Estreito de Ormuz: rota é responsável por 20% do escoamento global de petróleo. (Gallo Images/Orbital Horizon/Copernicus Sentinel Data 2026/Getty Images)
Repórter
Publicado em 27 de março de 2026 às 06h01.
O parlamento iraniano trabalha em um projeto de lei que imporia pedágios sobre embarcações que buscam passagem segura pelo estreito de Ormuz, uma vital passagem marítima através da qual cerca de 20% do petróleo mundial passa, de acordo com o veículo de notícias iraniano Fars.
O jornal, citando um parlamentar anônimo, afirma que o plano seria finalizado já na próxima semana, e reconheceria formalmente a soberania iraniana sobre Ormuz, que, normalmente, administra a passagem em conjunto com o Omã, um país vizinho que é simpático à causa do Irã no conflito.
Além disso, também formalizaria um arranjo unilateral que já foi reportado antes pela indústria de navegação, com pagamentos de até 2 milhões de dólares sendo demandados de cargueiros, até então de maneira informal e pouco sistemática.
O domínio de Teerã sobre o estreito é a sua maior vantagem em um conflito existencial para o país contra não somente um, mas dois adversários com poderio militar vastamente superior, Estados Unidos e Israel. Aproveitando essa vantagem geográfica e econômica, o Irã foi capaz de se manter no conflito ao mesmo tempo em que transformou a guerra em uma preocupação global.
O bloqueio no estreito é seletivo: o Irã permite passagem apenas de embarcações sob bandeiras de países aliados, como Índia, Tailândia e China, enquanto barra qualquer outro navio, resultando em centenas de embarcações carregadas de petróleo presas no estreito.
A questão dos altos pagamentos complica a situação para a indústria de navegação ainda mais, que busca, acima de tudo, resgatar as tripulações e cargas presas em Ormuz, que se mantém no lugar, pois estão relutantes em arriscar atrair a atenção do Irã, e também porque temem rumores de minas submarinas pelo estreito.
A liberdade de navegação por passagens fundamentais como essa é normalmente um direito garantido por leis internacionais.
“Em última análise, a questão é se você confiará no Irã neste assunto”, disse Amanda Bjorn, chefe de sinistros da corretora de seguros marítimos Cambiaso Risso Asia, em uma conferência marítima em Singapura.
“Isso contribuirá para dificultar o comércio global, em que desfrutamos — há cerca de cem anos — de liberdade de navegação.”
A especialista sênior em pesquisa pela Universidade de Columbia, Karen Young, é cética. Em entrevista à CNBC, Young julgou ser “muito claro” que o Irã não seria capaz de conduzir uma operação de pedágio no estreito:
“Isso é algo que os países do Conselho de Cooperação do Golfo [incluindo os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e Omã] não vão aceitar nem tolerar”, disse ela.
“Qualquer tipo de acordo paralelo ou bilateral com o Irã em relação às suas capacidades de trânsito, acredito que, a longo prazo, simplesmente não é sustentável nem aceitável para os demais exportadores da região.”
A guerra em seu quintal já forçou esses países – aliados dos EUA – a cancelar sua produção de petróleo, com plantas de extração e refinarias em muitos casos completamente destruídas por ataques retaliatórios iranianos, já que essas nações, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, permitem que os EUA utilizem bases militares em seu território para atacar Teerã.