Imagem captura o momento em que centenas de imigrantes marroquinhos chegaram no enclave espanhol de Ceuta, no norte da África (Abdel Majid BZIOUAT/AFP)
Repórter
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 08h00.
A apenas 1,5 km de distância, Ceuta e Fnideq representam dois mundos distintos no norte da África. Ceuta, um enclave espanhol, é integrada à União Europeia; contrasta com a vizinha marroquina, marcada por desemprego e perspectivas limitadas para muitos jovens.
Nos últimos dias, essa divisão foi rompida quando dezenas de milhares de migrantes marroquinos e africanos subsaarianos partiram da região de Fnideq — muitos dos quais vieram a nado — em direção a Ceuta, provocando uma crise migratória que ganhou repercussão internacional.
O episódio expôs, em escala reduzida, um problema enfrentado por governos em todo o mundo, mas que se manifesta de forma intensa na Europa: a dificuldade de conter fluxos migratórios impulsionados pela desigualdade econômica entre territórios vizinhos e antigas colônias.
Moradores das duas cidades afirmam que não esperam o fim das tentativas de travessia. “Se abrissem a fronteira, metade do Marrocos iria embora”, disse ao New York Times, que cobre a crise, um vendedor de boias e pranchas na praia de Fnideq.
Ceuta está sob controle espanhol há séculos e seus 84 mil habitantes têm cidadania espanhola. Muitos, porém, mantêm laços familiares e culturais com o Marrocos e falam árabe marroquino.
Durante décadas, moradores da região podiam entrar em Ceuta sem visto e comprar produtos isentos de impostos para revendê-los no Marrocos, atividade que sustentava grande parte da economia local.
Esse comércio começou a declinar após o Marrocos investir em um grande complexo portuário e restringir a circulação de mercadorias provenientes de Ceuta. A pandemia agravou a situação e a atividade não foi retomada quando a fronteira foi reaberta.
Com o fim dessa fonte de renda, o fosso econômico aumentou. Comerciantes de Fnideq relatam ao Times queda nas vendas, endividamento e perda de empregos ligados ao antigo comércio transfronteiriço.
Hoje, os marroquinos precisam de visto para entrar em Ceuta, documento que muitos não conseguem obter. A travessia irregular passou a ser vista pela população como a única alternativa para buscar melhores oportunidades.
A crise explodiu após publicações nas redes sociais que afirmavam, falsamente, que a fronteira estava aberta. Cerca de 72 mil pessoas tentaram entrar em Ceuta; a maioria acabou retornando ao Marrocos ou sendo devolvida pelas forças espanholas.
Pelo menos 75 migrantes morreram na tentativa de travessia, a maioria por afogamento na baía que separa as duas cidades, segundo as autoridades espanholas.
As imagens da entrada em massa reacenderam debates sobre imigração na Europa e foram usadas por políticos de direita como exemplo de vulnerabilidade das fronteiras.
Em Ceuta, a rotina começou a voltar ao normal, mas a tensão permanece. Moradores relataram discussões, confrontos e chamadas à polícia envolvendo migrantes que buscavam comida e abrigo.
Muitos dos recém-chegados descobriram que alcançar Ceuta não significa permanecer nela. Sem autorização para seguir para a Europa continental, vários se escondem em bairros periféricos enquanto tentam evitar a detenção.
O prefeito de Ceuta, Juan Jesús Vivas, afirmou que a cidade vive um clima de tristeza, medo e incerteza. Para ele, a crise revelou “o quão vulnerável é a fronteira de Ceuta” e deixou a população se perguntando se uma nova onda migratória pode acontecer novamente.