Pessimismo: pesquisa mostra que maioria acredita que a vida para a próxima geração será mais difícil (LeoPatrizi/Getty Images)
Repórter
Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 06h01.
Última atualização em 15 de janeiro de 2026 às 07h42.
Expectativas importam, e muito, para a economia. O mundo vive uma de suas maiores taxas de pessimismo em nível global. E quando as pessoas pensam no futuro e projetam vidas mais infelizes e menos prósperas, toda a cadeia de atividade econômica sofre direta e indiretamente. Esse talvez seja um dos maiores desafios da economia global hoje, segundo a revista britânica The Economist.
A publicação aponta que consumidores pessimistas e sem confiança podem afetar a economia de diversas maneiras.
O pessimismo raramente esteve tão prevalente na sociedade. Uma pesquisa da empresa de consultoria FGS Global com empresários, líderes e cidadãos de Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, União Europeia e Japão revela um cenário preocupante.
Em todos os países analisados, o consenso entre maioria dos correspondentes é que a vida para a próxima geração será mais difícil, e que a sociedade favorece os ricos em detrimento dos pobres.
Também em todos os países, com exceção da Dinamarca, a maioria dos entrevistados julga que instituições públicas são ineficientes e um desperdício de fundos.
A situação é similar no Brasil: um estudo bianual da empresa de pesquisa de mercado Ipsos, denominada Ipsos Populism Report, cuja edição mais recente saiu em 2025, aponta que 69% dos brasileiros acreditam viver em uma sociedade deteriorada — o país fica em quarto lugar no ranking mundial, atrás da Alemanha, com 77%, da África do Sul, com 72% e da Hungria, com 71%.
Outras pesquisas mostram resultados igualmente pessimistas: um estudo da Gallup, com mais de 60.000 adultos, mostrou que os "pessimistas econômicos" ultrapassam os otimistas em uma proporção de 2 para 1 no Reino Unido e no Japão. Na Alemanha, a razão é de 12 para 1.
Em um mundo cada vez mais pessimista, com insatisfação geral e uma mentalidade negativa sobre economias locais e globais, a confiança do consumidor é cada vez menor. Essa situação perpetua um ciclo de baixa atividade econômica e baixa confiança no futuro - até mesmo em cenários de crescimento econômico e em economias avançadas.
Do ponto de vista direto, o baixo investimento no futuro é capaz de abafar o efeito de boas políticas fiscais e monetárias, segundo a The Economist. Famílias e firmas, sem confiança em suas economias, adiam decisões importantes que são caras e difíceis de reverter. Governos, vendo instabilidade geopolítica e incertezas, se distanciam do crescimento econômico em prol de protecionismo.
Além disso, o pessimismo também resulta em um mercado de trabalho estagnado, com menos contratações e demissões, gerando um ciclo lento e ineficiente, quando a força de trabalho favorece estabilidade ao invés de novos prospectos e ambições.
O mindset negativo também tem impactos indiretos na economia. Projeções ruins resultam em menores taxas de natalidade e menos matrículas em universidades, com casais se preocupando com o custo de criar filhos e estudantes temendo dívidas com o ensino superior. Isso gera, no longo prazo, uma força de trabalho reduzida e menos educada.
A raiz do pessimismo está na crença sobrepujante na população de que a economia é, por natureza, injusta, aponta a revista britânica. Hoje, de acordo com dados também do Ipsos Populism Report, 68% das pessoas presumem que a economia de seus países é um jogo de soma zero. Ou seja, os ganhos de um grupo ocorreriam necessariamente à custa de perdas equivalentes de outros.
A crença que a maioria das economias é de soma zero é a fonte de grande parte do pessimismo. Devido a isso, as pessoas são mais propícias a apoiar políticas que resultam, frequentemente, em mais protecionismo, de acordo com um estudo de Oxford divulgado pela The Economist.
Pensamentos de soma zero dentro da sociedade são diretamente relacionados tanto a sentimentos protecionistas quanto a fronteiras mais controladas, o que prejudica o livre comércio, de acordo com uma pesquisa da Universidade Harvard, feita Stefanie Stantcheva e publicada pela revista britânica.
A mesma lógica se aplica ao progresso tecnológico. Um levantamento de Harvard revela que três vezes mais jovens americanos dizem que a inteligência artificial destruirá mais oportunidades do que criará. No mesmo estudo da FGS Global, mais de 7 em 10 correspondentes são a favor da alta taxação de firmas de IA.
Assim, é mais provável que o pessimismo resulte em "economias defensivas" que prometam proteção e estabilidade, mas prejudiquem o crescimento – quando eleitorados são pessimistas, políticos são recompensados por políticas mais brandas e não de disciplina fiscal.
Se aproveitando da insatisfação e do pessimismo que prevalece na maioria do eleitorado, líderes populistas têm campo fértil para capitalizar medidas que trazem uma sensação de segurança econômica para a população, tendo como custo as projeções de crescimento econômico.