Mundo

De 'fábrica' a 'mercado': 4 pontos em que a China quer avançar até 2030

Plano Quinquenal foi anunciado este mês, após encontro chamado de Duas Sessões

Guangzhou, na China: país quer construir mais creches e aumentar aposentadorias (Leandro Fonseca /Exame)

Guangzhou, na China: país quer construir mais creches e aumentar aposentadorias (Leandro Fonseca /Exame)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 26 de março de 2026 às 11h33.

Última atualização em 26 de março de 2026 às 13h28.

Nos próximos cinco anos, a China quer aumentar os gastos sociais, investir mais em inovação e tecnologias de ponta e abrir ainda mais sua economia a outros países.

Estas diretrizes foram apresentadas no 15º Plano Quinquenal, documento de 70 mil caracteres chineses que aponta quais serão as prioridades do país até 2030. O texto foi fechado no encontro chamado de Duas Sessões, concluído no dia 12 de março. Ele traz 20 indicadores principais e 16 metas que o país deve buscar.

"No futuro, a China não será apenas a 'fábrica' do mundo, mas também o 'mercado' do mundo, continuando a oferecer oportunidades ao mundo com seu novo desenvolvimento", disse Yu Peng, cônsul-geral da China em São Paulo, em uma conversa com jornalistas para detalhar o plano.

"As economias da China e do Basil são altamente complementares, e o potencial de cooperação é imenso. Estamos dispostos a aprofundar ainda mais a confiança mútua, inovar na cooperação, ampliar os intercâmbios e injetar mais energia positiva no desenvolvimento de ambos os países", afirmou.

A China é um país sob um sistema de inspiração comunista, de modo que o Estado busca centralizar o planejamento da economia e tenta direcionar seus rumos de forma mais intensa. O governo chinês possui estatais em muitos setores, o que facilita este controle.

O país, no entanto, tem um modelo de "socialismo com características chinesas", que permite a atuação de empresas privadas e estrangeiras e a competição de mercado em diversos setores, mas sob regras estritas.

Veja a seguir os quatro tópicos principais do plano:

Foco em "melhorar a vida do povo"

Entre os 20 indicadores principais do plano, 7 estão relacionados a temas sociais, como melhorias em emprego, renda, educação e saúde.

"Este ano, as despesas do Orçamento Público nacional atingirão 30 milhões de yuans, com gastos em educação, seguridade social e emprego ultrapassando 4,5 milhões de yuans cada. As pensões básicas para residentes urbanos e rurais, e os subsídios ao seguro médico, continuarão a aumentar", diz Yu.

O país pretende, ainda, construir mais creches, para que os adultos tenham mais estímulos a terem filhos, e mudanças no sistema de aposentadoria, que cobre 1,4 bilhão de pessoas, de modo a "elevar de forma constante a aposentadoria básica de residentes urbanos e rurais", disse o cônsul.

As medidas incluem, ainda, asfaltar mais estradas em áreas rurais e melhorar os postos de saúde, com o uso de telemedicina.

"A China está transitando para dar igual importância ao investimento em infraestrutura e em capital humano, tomando medidas para que os frutos do desenvolvimento beneficiem todas as pessoas de forma mais ampla", afirma Yu.

Yu Peng, cônsul geral da China em São Paulo, durante evento em São Paulo

Yu Peng, cônsul-geral da China em São Paulo, durante evento em São Paulo (Divulgação)

"Inovação com intensidade"

A China quer avançar em tecnologias de ponta e, para isso, planeja aumentar os investimentos em pesquisa em desenvolvimento em 7% ao ano, em média.

Há ainda o objetivo de que o setor digital atinja 12,5% do PIB.

"Desde o desenvolvimento de variedades de trigo resistentes a doenças para garantir a segurança alimentar, até a definição clara de circuitos integrados, aeroespacial e biomedicina como indústrias pilares emergentes, a China está acelerando a conquista da autossuficiência e do fortalecimento em ciência e tecnologia de ponta", diz Yu.

O país também quer avançar em tecnologia quântica, inteligência artificial incorporada e interfaces cérebro-computador nas indústrias. Outra frente prioritária é a chamada 'economia de baixa altitude', com o uso de drones e 'táxis aéreos'.

Abertura ampla ao exterior

O país defende a busca de mais parcerias comerciais com outros países e a facilitação do fluxo internacional de mercadorias, em direção contrária aos Estados Unidos. O presidente Donald Trump tem adotado tarifas e criado barreiras ao comércio, pois ele diz que o modelo de globalização prejudica seu país.

"A grandeza de um país reside em beneficiar o mundo. A China sempre acredita que o isolamento leva ao atraso, enquanto a cooperação gera benefícios mútuos", diz Yu.

"A China seguirá reduzindo a lista negativa para investimento estrangeiro e ampliando a abertura em setores de serviços como telecomunicações e saúde, permitindo que mais empresas brasileiras e globais encontrem oportunidades", afirma.

Yu afirma que a China rejeita a construção de "pequenos pátios e altos muros" e que o país "continuará a se abrir cada vez mais".

Produção de drones na China: apesar de ampliar o valor agregado de sua produção industrial, o país asiático tem perspectiva de crescimento mais lento nos próximos anos (Leandro Fonseca/Exame)

Desenvolvimento pacífico

A China também se comprometeu a não buscar invadir outros países e expandir seus territórios, e a defender o sistema internacional multilateral.

"O rejuvenescimento da nação chinesa não trilhará o velho caminho da busca pela hegemonia e expansão", diz Yu.

O plano quinquenal prevê que a China tenha participação ativa na reforma do sistema de governança global. "A China continuará a defender a visão de que o mundo pertence a todos", afirma o cônsul.

Pequim, no entanto, tem uma visão diferente sobre Taiwan, a quem considera uma província rebelde. Assim, representantes do governo chinês disseram que não abrem mão da opção militar contra a ilha e afirmaram que cabe apenas aos chineses resolver a questão. Hoje, a ilha de Taiwan tem um governo independente e funciona como uma democracia, mas não é reconhecida como país pela maioria dos países.

Acompanhe tudo sobre:ChinaAposentadoriaÁsia

Mais de Mundo

Trump diz que EUA 'tomam controle' de Ormuz; Irã promete reagir

EUA bombardeiam Irã pelo 2º dia, e Teerã amplia ataques a bases americanas

Como funciona o modelo de aposentadoria da Austrália que chamou atenção de Trump

Gustavo Petro proíbe posse de presidente eleito em quartel na Colômbia