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Como a Ucrânia virou o jogo na guerra contra a Rússia

Após anos de uma guerra com linhas de frente estagnadas, a Ucrânia vira a balança de poder no conflito e inflige sérios danos à Rússia

Ucrânia consolida sua base industrial e vira balança de poder em guerra com a Rússia. Na foto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky (Tetiana Dzhafarova/AFP)

Ucrânia consolida sua base industrial e vira balança de poder em guerra com a Rússia. Na foto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky (Tetiana Dzhafarova/AFP)

Publicado em 2 de julho de 2026 às 06h01.

Em um conflito que já dura mais do que a Primeira Guerra Mundial, e mais do que todo o envolvimento da União Soviética na Segunda Guerra, as linhas de frente da invasão russa da Ucrânia permaneceram dolorosamente estagnadas.

Campanhas por ambos os lados conquistavam ganhos moderados, que, em muitos casos, eram rapidamente perdidos ao inimigo. Todavia, recentemente, a Ucrânia tomou a vantagem na guerra, conduzindo ataques precisos à coluna vertebral da economia russa, que ameaçam a base econômica do invasor.

Essa mudança na balança de poder se deve principalmente à inovação tecnológica da Ucrânia, cujos drones são agora capazes de atingir alvos a centenas de quilômetros atrás das linhas de frente, segundo um artigo de junho do think tank Council on Foreign Relations (CFR).

"A inovação ucraniana resultou em ganhos territoriais no campo de batalha. Em grande parte devido à ampliação das operações com drones, a Ucrânia conseguiu retomar 78 milhas quadradas em cinco dias, em fevereiro de 2026, e continuou a obter avanços ao longo de sua quinta ofensiva de primavera. Agora, em comparação com o início da guerra, os drones ucranianos conseguem atingir alvos a distâncias maiores — variando de 30 a 100 quilômetros além das linhas de frente —, ampliando a zona de letalidade e forçando a Rússia a desviar recursos para proteger suas linhas de suprimento e infraestrutura", escrevem os autores, Michael Horowitz e Erin Dumbacher.

"Isso inverte a tendência de avanços russos observada ao longo de 2025, que havia gerado preocupação em muitos analistas quanto à capacidade da Ucrânia de continuar lutando. A Rússia mantém a pressão ofensiva no leste e na região de Zaporizhzhia, mas a linha de frente permanece fluida."

O que a Ucrânia faz de novo?

Ucrânia: país faz bom uso de drones, os incorporando em operações de combate de maneira eficiente e balanceada (Anadolu Agency/Getty Images)

Os drones dominam a zona de combate na guerra entre Rússia e Ucrânia, sendo responsáveis por entre 75% e 85% das baixas registradas na linha de frente. O principal diferencial observado nos últimos meses, apontam os autores, foi a capacidade da Ucrânia de aperfeiçoar ataques de precisão em larga escala, integrando essas aeronaves não tripuladas para aperfeiçoar suas operações de combate.

No plano operacional, Kiev tem obtido resultados positivos crescentes na interrupção das redes de comando, controle e logística russas, reduzindo a conectividade das forças de Moscou e forçando a dispersão das tropas.

Ataques contra sistemas de guerra eletrônica e radares, por exemplo, ampliam a chamada "névoa da guerra" para as forças russas, ao restringir o acesso a informações e ao reduzir a capacidade de detectar e neutralizar ofensivas inimigas.

Os ataques ucranianos também têm atingido centros logísticos na retaguarda, como a cidade portuária de Novorossiysk, o que aumenta a pressão sobre as linhas de abastecimento russas. Algumas estradas utilizadas desde a primeira ofensiva de 2022 tornaram-se praticamente intransitáveis, aponta o CFR.

Além disso, a concentração de drones de médio alcance contra infraestruturas críticas e corredores de transporte tem reduzido a capacidade operacional de Moscou, sobretudo porque a reconstrução desses alvos exige tempo e recursos consideráveis.

A evolução tecnológica também alterou os cálculos estratégicos dos comandantes em campo. Com a queda dos custos de produção, impulsionada por avanços em áreas como manufatura aditiva e inteligência artificial, os drones tornaram-se armas mais descartáveis e amplamente empregadas.

O drone Hornet, fornecido pelos Estados Unidos, por exemplo, custa menos de US$ 10 mil por unidade e complementa a crescente produção doméstica ucraniana.

Ao mesmo tempo, a Ucrânia adaptou suas estratégias defensivas para enfrentar os drones e os sistemas de guerra eletrônica russos, combinando soluções de alta e baixa tecnologia. Além das defesas aéreas convencionais, as forças ucranianas utilizam cabos de fibra óptica para guiar drones de ataque e reduzir a vulnerabilidade a interferências eletrônicas, e também instalam redes para capturar aeronaves não tripuladas que se aproximam de rotas de abastecimento estratégicas.

As mudanças táticas também se refletem na condução das operações terrestres. Cada vez mais, os avanços e o reabastecimento das tropas ucranianas ocorrem durante a noite, em condições climáticas adversas ou sob cobertura vegetal, momentos em que os drones russos têm mais dificuldade para identificar alvos e manter a vigilância do campo de batalha.

Base de defesa desenvolvida e consolidada

Ucrania

Ucrânia faz bom uso de recursos da UE e da Otan, mas consolida e desenvolve sua própria base industrial de defesa (Bloomberg Creative/Getty Images)

A importância dos drones no conflito foi reconhecida rapidamente pela Ucrânia, que vem desenvolvendo a escala de produção há anos.

Com um crescimento consistente, financiado em grande parte por fundos da União Europeia e ajuda da Otan, o CFR estima que, atualmente, a base de defesa industrial ucraniana é a mais robusta e inovadora da Europa, um ritmo alimentado por uma guerra existencial.

Além disso, o país priorizou a consolidação de sua capacidade doméstica na área, já que o apoio ocidental de órgãos como a Otan e a UE está sujeito aos ventos políticos, e outros parceiros, como a Starlink e a China, não são vistos como totalmente confiáveis devido aos seus laços com Moscou, o que suscita dúvidas quanto às garantias dessas cadeias de suprimento.

A produção de drones ucraniana atingiu recentemente um grau elevado de independência da China: o artigo relata que, no primeiro ano da guerra, quase todos os drones ucranianos dependiam de componentes chineses, mas que em 2025 esse número caiu para cerca de 38%, com fabricantes domésticos preenchendo os espaços.

A base industrial de defesa da Ucrânia, conforme escreveram Elina Ribakova e Lucas Risinger na revista americana de geopolítica Foreign Affairs, caracteriza-se por "soldados, startups, voluntários e órgãos governamentais fundidos em um único ecossistema, no qual um produto pode passar do protótipo ao emprego na linha de frente em questão de semanas".

Apesar dos ataques contínuos da Rússia contra instalações de produção e centros logísticos ucranianos, Moscou não conseguiu comprometer de forma significativa a capacidade de fabricação e lançamento de drones da Ucrânia ao longo da guerra.

Uma das razões é a estrutura descentralizada da indústria de defesa ucraniana. Diferentemente de países que dependem de grandes complexos industriais ou de estaleiros especializados, a produção de drones na Ucrânia está distribuída em pequenas oficinas e instalações dispersas, reduzindo a vulnerabilidade a ataques concentrados.

A ambição de Kiev, no entanto, é ampliar ainda mais essa capacidade. Em 4 de junho, o vice-ministro da Defesa da Ucrânia, Mstislav Banik, afirmou que a indústria de defesa do país poderia produzir até 20 milhões de drones militares por ano, caso os aliados garantissem financiamento suficiente para a expansão da manufatura local.

Drone em centro de treinamento para combatentes da guerra da Ucrânia (Getty Images)

Os recursos podem começar a chegar em breve. A União Europeia finaliza um empréstimo de €90 bilhões para a Ucrânia, com duração de dois anos, dos quais €6 bilhões estão destinados especificamente à produção de drones. Os recursos podem ser liberados ainda neste mês. Em discurso sobre o Estado da União no ano passado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, resumiu o desafio de Kiev ao afirmar que "a Ucrânia tem a engenhosidade; o que precisa agora é de escala".

A combinação entre táticas assimétricas e produção em massa de drones é vista por analistas como uma das principais apostas ucranianas para superar as defesas russas.

Em termos comparativos, a Ucrânia já opera em uma escala sem precedentes no uso de sistemas não tripulados. O país produziu uma quantidade estimada de quatro milhões de sistemas robóticos e autônomos em 2025 e está a caminho de fabricar entre cinco e seis milhões de unidades em 2026.

Os Estados Unidos, embora disponham de maior capacidade financeira, ainda estão ampliando sua produção de drones de baixo custo. A nova iniciativa do Pentágono para expandir o domínio norte-americano nessa área está em fase inicial e enfrenta dificuldades para ganhar escala. Das 22.320 unidades encomendadas no âmbito do programa, menos de 3 mil haviam sido entregues até o momento.

Paradoxalmente, a principal limitação da indústria de defesa ucraniana não parece ser tecnológica nem industrial, mas financeira. Estimativas indicam que o país possui entre US$ 25 bilhões e US$ 40 bilhões em capacidade de produção militar que permanece subutilizada por falta de investimentos e capital suficiente para expandir a fabricação em larga escala.

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