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Como EUA e Irã buscam construir suas narrativas de vitória na guerra

Países buscam maximizar suas conquistas e desprezar feitos do inimigo, como mostra caso de pilotos americanos que caíram no Irã

Não só Donald Trump, como todos os envolvidos na guerra, distribuem narrativas e adotam retóricas de vitória no conflito (Saul Loeb/AFP)

Não só Donald Trump, como todos os envolvidos na guerra, distribuem narrativas e adotam retóricas de vitória no conflito (Saul Loeb/AFP)

Publicado em 8 de abril de 2026 às 06h02.

Última atualização em 8 de abril de 2026 às 13h54.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, clamou vitória na guerra do Irã diversas vezes após o início dos ataques conjuntos a Teerã com Israel. Seja alegando a total destruição da marinha iraniana, de suas baterias antiaéreas ou até mesmo de sua capacidade de luta, o republicano defende uma narrativa de vitória absoluta. E Trump não é o único: líderes de todos os lados do conflito favorecem narrativas vitoriosas, minimizando perdas do seu lado e extrapolando perdas inimigas.

Por mais que, por um lado, as campanhas militares conjuntas com Israel no Irã tenham sido bem-sucedidas, a coalizão israelense-americana está longe de tirar o Teerã do conflito, já que o país ainda é capaz de exercer controle total sobre o estreito de Ormuz e conduzir vastos ataques retaliatórios por países do Golfo Pérsico, aliados aos EUA.

Por sua vez, alavancando o sucesso em Ormuz que tomou toda a economia global como refém e recentes abates de aeronaves americanas, o Irã exibe uma retórica semelhante, apesar das perdas inegavelmente desproporcionais.

Um exemplo claro das narrativas conflitantes vem desse final de semana, quando forças americanas foram capazes de resgatar, sem nenhuma baixa, dois pilotos de um caça F-15 abatido pelo Irã. Autoridades iranianas despacharam unidades paramilitares para caçar os pilotos americanos e inclusive ofereceram recompensas para civis com informações que pudessem levar à sua captura.

Para os americanos, um sucesso absoluto: uma operação de resgate bem-sucedida em território inimigo sem uma única baixa, que ainda por cima foi capaz de driblar forças iranianas, e a história foi contada como tal por parlamentares americanos e representada como uma grande vergonha para o Irã, que mobilizou recursos consideráveis para a captura dos pilotos.

Para os iranianos, apesar do resgate, o incidente foi tratado talvez não como um grande sucesso, mas como uma perda para os americanos de qualquer maneira – com sistemas de defesa naturalmente inferiores aos americanos, muitos dos quais foram destruídos pelas campanhas de bombardeio, o Irã mesmo assim foi capaz de derrubar aeronaves americanas, um feito que pode ter custado até 300 milhões de dólares para o Pentágono. Além do caça F-15, os americanos também perderam dois aviões de carga da série C-130, quatro helicópteros MH-6 e um avião de ataque ao solo A10 Warthog, renomado por sua durabilidade.

Entre os abates e aviões presos no terreno inóspito do Irã, que tiveram que ser queimados pelos americanos para que não caíssem em mãos iranianas, a narrativa nas redes sociais era positiva. Postando fotos dos chassis em chamas dos avançados caças, o porta-voz do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, escreve na legenda: “Se os EUA conquistarem mais três vitórias assim, o país será totalmente arruinado.”

O verdadeiro escopo da guerra – sem vencedores

Guerra: Trump renova prazo, Irã não cede e aliados tentam evitar nova escalada. ((Foto de ATTA KENARE/AFP via Getty Images)/Getty Images)

Por mais que os custos das aeronaves nesse caso específico não sejam triviais, aponta a revista britânica The Economist, a cifra é apenas 0,03% do orçamento do Pentágono. Todavia, os custos gerais da guerra não param de aumentar e têm fortes impactos tanto na economia civil americana quanto em sua economia bélica – apesar da retórica na Casa Branca e das inegáveis vitórias militares, é difícil acreditar em uma vitória absoluta americana.

Devido ao bloqueio de Ormuz, que transporta cerca de um quarto do petróleo mundial, cidadãos americanos estão vendo altas históricas no preço da gasolina, cujo galão (cerca de 3,7 litros) já bate os 4 dólares – o maior preço desde a invasão russa da Ucrânia em 2022, e os preços tanto da gasolina quanto de alimentos e outros bens básicos não param de subir. Isso aponta uma grande derrota política para Trump, que se elegeu, em parte, prometendo baixos preços.

Além disso, uma gasolina barata é uma marca histórica de mandatos republicanos, sujando ainda mais a reputação do gabinete de Trump, cujo presidente enfrenta suas mais baixas taxas de aprovação com 37% de aprovação e 56% de desaprovação, enquanto 7% seguem indecisos. O número cai cerca de 0,3% toda semana.

Militarmente, os estoques de armamentos avançados como os mísseis Patriot – que custam de 1 a 4 bilhões de dólares por unidade, dependendo do modelo – estão se esgotando, conforme são utilizados para interceptar drones iranianos que custam uma fração do preço e são produzidos em massa, enquanto os EUA produzem apenas entre 600 e 650 unidades do Patriot por ano, segundo dados da empresa de defesa Lockheed Martin, que produz os armamentos.

É incerto quanto tempo os EUA podem durar em uma guerra de desgaste, mesmo contra um inimigo militarmente mais fraco. Os baixos estoques e altas queimas influenciam inclusive os armamentos enviados à Ucrânia, que luta sua própria guerra contra a invasão russa.

Enquanto isso, bases por todo o Golfo utilizadas por forças americanas sofreram danos consideráveis de ataques retaliatórios iranianos. Fontes familiares com a defesa americana na região relatam à mídia que sérios danos foram sofridos em bases-chave como al-Udeid, no Catar, a maior base militar americana na região, abrigando cerca de 10 mil militares americanos, e a base saudita Prince Sultan, que guarda uma série de aeronaves e esquadrões de combate aéreo americanos.

Enfrentando brutais ataques iranianos, que se baseiam na força dos números para sobrepujar sistemas de defesa avançados, estados do Golfo apresentam, por sua vez, uma retórica de resiliência contra o inimigo, que, similarmente, não faz jus aos riscos e danos já causados pela guerra. Ao longo do conflito, o Irã alvejou, além de bases militares, infraestruturas energéticas fundamentais, como refinarias de petróleo no Kuwait e no Bahrain e uma importante planta petroquímica em Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU). Devido à narrativa do governo, o tamanho exato dos danos não é claro, e civis que reportam fotos – inclusive em grupos privados do WhatsApp, aponta a The Economist – são abordados pela polícia e presos.

Os danos aos países do Golfo vão muito além de suas fontes de energia. O conflito assustou tanto civis quanto residentes, prejudicando indústrias e levando hotéis e restaurantes a operar, nos melhores cenários, a 15 ou 20% da capacidade máxima, enquanto milhares de trabalhadores imigrantes são dispensados. Apesar do alto custo de combustíveis para aviões, decorrente da crise em Ormuz, companhias aéreas desses estados buscam estimular o turismo ainda assim, oferecendo descontos e operando de uma maneira, em geral, financeiramente pouco eficiente. Além disso, se o Irã atacaplantas de dessalinização de água – que alimentam a vasta maioria dos reservatórios de água potável desses países –, cidades inteiras poderiam ser abandonadas, apura a The Economist.

Por fim, o Irã também não é um vencedor. Por mais que tenha aguentado mais de um mês de guerra contra duas das maiores potências militares do mundo, os danos são vastos, claros e impossíveis de esconder. As ameaças de Trump giram em torno de atacar plantas de energia do Irã, mas até então os bombardeios favoreceram usinas siderúrgicas, cortando uma das maiores exportações iranianas além do petróleo, plantas petroquímicas, afetando ainda mais a exportação, mesmo que controlem Ormuz e seu principal campo para a extração de gás natural.

Para uma economia já fragilizada antes do conflito, os ataques americanos e israelenses danificam prospectos de estabilidade econômica ainda mais. A inflação atual já bate os 50%, e preços de bens básicos como alimentos sobem ainda mais rapidamente. Conforme a economia desacelera e se enfraquece ainda mais, empresas passaram a demitir funcionários em massa. Mesmo se um cessar-fogo fosse assinado imediatamente, o país levaria anos para se recuperar do choque.

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