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Na Guerra do Irã, água pode ser tão valiosa quanto petróleo

Conforme conflito completa um mês, ataques a plantas de dessalinização comprometem acesso a água potável em países do golfo

 (Majid Saeedi/Getty Images)

(Majid Saeedi/Getty Images)

Publicado em 29 de março de 2026 às 08h01.

Países situados no árido Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU), envolvidos também na guerra do Irã, dependem de milhares de plantas de dessalinização de água para obter uma grande parcela de sua água potável, diretamente das águas do golfo.

Essas plantas são alvos fáceis para ataques retaliatórios do Irã conforme os EUA e Israel continuam suas campanhas de bombardeamento no país, já que estão localizadas ao longo de quilômetros de costa exposta, confortavelmente dentro do alcance de drones e mísseis iranianos.

Para países como o Bahrain, o Kuwait e o Catar, a cifra de água potável que vem dessas plantas bate os 90%. Até para países famosos por sua riqueza, como a Arábia Saudita, essa proporção gira em torno de 70% e 40% para os EAU. O World Resources Institute (WRI), organização que monitora a disponibilidade e facilidade de acesso a recursos básicos pelo mundo, estima que cerca de 83% da população do Oriente Médio já está exposta à insegurança extrema em relação à água potável – o maior número percentual de qualquer lugar do mundo.

Comunicações diplomáticas – chamadas de cabos – dos EUA de 2008, originalmente confidenciais, mas vazadas pela plataforma WikiLeaks, notam que uma única planta de dessalinização, a planta de Jubail, fornecia cerca de 90% da água potável de Riad, capital da Arábia Saudita.

Um dos cabos diz: “A Planta de Dessalinização de Jubail fornece ao Riad mais de 90% de sua água potável. Riad teria que ser evacuada em uma semana se a planta, seus dutos ou a infraestrutura de energia associada fossem seriamente danificados ou destruídos. A estrutura atual do governo saudita não poderia existir sem a Planta de Dessalinização de Jubail.”

Desde a época desse cabo, países do Golfo investiram até 53 bilhões de dólares em passos importantes para descentralizar sua infraestrutura de água. A Arábia Saudita agora recebe 40% de sua água potável de instalações menores e mais espalhadas pela região. Os EAU e o Catar já estão construindo reservas estratégicas, provavelmente em localizações confidenciais. Dessa forma, mesmo se o Irã destruísse as principais plantas, uma grande parte da água potável ainda seria acessível para esses países.

Mesmo assim, o armazenamento é precário, com os Emirados Árabes mirando reservas equivalentes a apenas dois dias de consumo normal até 2036, que poderiam, se restritamente racionalizadas, durar até um mês, segundo apuração da revista The Economist. Estados menores, como o Bahrain, ficam ainda mais expostos aos riscos.

Por mais que atacar deliberadamente infraestruturas civis, como essas plantas, seja considerado um crime de guerra, foi uma ação conduzida por ambos os lados do conflito. Os EUA atingiram uma dessas instalações na ilha iraniana de Qeshm; em retaliação, o Irã acertou uma no Bahrain. Com as ameaças de Trump contra as usinas de energia do Irã, o país disse que atacaria unidades de tratamento de água por todo o Golfo em resposta.

Como é a situação de água no Irã?

O caso do Irã é particularmente preocupante. Dados do WRI indicam que, por mais que o Irã não dependa tanto de plantas de dessalinização quanto seus vizinhos, a situação da água potável no país ainda é uma das piores da região e do mundo. Dependendo de represas e poços aproveitados de maneira não sustentável, o Irã usa mais de 80% de todas as suas reservas renováveis em um ano, número que cresce ainda mais em anos mais secos, que se tornam mais comuns conforme o aquecimento global afeta o mundo.

Decisões políticas também impactam a disponibilidade e qualidade da água doce. Desde a revolução islâmica de 1979, o país gradualmente vem adotando uma política de autossuficiência alimentar que direciona até 90% do uso de água doce do país para irrigação. Além disso, o país também abandonou boas práticas de administração do estoque de água natural, em particular o sistema dos qanats – uma rede de canais subterrâneos alimentados pela gravidade que aproveitam o lençol freático de maneira sustentável – favorecendo profundos poços tubulares alimentados a diesel.

Essa transição contaminou partes do lençol freático com água salgada, reduzindo a disponibilidade de um recurso já escasso e aumentando custos de operação, já que bombas consomem quantias consideráveis de energia.

A longo prazo, a situação é ainda mais precária, já que a oferta e demanda de água potável estão se movendo em direções opostas, uma tendência global. Reservas de água doce no Irã cairão dos 670 bilhões de metros cúbicos, dados de 2019, para 540 bilhões em 2080, estima o WRI. Ao mesmo tempo, a demanda aumentará em 30% no período, devido ao crescimento populacional.

Teerã, que apresenta um consumo de água per capita maior do que a média, já lida com problemas assim – em 2025, um ano em que o Irã viu 40% menos chuvas, reservatórios alimentando a capital chegaram a 12% de sua capacidade total.

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