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O 'Domo Dourado' de Tump: o que é e o que tem a ver com a Groenlândia?

Republicano usa tópicos de segurança para justificar suas ambições de anexar a Groenlândia, e o projeto do Domo Dourado ocupa espaço central na narrativa – mas o que é o Domo?

Domo de Ferro de Israel no abate de 50 foguetes do Hezbollah, em 2024 (Jalaa Marey/AFP)

Domo de Ferro de Israel no abate de 50 foguetes do Hezbollah, em 2024 (Jalaa Marey/AFP)

Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 16h00.

O Domo Dourado, Cúpula Dourada, ou Golden Dome, em inglês, é um projeto de defesa americano ainda no papel que custará estimados US$ 175 bilhões. Incorporando uma miríade de mísseis e tecnologia militar de ponta, o Domo é uma espécie escudo focado em interceptar e destruir mísseis inimigos com os americanos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defende que seria capaz de destruir mísseis subsônicos, hipersônicos, balísticos, intercontinentais e até mesmo projéteis lançados do espaço a uma distância segura de centros populacionais.

Um relatório publicado em setembro do ano passado do Congresso americano joga um pouco de luz no projeto:

“O Golden Dome for America (inicialmente conhecido como Iron Dome for America) é uma iniciativa do segundo mandato do governo Trump para desenvolver um sistema integrado de defesa aérea e antimíssil. O Golden Dome visa combinar uma gama de capacidades para criar um "sistema de sistemas" para proteger os Estados Unidos de "ataques aéreos de qualquer inimigo", de acordo com um comunicado de imprensa do Departamento de Defesa. O Congresso destinou US$ 24,4 bilhões para esforços relacionados por meio da lei de reconciliação do ano fiscal de 2025 [conhecida como big beautiful bill, ou a "lei grande e bonita"]".

Segundo o relatório, o presidente americano diz que o sistema “deve estar operando até o fim de meu mandato”.

O sistema é comparável ao seu homólogo israelense, conhecido como Domo de Ferro, que cumpriu importante papel ao defender áreas populosas do país de ataques durante a guerra em Gaza.

O sistema em Israel, que recebeu financiamento pesado americano, também é centrado em utilizar mísseis contra mísseis, e é capaz de interceptar esses projéteis, juntamente com outros como disparos de artilharia, a distâncias de 4 a 70 quilômetros.

Com o republicano julgando a segurança do Ártico como comprometida se deixada à responsabilidade de seus aliados na Europa, o tópico da segurança é o epicentro de sua narrativa e justificativas para anexar a Groenlândia.

Em uma postagem em sua rede social Truth Social, o presidente elabora: “Os Estados Unidos precisam da Groenlândia para fins de segurança nacional”, escreveu Trump. “É vital para o Domo Dourado que estamos construindo”, acrescentando que a Otan deveria apoiar a aquisição da ilha pelos EUA porque a aliança se torna “muito mais formidável” assim.

Trump realmente precisa da Groenlândia para o projeto?

Posição da Groenlândia (em vermelho), entre a América do Norte e a Rússia (Wikimedia Commons)

Além de sua localização estratégica no norte do planeta, próximo à Rússia e à importantes rotas marítimas, utilizadas tanto por aliados quanto por inimigos americanos, a Groenlândia também é rica em recursos.

Dentre os mais importantes está uma abundância de terras raras, minerais fundamentais para a indústria da tecnologia militar – a China, rival dos EUA, está em posse da vasta maioria das fontes desses minerais, e controla sua distribuição com um punho de ferro.

Todavia, Trump fechou vários acordos comerciais com países da ASEAN, com o Japão, e com a própria China para a aquisição americana de terras raras no final do ano passado. Além disso, o próprio Brasil, cujas relações comerciais com os EUA vêm melhorando após as intensas tarifas de 2025, é o segundo maior depósito desses minerais atrás da China no mundo.

A contradição surge do fato de que Trump já teria acesso à Groenlândia para instalar as bases necessárias para o funcionamento do domo. Como aliado da Dinamarca, dona do território, e membro da Otan, um acordo dessa espécie não seria impossível.

Além disso, o país conta com outros aliados como o Canadá e com seu próprio território em latitudes estratégicas, como o estado de Nova York, para construir as instalações. As ameaças de Trump, avaliam especialistas, arriscam prejudicar suas chances, ao invés de aumentá-las, devido à incerteza que causam na Dinamarca e na Otan.

A maneira correta de os EUA se engajarem com um aliado para aprimorar a defesa nacional — seja por meio de radares adicionais, antenas de comunicação ou mesmo locais de interceptação — é colaborar com esse aliado”, disse, em anonimato, um ex-funcionário da defesa americana ao jornal Politico. “Se o objetivo real é fortalecer a defesa nacional, este governo teve um começo verdadeiramente desastroso.”

A narrativa de Trump também peca, segundo o veículo, porque uma grande parte do sistema seria baseada no espaço, e não em instalações terrestres.

Os dois importantes pontos da localização estratégica e dos depósitos de terras raras, apura o jornal France 24, fazem parte principalmente da necessidade do republicano de persuadir o público americano, que segue cético em relação a anexação da Groenlândia.

Uma pesquisa de janeiro pela Ipsos, em conjunto com a Reuters, revela que apenas 17% dos americanos apoiam as ambições do presidente de tomar o território dinamarquês. Desses, meros 4% apoiam a tomada do território pela força. O número revela o apoio por uma intervenção militar na Groenlândia de apenas 1 a cada 10 eleitores republicanos.

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