Apesar de um segundo mandato com relativamente poucos obstáculos, Donald Trump enfrenta teste difícil e decisivo nas urnas neste novembro (Saul Loeb/AFP)
Repórter
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 06h00.
As eleições de meio mandato em novembro nos Estados Unidos serão acompanhadas de perto em todo o mundo, pois podem funcionar como um plebiscito sobre o segundo mandato de Donald Trump.
Embora o presidente não esteja na cédula, sua administração entra na disputa em um momento de queda de popularidade, inflação persistente e desgaste decorrente da guerra contra o Irã.
No momento, a principal dúvida é se os eleitores imporão uma derrota aos republicanos, retirando-lhes o controle do Congresso, ou se Trump conseguirá contrariar a tradição histórica de perdas do partido governista nas eleições de meio de mandato. O resultado definirá o grau de poder da Casa Branca nos dois últimos anos do mandato.
No Senado, os democratas enfrentam uma tarefa difícil para recuperar a maioria. Das 35 cadeiras em disputa, apenas 11 são consideradas realmente competitivas pelo Cook Political Report, uma ONG bipartidária que analisa a situação política nos EUA. Hoje, os republicanos controlam a Casa por 53 a 47, e os democratas precisam de uma vantagem líquida de quatro cadeiras para reassumir o comando.
Capitólio, sede do Congresso dos Estados Unidos, em Washington. Antes das eleições de meio mandato, preliminares ajudam a julgar o clima político do país (Joe Raedle/AFP) (Joe Raedle/AFP)
As melhores oportunidades democratas estão na Carolina do Norte, no Maine e em Ohio, além de possíveis avanços no Alasca, no Iowa ou no Texas. Ao mesmo tempo, o partido precisa defender cadeiras importantes em Michigan, Geórgia e New Hampshire. Mercados de previsão, porém, indicam que os democratas ainda são vistos como azarões na disputa pelo Senado.
O Texas se tornou uma das corridas mais observadas do país. O democrata James Talarico enfrenta o procurador-geral Ken Paxton, aliado de Trump e alvo de sucessivos escândalos pessoais e profissionais. Na Geórgia, Jon Ossoff tenta defender sua cadeira contra o republicano Mike Collins.
Na Carolina do Norte, considerada a melhor chance de vitória democrata, o ex-governador Roy Cooper disputa a sucessão do republicano Thom Tillis contra Michael Whatley, ex-presidente do Comitê Nacional Republicano. Em Iowa, uma eventual vitória do democrata Josh Turek seria vista como uma grande surpresa em um estado que Trump venceu por 13 pontos em 2024, uma margem considerada esmagadora.
A batalha pela Câmara dos Representantes pode ser ainda mais decisiva. Os 435 assentos estarão em disputa, mas apenas um pequeno grupo de distritos é considerado indefinido, com a vasta maioria pendendo para um dos partidos. O controle da Câmara determinará se Trump poderá continuar a aprovar sua agenda com relativa liberdade ou se enfrentará investigações e bloqueios legislativos conduzidos pelos democratas.
A disputa ganhou uma controvérsia adicional devido a mudanças extraordinárias nos mapas eleitorais. Sob pressão de Trump, o Texas redesenhou distritos para favorecer os republicanos, e outros estados responderam com alterações próprias fora do ciclo tradicional do censo.
O resultado é uma concentração ainda maior de recursos em poucas corridas capazes de decidir a maioria.
Pesquisas nacionais mostram vantagem crescente dos democratas no voto para a Câmara — uma análise do Financial Times sugere intenção de voto de 47,9% para os democratas e de 42,6% para os republicanos. Com isso, o partido tem maior chance de conquistar a maioria na Câmara Baixa, com o mercado de previsões da Kalshi indicando mais de 75% de probabilidade.
As eleições para governador também serão acompanhadas como um termômetro da disputa presidencial de 2028. Estados competitivos como Arizona, Geórgia, Nevada, Wisconsin, Michigan e Ohio podem revelar mudanças de humor entre o eleitorado.
Irã: guerra amplia cautela e faz petróleo saltar, prejudicando campanha republicana em novembro (Atta Kenare/AFP) (Atta Kenare/AFP/Getty Images)
Nomes democratas como Josh Shapiro, Wes Moore e JB Pritzker são vistos por analistas como possíveis presidenciáveis futuros, e suas campanhas de reeleição ganharam importância nacional. O desempenho deles será interpretado como um sinal da força do partido na sucessão de Trump.
O custo de vida surge como o tema mais sensível da eleição. Trump prometeu reduzir a inflação e o preço da gasolina, mas o índice de preços segue acima da meta do Federal Reserve e os combustíveis subiram após a escalada do conflito com o Irã. Segundo a Associação Americana de Automóveis (AAA), o galão de gasolina regular custa, em média, US$ 4,09, contra US$ 3,14 no mesmo período do ano passado.
Os democratas exploram o descumprimento das promessas econômicas da Casa Branca e acusam Trump de minimizar as dificuldades das famílias. O presidente chegou a ironizar o termo “affordability” (acessibilidade financeira), o que se tornou munição política para a oposição.
A guerra contra o Irã é outro fator de desgaste. Trump havia prometido evitar novos conflitos no Oriente Médio, mas ampliou o uso da força em diversas regiões do mundo. Meses após o início dos ataques, o regime iraniano permanece no poder, e Washington ainda tenta preservar um cessar-fogo frágil e garantir a navegação no Estreito de Hormuz.
Na imigração, os republicanos mantêm vantagem nas pesquisas, com 48% de apoio entre os eleitores, contra 36% dos democratas. O fechamento da fronteira com o México foi inicialmente popular, mas a campanha de deportações em massa provocou protestos, confrontos e mortes de cidadãos americanos durante operações federais, o que intensificou a polarização em torno do tema.
A inteligência artificial, que a Casa Branca esperava transformar em uma vitrine econômica, também se tornou foco de contestação. Crescem os protestos contra centros de dados devido ao impacto ambiental, ao consumo de energia e ao número limitado de empregos gerados. Muitos eleitores acreditam que os benefícios da tecnologia estão concentrados em um pequeno grupo de executivos do setor.
No campo financeiro, os republicanos entram na reta final com ampla vantagem. Comitês partidários e Super PACs ligados ao partido somavam cerca de US$ 658 milhões no fim de junho, contra US$ 353 milhões do lado democrata. O Maga Inc., principal Super PAC pró-Trump, acumulou mais de US$ 400 milhões, um valor incomum para uma eleição sem um candidato presidencial republicano na disputa.
Os democratas, porém, possuem cofres mais robustos em algumas corridas-chave para o Senado, especialmente no Texas e na Geórgia. Com poucas disputas realmente competitivas, a eleição de novembro tende a ser definida por uma combinação de inflação, guerra, imigração, inteligência artificial e da capacidade de cada partido de transformar recursos financeiros em mobilização nos distritos e estados decisivos.