Após seis meses de conflito no Irã, presença americana no Oriente Médio mudou a balança de poder e o status quo da região (Mandel Ngan/AFP)
Repórter
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 06h00.
Seis meses após o início da guerra entre os Estados Unidos, Israel e Irã, o conflito deixou um cenário de impasse, com consequências que vão além dos campos de batalha.
Segundo estudo do think tank do Council on Foreign Relations (CFR), assinado por 7 especialistas que abordam diferentes aspectos, a guerra alterou o equilíbrio de poder no Oriente Médio e criou novos riscos para Washington e seus aliados.
O conflito começou em 28 de fevereiro de 2026, quando forças americanas e israelenses atacaram o Irã, matando imediatamente o líder supremo Ali Khamenei e atingindo instalações nucleares e militares.
Um cessar-fogo mediado pelo Paquistão e um memorando firmado em junho interromperam os combates em larga escala, mas ataques e acusações de violações continuaram.
Para Steven A. Cook, pesquisador sênior do CFR e um dos autores do estudo, a resistência iraniana frustrou a expectativa do presidente dos EUA Donald Trump de obter uma vitória rápida.
A guerra, que deveria durar de quatro a seis semanas, transformou-se em meses de negociações, escaladas intermitentes e impasse, comprometendo a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz e alterando a balança de poder no Oriente Médio.
Cook avalia que a situação representa uma possível derrota estratégica para os Estados Unidos caso Washington não consiga reverter esses efeitos. Países parceiros na região permanecem vulneráveis a ataques iranianos, enquanto os incentivos de Teerã para transformar o que restou de seu programa nuclear em capacidade bélica aumentam.
A estratégia americana também passou a depender de pressão econômica para forçar uma mudança de comportamento do regime iraniano. Mas, segundo Cook, o efeito dessa política é incerto, já que a população iraniana enfrenta dificuldades econômicas há anos e o governo demonstrou disposição para reprimir manifestações internas.
Porta-aviões americano e caças voando em formação em direção ao Irã: presença americana na região altera status quo e redefine balança de poder no Oriente Médio (Marinha dos EUA/AFP)
Outro efeito da guerra apontado pelo CFR é o fortalecimento do extremismo. A especialista Farah Pandith avalia, em sua contribuição, que o conflito abriu novas oportunidades para o Irã e seus aliados recrutarem jovens vulneráveis a ideologias extremistas, utilizando memes, vídeos e redes sociais para explorar ressentimentos relacionados a Israel e aos Estados Unidos.
Segundo Pandith, a propaganda iraniana ganhou espaço durante os seis meses de conflito e pode estimular indivíduos a agir mesmo sem ligação formal com Teerã. Ataques contra figuras públicas, comunidades judaicas, empresas e alvos considerados simbólicos podem fazer parte desse processo de radicalização, inclusive nos Estados Unidos.
No campo da segurança, o CFR aponta uma mudança na forma como o Irã utiliza suas redes de proxies — grupos armados que agem em prol de Teerã no exterior — e seus aliados.
Em vez de depender principalmente de operações sofisticadas do Hezbollah ou de outros proxies, Teerã passou a recorrer mais a criminosos contratados pela internet e a pessoas com vínculos com o Irã ou com o Líbano, o que dificulta a identificação direta de sua atuação.
Ademais, a guerra abriu espaço para que potências emergentes na região ampliassem sua influência.
Para o especialista Henri J. Barkey, a Turquia, em particular, pode se beneficiar, independentemente do resultado do conflito: uma derrota dos EUA fortaleceria sua posição como contrapeso regional, enquanto uma derrota do regime iraniano poderia abrir novas oportunidades econômicas para Ancara.
A assinatura do Acordo Conjunto de Defesa de Meca, entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, é apontada pelo especialista principalmente como um sinal da crescente importância de Ancara.
O pacto também representa uma aproximação com os países do Golfo, que historicamente têm desconfiado do papel autônomo da Turquia na região.
O presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, na Casa Branca: guerra aprofundou rixas políticas, mas redobrou cooperação militar (Saul Loeb/AFP)
Apesar das divergências políticas, a guerra aproximou ainda mais os Estados Unidos e Israel militarmente.
O CFR afirma que dezenas de aeronaves americanas estão baseadas em Israel, que os dois países compartilham inteligência de alvos e que aviões-tanque americanos reabastecem caças israelenses. Ao mesmo tempo, a cooperação militar convive com divergências sobre Gaza, o Líbano, a Síria e o próprio Irã.
Enquanto Washington busca alterar o comportamento de Teerã, especialmente em relação ao programa nuclear e ao Estreito de Ormuz, Israel considera uma mudança de regime no Irã a única solução efetiva.
A Península Arábica, por outro lado, teria se aproximado dos Estados Unidos diante dos ataques do Irã. Ed Husain avalia que a ofensiva de Teerã contra os países do Golfo reduziu a simpatia pelo regime iraniano entre os árabes sunitas e aproximou governos como os de Bahrein, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos de Washington.
Os ataques também colocaram o Líbano e a Síria em uma posição delicada. Segundo Elisa Ewers, os dois países atravessam processos frágeis de reconstrução após décadas de conflito e de influência iraniana, enquanto seus governos tentam preservar maior autonomia em meio à instabilidade provocada pela guerra.
Para o CFR, o conflito não produziu apenas vencedores e derrotados imediatos. Ao transformar o status quo, a guerra alterou alianças, fortaleceu novos atores regionais, ampliou os riscos de radicalização e deixou questões centrais sem solução, como o programa nuclear iraniano e a segurança do Estreito de Ormuz.
Mesmo com a redução dos combates, seus efeitos devem continuar moldando o Oriente Médio nos próximos anos, aponta o estudo.