Mundo

Guerra com o Irã expõe fragilidade militar dos EUA e acende alerta no Pentágono

Armamentos de tecnologia de ponta são caros e os estoques sofrem com guerra no Irã. Mas mesmo além de Teerã, o arsenal americano se mantém curiosamente baixo

Apesar do vasto poderio militar, estoques de mísseis americanos seguem consistentemente baixos (US Army)

Apesar do vasto poderio militar, estoques de mísseis americanos seguem consistentemente baixos (US Army)

Publicado em 4 de agosto de 2026 às 06h00.

A escassez de munições estratégicas nos Estados Unidos entrou no centro do debate nacional e passou a influenciar as decisões da Casa Branca no conflito com o Irã.

Em análise publicada pelo think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), pesquisadores afirmam que a guerra é um fator importante, mas está longe de ser a única causa do problema.

O estudo aponta uma miríade de razões logísticas, industriais, institucionais e operacionais que explicam por que o Departamento de Defesa americano não possui hoje a profundidade de estoques considerada necessária. Para o CSIS, compreender a origem dessa fragilidade é essencial para corrigi-la.

Segundo o artigo, a guerra contra o Irã consumiu intensamente dois grupos de armamentos: sistemas de defesa antimísseis e munições de ataque de longo alcance. Entre eles estão sistemas famosos como o Patriot e o Tomahawk.

Vulnerabilidade

A análise indica que os Estados Unidos já utilizaram cerca de metade dos estoques iniciais de Patriot, THAAD e PrSM, enquanto aproximadamente um terço dos demais armamentos foi consumido. Ainda assim, o CSIS avalia que os estoques remanescentes seriam suficientes para qualquer cenário plausível no conflito atual com o Irã.

O maior risco, segundo o estudo, está em guerras futuras, especialmente contra a China, mas também contra a Rússia ou a Coreia do Norte. A Operação Epic Fury agravou um problema que já existia antes do conflito e exigirá a reconstrução dos estoques ao longo de vários anos.

O CSIS ressalta ainda que nem todas as munições estão em falta devido à guerra. Os Estados Unidos ainda dispõem de grandes quantidades de alternativas mais baratas, como as bombas JDAM, mas esses sistemas têm alcance menor e exigem que as aeronaves se aproximem mais do território inimigo, o que aumenta a vulnerabilidade operacional.

Em contrapartida, munições antinavio de longo alcance, fundamentais em um eventual confronto com a China, continuam escassas. Certos tipos de armamentos avançados quase não foram usados contra o Irã, mas seus estoques seriam rapidamente esgotados em uma guerra naval contra uma potência equivalente, pois seus números são constantemente baixos.

Fatores acumulados

A análise do CSIS atribui parte do problema às mudanças políticas ocorridas após o fim da Guerra Fria. Com a dissolução da União Soviética, Washington deixou de se preparar para uma guerra entre grandes potências e passou a focar em conflitos regionais limitados, como os envolvendo o Iraque e a Coreia do Norte.

Essa mudança reduziu drasticamente a compra de munições. O centro afirma que o alerta começou a surgir após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e as ações chinesas mais agressivas no Mar do Sul da China, mas só se tornou urgente após a invasão da Ucrânia em 2022.

Outro fator destacado é o encolhimento da base industrial de defesa. O CSIS lembra que, em 1993, o então secretário adjunto de Defesa, William Perry, incentivou empresas do setor a se fundirem ou diversificarem, processo que reduziu o número de grandes contratantes aeroespaciais e de defesa de 51 para apenas 5.

Além de ser menor, a indústria também foi reorganizada para produzir de forma eficiente em tempos de paz, não para expandir rapidamente a produção em caso de guerra. Quando o Pentágono tentou acelerar a fabricação de munições após 2022, encontrou pouca capacidade ociosa disponível.

O estudo também aponta que as munições competem mal no processo orçamentário do Pentágono. Navios, aviões e veículos blindados têm vida útil de décadas e forte valor simbólico para a dissuasão, enquanto os mísseis permanecem armazenados até serem usados em combate ou expirarem.

As guerras recentes no Oriente Médio contribuíram para reduzir ainda mais os estoques. Sob os governos Biden e Trump, os Estados Unidos consumiram centenas de interceptadores em operações contra os Houthis e em respostas a ataques iranianos contra Israel.

Riscos do futuro

O CSIS considera que as transferências de armas para a Ucrânia tiveram impacto limitado nos estoques relevantes para o conflito com o Irã. A maior parte dos equipamentos enviados destina-se ao combate terrestre, como tanques, blindados, artilharia, munição convencional e armas antitanque.

A principal exceção são os interceptadores Patriot. Cerca de 600 foram enviados à Ucrânia desde o início da guerra, embora parte tenha sido produzida especificamente para esse fim ou fornecida por países europeus, o que apenas parcialmente reduz os estoques americanos.

Portanto, o CSIS conclui que o uso de munições não é, por si só, um problema, já que elas existem para serem empregadas em combate. A questão central é se o risco criado para um conflito futuro compensa os ganhos obtidos na guerra atual.

Os Estados Unidos aceleram agora a produção de armamentos estratégicos, processo iniciado no governo Biden e ampliado pela administração Trump. Mesmo assim, o centro alerta que o desafio imediato não é falta de dinheiro, mas de tempo: novos mísseis levam de dois a quatro anos para serem entregues após a assinatura dos contratos.

Para o CSIS, há uma janela de vulnerabilidade nos próximos anos. A produção deve alcançar a demanda no futuro, mas, até lá, os Estados Unidos continuarão operando com estoques mais apertados do que o necessário para enfrentar simultaneamente crises no Oriente Médio e no Indo-Pacífico.

Acompanhe tudo sobre:Estados Unidos (EUA)Mísseis

Mais de Mundo

Ebola mata 2.184 na RDC em surto com 4.665 casos

Irã confirma presença na cúpula dos Brics em setembro

Terremoto de 7,4 na Colômbia deixa 281 mortos; buscas continuam

'Nações Desunidas': por que o próximo líder da ONU herdará entidade fragmentada