Drone americano: apesar de terem sido pioneiros na implementação do novo armamento nos campos de batalha modernos, EUA ficam para trás no uso de drones (gt Rezende/Agência Força Aérea/Divulgação)
Repórter
Publicado em 16 de setembro de 2026 às 06h00.
Uma série de acontecimentos e medidas recentes pôs em dúvida o compromisso do Exército dos Estados Unidos com a adaptação às mudanças no caráter da guerra moderna, especialmente na incorporação de drones e de outros sistemas não tripulados, segundo avaliação do Council on Foreign Relations (CFR).
Segundo o instituto, o primeiro sinal da negligência americana no âmbito surgiu de um exercício militar realizado na Alemanha, entre abril e maio, no qual unidades americanas teriam apresentado desempenho inferior ao de operadores ucranianos de drones.
Cerca de 3.500 soldados dos EUA participaram do exercício semestral Combined Resolve, realizado em Hohenfels, em uma simulação que colocou as forças dos dois países frente a frente.
Uma reportagem do Wall Street Journal (WSJ) citada pelo CFR, revela que os operadores ucranianos se destacaram nas operações de reconhecimento e ataque com drones, sendo capazes de identificar e derrotar as tropas americanas com facilidade.
Segundo a apuração do WSJ, o exercício, somado às baixas sofridas pelos Estados Unidos no Irã, expôs vulnerabilidades das forças americanas diante de drones, anos depois de Washington ter protagonizado a transformação desses sistemas em um componente central da guerra moderna.
Além do pioneirismo americano no setor, nos últimos anos, o Pentágono destinou bilhões de dólares à aquisição de novas tecnologias de drones e de sistemas antidrones, além de criar unidades especializadas para operá-los. Ainda assim, no Oriente Médio, as forças americanas têm enfrentado dificuldades para se defender contra drones iranianos de longo alcance.
Os equipamentos já foram responsáveis por matar e ferir militares americanos e por destruir ou danificar aeronaves, evidenciando os desafios impostos por uma tecnologia que se tornou relativamente barata e acessível em comparação com os sistemas convencionais de defesa.
Soldado ucraniano em Bakhmut, leste do país: forças armadas da Ucrânia, devido à experiência no campo de batalha, se tornaram exímias no uso de drones (AFP/AFP)
O desempenho das tropas na Alemanha também refletiu uma mudança provocada pela guerra na Ucrânia, na qual drones menores e de curto alcance tornaram-se onipresentes no campo de batalha.
Realizado entre abril e maio, o exercício testou a capacidade dos militares participantes de operar e de se proteger contra a proliferação desses equipamentos, que passaram a desempenhar um papel decisivo no conflito entre Rússia e Ucrânia.
A experiência europeia, portanto, expôs um desafio que vai além dos drones de longo alcance empregados pelo Irã.
As forças americanas precisam lidar com uma variedade crescente de sistemas não tripulados, desde aeronaves capazes de percorrer grandes distâncias até pequenos drones usados diretamente na linha de frente, o que amplia as exigências quanto às suas capacidades de defesa.
Para o estudo, o resultado não é surpreendente, já que a Ucrânia acumula quatro anos e meio de experiência combatendo com esses sistemas em condições reais.
A experiência adquirida no campo de batalha gera um conhecimento operacional difícil de reproduzir em treinamentos realizados nos Estados Unidos.
Soldados americanos, mesmo com acesso a equipamentos semelhantes, não enfrentaram um adversário capaz de empregar drones de forma tão persistente para observar, localizar e atacar alvos.
Todavia, para o CFR, a realização do exercício também demonstra que o Exército americano está tentando extrair lições da guerra na Ucrânia.
O principal desafio agora, argumenta o estudo, é transformar esse aprendizado em mudanças permanentes, evitando a ideia de que as características do conflito não seriam relevantes para os Estados Unidos.
Uma das principais conclusões é que drones e os sensores associados já desempenham um papel central na forma como as forças militares localizam e atacam umas às outras. A chamada “massa precisa”, formada por sistemas relativamente baratos, precisos e não tripulados, empregados em larga escala, tende a ganhar importância crescente nos conflitos.
Congresso americano: maneira como as forças armadas operam depende, ultimamente, da política americana (Yasin Ozturk/Anadolu/Getty Images)
A experiência ucraniana também reforça a ideia de que a velocidade de adoção de uma tecnologia pode ser mais importante do que sua invenção.
A Ucrânia, segundo a análise, vem conseguindo adaptar-se mais rapidamente do que a Rússia ao criar redes de manutenção, ciclos de atualização de software de seis semanas e novas estruturas de comando voltadas ao emprego de sistemas não tripulados.
Nesse contexto, a questão central para os Estados Unidos não seria apenas quantos drones conseguem adquirir, mas também com que rapidez conseguem incorporá-los às unidades militares espalhadas pelo mundo e às operações que essas tropas conduzem. Para o CFR, é essa capacidade de adoção que pode determinar a vantagem operacional em um conflito.
Outro episódio aumentou as dúvidas: o Exército americano decidiu encerrar a missão de uma unidade criada especificamente para testar formas de acelerar a integração de drones, pouco menos de um ano após sua criação.
No ano passado, um batalhão de infantaria aerotransportada estacionado na Europa recebeu a missão de estudar as lições da guerra na Ucrânia e de acelerar o uso de drones para reconhecimento e ataques. Agora, a unidade voltará a desempenhar sua missão tradicional de infantaria aerotransportada.
A decisão coincidiu com uma declaração do general Christopher LaNeve, chefe interino do Estado-Maior do Exército, que menciona drones e inteligência artificial, mas também enfatiza o retorno aos “fundamentos da profissão militar”. Segundo o CFR, isso suscitou novas dúvidas quanto ao ritmo de adoção de tecnologias emergentes.
O estudo, porém, ressalta que o encerramento do experimento não implica, necessariamente, uma mudança definitiva de prioridade. LaNeve vem revertendo iniciativas de seu antecessor, e a decisão também pode refletir uma tentativa de imprimir uma nova direção ao Exército em meio à redução do foco americano na Europa durante o governo de Donald Trump.
A saída de Daniel Driscoll do cargo de secretário do Exército acrescentou uma nova camada de incerteza. Veterano da força e com experiência no setor de capital de risco, Driscoll havia defendido a aceleração dos testes e da adoção de tecnologias emergentes, especialmente de drones.
Durante sua gestão, foi lançada a Army Transformation Initiative, cujo futuro agora é questionado — a saída de Driscoll também remove uma das principais autoridades civis, confirmada pelo Senado, dedicada a preparar o Exército para os desafios dos conflitos futuros.
Ainda assim, o CFR observa que a mudança de liderança não determina necessariamente o rumo da transformação militar.
O Pentágono mantém programas voltados ao desenvolvimento de drones, enquanto a proposta orçamentária do governo Trump para o ano fiscal de 2027 prevê cerca de US$ 55 bilhões para o Defense Autonomous Warfare Group, montante que poderá ter impacto significativo nas capacidades autônomas das Forças Armadas.
O problema está na combinação dessas decisões. A saída de Driscoll e de outros comandantes que haviam impulsionado a transformação, somada ao fim do experimento com a unidade de drones, alimenta a percepção de que o Exército pode estar reduzindo a prioridade dada à chamada guerra de “massa precisa”.
Segundo o CFR, ainda não está claro se os episódios representam apenas uma mudança de lideranças e prioridades internas ou uma alteração mais profunda na estratégia militar americana.
Mas, diante do papel crescente de drones e de outras tecnologias emergentes nos conflitos, uma desaceleração na adaptação poderia representar um recuo na preparação dos Estados Unidos para a guerra do futuro.