagens consideradas "injustas", relacionadas a desmatamento, trabalho forçado e falhas em rastreabilidade e governança. Com isso, defende o endurecimento das barreiras comerciais até que o Brasil comprove avanços estruturais nessas áreas.

Como será a audiência da Seção 301

O governo dos Estados Unidos anunciou, em 1º de junho, que o Escritório do Representante Comercial (USTR) determinou que o Brasil agiu de forma não razoável no comércio bilateral, como parte da investigação aberta por meio da Seção 301.

Por conta disso, o USTR propôs que os EUA passem a cobrar do Brasil uma tarifa extra de 25%, com algumas exceções. A medida, no entanto, ainda não foi aplicada e haverá espaço para mais negociações, até 15 de julho.

A audiência pública do USTR desta segunda abordará diversos setores da economia e será dividida em 14 painéis, com início às 10h (horário de Washington).

Cada representante terá até cinco minutos para apresentar sua posição. Os participantes poderão responder a questionamentos feitos pelo USTR e apresentar réplicas, mas a expectativa é de que as manifestações sejam objetivas e concentradas nas consequências econômicas da adoção das tarifas.

As entidades tiveram até 1º de julho para encaminhar suas manifestações por escrito, que servirão de base para as apresentações desta segunda-feira. Participam da audiência representantes das seguintes entidades:

  • Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz)
  • Associação dos Fabricantes de Gelatina da América do Sul
  • Sociedade Rural Brasileira (SRB)
  • Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)
  • Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé)
  • Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics)
  • Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel)
  • União Nacional do Etanol de Milho (Unem)
  • União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica)
  • Indústria Brasileira de Árvores (Ibá)
  • Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci).

Se os EUA mantiverem o entendimento de que o Brasil não adotou medidas corretivas, poderá implantar novas tarifas contra o país, além das que já estão em vigor. Uma decisão final sobre o caso será definida até 15 de julho.

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