Com baixa relevância, crise financeira e permeada de conflitos, ONU enfrenta forte crise interna (Jack Guez/AFP)
Repórter
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 06h00.
A ONU enfrenta uma de suas mais profundas crises de relevância desde o fim da Guerra Fria, aponta o jornal britânico Financial Times (FT). Portanto, a sucessão do secretário-geral António Guterres, que serviu dois mandatos à frente da organização, ocorre em meio a impasses políticos, cortes de financiamento e perda de influência nas principais guerras do mundo.
O próximo líder da organização assumirá em 1º de janeiro de 2027. O desafio não será apenas administrar a instituição, mas também preservar sua capacidade de atuar como fórum global para a segurança, o clima, o desenvolvimento e os direitos humanos.
A principal favorita na corrida sucessória — repleta de mulheres — é a costa-riquenha Rebeca Grynspan. Ela liderou a primeira votação informal do Conselho de Segurança e pode se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de secretária-geral.
Também aparecem entre os candidatos a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett e o argentino Rafael Grossi. Outros nomes incluem Michelle Bachelet, María Fernanda Espinosa, Macky Sall e Olara Otunnu.
O processo de escolha é controlado, na prática, pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Dessa forma, um único voto negativo dos Estados Unidos, da China, da Rússia, do Reino Unido ou da França pode inviabilizar qualquer candidatura.
O Conselho, por sua vez, permanece paralisado desde a invasão russa da Ucrânia em 2022: o bloqueio se soma a anos de confrontos entre as grandes potências com assentos permanentes na entidade, reduzindo a produção de resoluções e enfraquecendo a autoridade do direito internacional.
Rússia, Estados Unidos e China têm sido frequentemente apontados como fatores centrais da crise, segundo o FT. Moscou usa o veto para barrar iniciativas ocidentais, Washington contorna o Conselho quando considera necessário e Pequim frequentemente se alinha à Rússia em votações estratégicas.
Reunião do Conselho de Segurança da ONU (UN Photo/Mark Garten) (UN Photo/Mark Garten/Divulgação)
A ONU encontra-se repleta de crises, conflitos internos e redundâncias. A influência da entidade nas guerras da Ucrânia, de Gaza e do Irã tornou-se limitada, com diplomatas e até ex-dirigentes afirmando que a organização foi praticamente marginalizada nos esforços de mediação desses conflitos.
Além da crise política, a ONU também enfrenta um grave problema financeiro: os Estados Unidos e outros países reduziram suas contribuições, o que provocou cortes orçamentários, demissões e pressão por uma ampla reforma administrativa.
Além disso, autoridades da própria organização reconhecem que várias agências exercem funções sobrepostas. O debate interno, portanto, deixou de ser apenas sobre expansão de programas e passou a incluir a eliminação de estruturas consideradas ineficientes.
O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, afirmou que a ONU não corre risco de desaparecer de imediato. Segundo ele, o perigo é uma “morte lenta”, marcada pela perda gradual de relevância nas crises internacionais.
Diplomatas avaliam que a América Latina tem vantagem nesta rodada de sucessão, já que há uma expectativa informal de rotação regional, o que colocaria a região na frente da fila.
De qualquer forma, a relação com os Estados Unidos será decisiva para o próximo secretário-geral, O governo de Donald Trump reduziu o apoio a diversas agências da ONU e defende concentrar recursos apenas em áreas consideradas estratégicas, como crises humanitárias específicas.
Apesar dos cortes, houve alguma cooperação no campo da ajuda humanitária. O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários recebeu financiamento dos Estados Unidos, embora acompanhado de condições mais rigorosas. Ex-dirigentes da organização argumentam que o novo líder deve priorizar mediação de conflitos, e não reformas burocráticas.
A avaliação é que mudanças administrativas podem consumir capital político sem recuperar a influência internacional da ONU.
A reforma do Conselho de Segurança continua sendo vista como improvável no médio prazo. Os próprios membros permanentes teriam de aprovar alterações que reduzissem seu poder, enquanto candidatos a novos assentos competem entre si.
O debate atual opõe duas visões sobre a ONU. Uma defende uma organização ampla, voltada para o clima, a pobreza e os direitos humanos; outra sustenta que a prioridade deve ser atuar como mediadora pragmática de conflitos entre Estados.
Especialistas afirmam que a organização já passou por períodos de forte paralisia, inclusive durante a Guerra Fria. A diferença agora é a combinação simultânea de um impasse geopolítico, de uma crise financeira e da competição com outros fóruns internacionais, como o G20.
Mesmo diante do cenário adverso, diplomatas evitam decretar o fim da ONU. O consenso é que sua capacidade de recuperação dependerá menos de reformas estruturais e mais da habilidade do próximo secretário-geral de reconstruir confiança entre as grandes potências e devolver à organização algum protagonismo nas crises internacionais.